No mundo da alta performance, o esforço sempre foi celebrado
Cristiana Pinciroli* Publicado em 26/03/2026, às 06h00

A palestra da cientista social Megan Holmes destacou que o estresse, quando constante, prejudica o desempenho humano, pois o cérebro entra em modo de defesa, reduzindo funções essenciais como criatividade e colaboração.
Estudos em psicologia e neurociência demonstram que o bem-estar é fundamental para a performance, criando ambientes saudáveis que favorecem a inovação e o aprendizado, ao contrário da crença de que esforço constante é a única via para o sucesso.
A liderança deve incorporar práticas que promovam a segurança emocional nas equipes, como conversas sobre estresse e reconhecimento de erros, pois a alta performance surge quando o desafio é equilibrado com o bem-estar, permitindo que as pessoas alcancem seu pleno potencial.
Como atleta, aprendi desde cedo a conviver com treinos intensos, disciplina e repetição constante. A ideia de que “resultados extraordinários exigem esforço extraordinário” nunca foi um problema para mim. Pelo contrário: ressignificar o esforço como parte essencial do crescimento foi uma das maiores lições da minha trajetória.
Mas, com o tempo, aprendi algo igualmente importante.
O problema nunca foi o esforço.
O problema surge quando acreditamos que o esforço constante, sem recuperação, é a única fórmula para realizar o potencial humano.
Essa reflexão ganhou ainda mais força para mim recentemente, durante uma palestra da cientista social Megan Holmes no South by Southwest 2026.
Ela trouxe uma explicação simples e poderosa sobre o funcionamento do cérebro sob estresse.
Quando o cérebro percebe ameaça, entra em modo de defesa. Nesse estado, funções essenciais para o alto desempenho começam a diminuir: criatividade, clareza de pensamento, capacidade de colaboração e aprendizado.
Em outras palavras: quando o nível de estresse percebido aumenta continuamente, o desempenho coletivo tende a cair.
Mas há uma nuance importante aqui.
O estresse em si não é o vilão.
No esporte de alto rendimento, assim como na ciência da performance, sabemos que o estresse faz parte do processo de evolução. Treinar significa justamente submeter o corpo e a mente a desafios progressivos.
A diferença está no que vem depois.
O que realmente destrói a performance não é o estresse.
É a ausência de recuperação.
Parece óbvio, certo?
Sem recuperação, o sistema entra em exaustão.
Com recuperação, o organismo se adapta, cresce e se fortalece.
Esse princípio vale para atletas e, cada vez mais, para profissionais e organizações.
É exatamente aqui que entra um campo de estudo que tem transformado minha forma de olhar para o trabalho e para a liderança: a ciência da felicidade.
Durante muito tempo, felicidade foi tratada como algo subjetivo ou secundário nas organizações — algo desejável, mas não necessariamente estratégico.
Hoje sabemos que essa visão está ultrapassada.
Pesquisas em psicologia, neurociência e comportamento organizacional mostram que o bem-estar não é apenas um resultado da performance; ele é uma condição que a sustenta.
Ambientes psicologicamente saudáveis criam as bases para colaboração, inovação e aprendizado. Contribuem diretamente para a saúde social do ambiente organizacional.
Eles permitem que o cérebro permaneça aberto, curioso e criativo — exatamente o estado necessário para resolver problemas complexos e gerar novas ideias.
Quando conecto esses dois mundos — o da alta performance e o da ciência da felicidade — gosto de pensar neles como dois rios paralelos.
De um lado está o rio da prática deliberada: disciplina, foco e melhoria contínua.
Do outro está o rio do bem-estar: recuperação, conexão humana e sentido.
Durante muito tempo acreditamos que esses rios competiam entre si.
Hoje entendemos que eles precisam se encontrar.
Quando prática deliberada e bem-estar convergem, criamos as condições para algo muito maior: a realização sustentável do potencial humano, individual e coletivo.
Essa perspectiva também redefine o papel da liderança.
Na palestra, Holmes destacou algumas práticas simples, mas poderosas: abrir espaço para conversas sobre o que está gerando estresse nas equipes, regular o próprio tom de voz e o ritmo da comunicação, nomear tensões e estar disposto a reconhecer erros.
Gestos aparentemente pequenos, mas que enviam sinais importantes ao cérebro das pessoas sobre se aquele ambiente é seguro ou ameaçador.
E o cérebro humano responde a esses sinais de forma muito clara.
Quando percebe ameaça constante, ele se protege.
Quando percebe segurança, ele cria.
Talvez seja por isso que o Dia Internacional da Felicidade, celebrado em 20 de março, tenha ganhado tanta relevância nos últimos anos.
Mais do que uma data simbólica, ele nos lembra de algo fundamental: felicidade não é apenas um ideal pessoal. Ela é um componente essencial de sociedades, organizações e culturas que desejam prosperar.
No esporte, aprendi que resultados extraordinários exigem esforço. Mas também aprendi que é na recuperação que o corpo se transforma.
Talvez a grande evolução que estamos começando a compreender no mundo do trabalho seja exatamente essa: a alta performance não nasce apenas de objetivos e metas audaciosas. Ela emerge quando desafio e bem-estar caminham juntos, criando as condições para que o melhor das pessoas apareça — com seus pontos fortes, capacidade de colaboração e potencial de realização.
No trabalho e na vida, a lição é a mesma: o estresse não é o inimigo. O inimigo é um sistema que exige esforço constante sem criar as condições para que as pessoas se recuperem, aprendam e cresçam.
Neste dia, talvez a reflexão mais importante seja esta: felicidade não é o oposto da alta performance. Ela é uma das condições que tornam a alta performance possível — e sustentável.
*Cristiana Pinciroli é especialista em ciência da felicidade pela Happiness Studies Academy e autora do livro Esporte: um Palco para a Vida. Atua com programas de desenvolvimento humano e bem-estar baseados em evidências científicas.
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