Famílias enfrentam dificuldades no diagnóstico e aceitação do autismo, além de desafios financeiros e de suporte educacional
Lorraine Barbosa* Publicado em 02/04/2025, às 06h00
É fato que as famílias de crianças autistas enfrentam desafios variados, tais como o acesso ao diagnóstico e a tratamentos, a falta de suporte e de recursos nas instituições de ensino, a própria aceitação da condição dos filhos perante àsociedade por questões de preconceito, a falta de recursos financeiros – o que dificulta o custeio de terapias e de tratamentos -, a administração de uma rotina, que requer um dinâmica familiar muito própria, entre outros. E os desafios crescem proporcionalmente em relação aos níveis de gravidade daqueles que tem o Transtorno do Espectro Autista (TEA).
Pegando carona nesse contexto, algumas reflexões se fazem necessárias e o dia 2 de abril, data da celebração do Dia Mundial da Conscientização do Autismo, é uma boa oportunidade para tal. Não à toa a Organização das Nações Unidas (ONU) instituiu esse dia no calendário mundial para propagar informações, combatendo preconceitos em relação às pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA).
Como meu olhar acaba sendoa saúde na sua integralidade, com foco na saúde bucal, o aspecto que deve ser ressaltado é o cuidado odontológiconecessário devido à hipersensibilidade sensorial dos autistas, algo que exige ambientes e abordagens adaptadas. Não estamos falando de poucos atendimentos. Para se ter uma ideia, no Brasil, cerca de 2 milhões de pessoas vivem com Transtorno do Espectro Autista (TEA), uma condição que afeta entre 1% e 2% da população mundial, segundo dados da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP).
Outro fato importante: há dez anos, as Nações Unidas estabeleceram os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), um conjunto de ações globais com objetivos para serem atingidos até 2030. Um desses objetivos prevê a necessidade de “assegurar a educação inclusiva e equitativa e de qualidade, e promover oportunidades de aprendizagem ao longo da vida para todos”. Apesar de a criação dos ODS ter bastante tempo, o debate sobre a importância de promover a inclusão a pessoas com TEA ainda é atual.
Voltando à saúde bucal!Para crianças com TEA, uma simples consulta odontológica pode se tornar uma experiência angustiante. A hipersensibilidade sensorial, comum nesses pacientes, transforma sons, luzes, texturas e até o toque em gatilhos de desconforto extremo. O que para muitos é um procedimento de rotina, para essas crianças pode ser uma situação insuportável. Sem um atendimento adaptado, o que deveria ser um cuidado básico de saúde se torna uma barreira quase intransponível.
Cada criança reage de uma forma, algumas entram no consultório e se sentem à vontade, outras precisam de um tempo para explorar o ambiente antes de começar o atendimento, outros só aceitam sentar-se na cadeira após visitas anteriores... É importante ter ambientes preparados com cadeira especial, cheia de bichinhos e estampas de dentinhos, uma sala menos clínica, sem tantos equipamentos odontológicos, livros e brinquedos para desviar a atenção dos procedimentos.
Além disso, é necessárioter uma equipe especializada para introduzir os procedimentos de forma lúdica, contando histórias e utilizando elementos mágicos para que a criança se sinta no controle. Os profissionais de odontologia precisam compreender as particularidades sensoriais das crianças com TEA, adaptar o ambiente clínico, utilizar técnicas menos invasivas e estabelecer uma comunicação eficaz são passos fundamentais para garantir um atendimento de qualidade.
A mudança, no entanto, precisa ir além dos profissionais e alcançar os gestores e donos de clínicas odontológicas: é preciso que o setor da saúde bucal abrace a inclusão, empresários e donos de clínicas precisam se abrir e se preparar para atender clientes neurodivergentes. Isso não apenas amplia o alcance dos serviços oferecidos, mas também demonstra um compromisso com a diversidade e com a inclusão na área da saúde.
*Lorraine Barbosa é CEO da Orthodontic