Mariana Kotscho
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O impacto das telas no cérebro em formação

A exposição excessiva a telas prejudica o desenvolvimento cognitivo e emocional das crianças, que ainda possuem o cérebro em formação

Dr. Anderson Nitsche* Publicado em 01/03/2026, às 06h00

Bebê segura celular e olha fixamente para sua tela
A regulação emocional de crianças pode ser afetada quando a tela passa a ser usada como estratégia para acalmar, distrair ou interromper birras. - Foto: Canva Pro

O desenvolvimento cerebral infantil é intensamente moldado por estímulos variados, e o uso excessivo de telas pode comprometer habilidades essenciais como linguagem e controle emocional. A interação direta é fundamental para o aprendizado, e a exposição passiva a conteúdos digitais prejudica esse processo.

Estudos indicam que o uso precoce e excessivo de dispositivos digitais está associado a dificuldades de vocabulário e atenção, além de afetar a regulação emocional das crianças. A dependência de estímulos digitais pode dificultar a realização de tarefas que exigem concentração, como leitura e estudo.

Para mitigar esses efeitos, é crucial estabelecer limites no uso de tecnologia, priorizando atividades físicas e interações sociais. A criação de rotinas claras e a mediação dos adultos são essenciais para garantir um desenvolvimento saudável e equilibrado das crianças.

Resumo gerado por IA

O cérebro da criança não é uma versão reduzida do cérebro adulto: ele está em intensa construção. Nos primeiros anos de vida ocorre uma explosão de conexões entre neurônios, seguida por um refinamento dessas redes, processo que depende diretamente da qualidade e da variedade dos estímulos recebidos. Brincadeiras livres, movimento corporal, interação olho no olho, escuta ativa, leitura compartilhada e convivência familiar são experiências que estruturam circuitos fundamentais para linguagem, atenção, memória e controle emocional. Quando a maior parte do tempo desperto é ocupada por telas, esses estímulos essenciais tendem a ser reduzidos.

O uso excessivo de celulares, tablets e televisão está associado a alterações no desenvolvimento de áreas ligadas à linguagem, especialmente quando a exposição ocorre muito cedo e de forma passiva. A criança aprende a falar por meio da interação bidirecional. A tela, mesmo com conteúdo educativo, não substitui essa reciprocidade. Estudos também apontam que excesso de tempo digital pode estar relacionado a dificuldades posteriores de vocabulário, compreensão verbal e habilidades narrativas.

Outro ponto sensível é o sistema atencional. Muitos conteúdos digitais são desenhados para capturar atenção com estímulos rápidos, mudanças constantes de cena e recompensas imediatas. O cérebro em desenvolvimento pode se adaptar a esse padrão de alta estimulação, tornando tarefas que exigem atenção sustentada, como leitura, estudo ou escuta prolongada, mais desafiadoras. Não se trata de um dano irreversível, mas de um possível descompasso entre o tipo de estímulo predominante e as demandas cognitivas da vida escolar.

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A regulação emocional também pode ser afetada quando a tela passa a ser usada como principal estratégia para acalmar, distrair ou interromper birras. A criança precisa experimentar pequenas frustrações, esperar, negociar e aprender a lidar com o tédio para desenvolver autocontrole. Quando o desconforto é sempre rapidamente substituído por um estímulo digital, há menos oportunidade de fortalecer esses circuitos internos. Além disso, o uso noturno de telas interfere no sono, tanto pela luz azul que reduz a produção de melatonina quanto pela ativação cerebral gerada pelo conteúdo consumido.

Os principais prejuízos associados ao uso excessivo incluem atraso na fala, dificuldade de concentração, irritabilidade, alterações no sono, menor prática de atividade física e empobrecimento das interações sociais presenciais. É importante frisar que a tecnologia em si não é o vilão; o problema está no excesso, na ausência de limites e na substituição de experiências fundamentais do desenvolvimento. O impacto depende da idade, do tempo de exposição, do tipo de conteúdo e, sobretudo, da mediação dos adultos.

Equilibrar tecnologia e saúde neurológica exige construção de rotinas e regras claras, previsibilidade e exemplo dos pais. Evitar telas antes de dormir, estabelecer horários definidos, priorizar atividades físicas, leitura e brincadeiras ao ar livre e, quando possível, compartilhar o momento digital comentando o conteúdo são estratégias eficazes. Mais do que contar minutos, é essencial observar o funcionamento global da criança: ela dorme bem, interage, brinca, aprende? Se a tela começa a ocupar o centro da rotina, é hora de reequilibrar. O cérebro infantil é plástico e responsivo. Pequenas mudanças no cotidiano podem ter grande impacto no seu desenvolvimento a longo prazo.

*Dr. Anderson Nitsche é neurologista pediátrico do Hospital Pequeno Príncipe e Mestre em tecnologias aplicadas a saúde.

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