Maria Clara Laet transformou sua paixão pela dança em uma carreira internacional no sapateado
Redação* Publicado em 18/05/2026, às 06h00

Maria Clara Laet, que inicialmente não se interessava pela dança, encontrou sua paixão no sapateado aos seis anos, transformando sua vida e carreira ao longo do tempo. Sua trajetória é marcada por uma busca constante de expressão e identidade através da dança, especialmente após a perda de sua mentora.
Mudando-se para São Paulo, Maria Clara se destacou no Kika Tap Center e começou sua carreira profissional, participando de festivais importantes. Sua formação em História pela USP também a ajudou a conectar o sapateado a ritmos brasileiros, enriquecendo sua linguagem artística.
Após um período desafiador durante a pandemia, ela criou 'Luvemba', um trabalho que a levou a Nova Iorque, onde atualmente integra a companhia kamrDANCE e se apresenta em locais renomados. Com uma abordagem inovadora que mistura jazz e ritmos brasileiros, Maria Clara busca levar a cultura brasileira ao cenário internacional do sapateado.
Num mundo em que o som pode nascer do silêncio, ou melhor, do impacto preciso de um sapato no chão, a história de Maria Clara Laet começa quase como uma ironia: uma menina que não amava dançar. Pelo menos, não do jeito tradicional. Colocada, pela mãe no balé ainda pequena, ela torceu o nariz para a rigidez dos passos ensaiados. Mas bastou um encontro, aos seis anos de idade, com o sapateado, para tudo mudar. Foi amor à primeira vista, daqueles que fazem barulho, literalmente.
Desde então, Maria Clara passou a transformar o chão em instrumento e o corpo em ritmo. Sob a orientação da primeira professora, Mariana Araújo, aprendeu uma lição que carregaria para a vida inteira: mais importante do que a técnica é ensinar e sentir a paixão. Mesmo após a perda precoce dessa mentora, a marca deixada em sua vida e coração foi definitiva. A dança, para Maria Clara, nunca mais seria apenas movimento. Seria expressão, memória e identidade.
Aos nove anos, a mudança para São Paulo ampliou seus horizontes e a levou à Kika Tap Center, um dos principais polos de sapateado do Brasil. Ali, encontrou não só formação, mas pertencimento. Foi nesse ambiente que surgiram os primeiros passos profissionais, integrando a companhia jovem “KatadoS por Aí” e subindo ao palco no Brasil International Tap Festival, experiência que selou, sem volta, sua escolha pela arte.
Mas Maria Clara nunca trilhou um caminho óbvio. Enquanto construía sua trajetória na dança, também mergulhava nos livros, formando-se em História pela FFLCH (Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas) da USP (Universidade de São Paulo). O que poderia parecer um “plano B” (para o caso de a arte não ser sua principal atividade profissional devido a possibilidade de lesão precoce) revelou-se, na prática, um aprofundamento de sua própria linguagem artística. Ao estudar a diáspora africana, encontrou conexões diretas entre o sapateado e ritmos brasileiros como o samba, entendendo sua arte não apenas como performance, mas como continuidade cultural.
Essa consciência ganha ainda mais força quando ela define o próprio trabalho. “Sapatear é fazer música com os pés. É percussão, é narrativa, é resistência”, explica a artista Laet.
Aos 16 anos, Nova Iorque entrou pela primeira vez em sua história. Em uma apresentação no festival Tap City, recebeu um prêmio de reconhecimento de ninguém menos que Diane Walker, um dos maiores nomes do sapateado mundial. Era um prenúncio do que viria.
Anos depois, em meio ao isolamento da pandemia, a vida impôs uma pausa dolorosa. A perda do avô para a Covid-19 transformou o luto em criação. Foi nesse contexto que nasceu “Luvemba”, uma videodança potente que explora rituais de despedida inspirados nas tradições Bantu/Congo. O trabalho ultrapassou fronteiras, sendo exibido em festivais na Europa e nas Américas e se tornou o ponto de virada da carreira. “Uma surpresa e uma conquista que eu nem imaginava” orgulha-se.
Foi com “Luvemba” que Maria Clara construiu o portfólio que a fez mudar para Nova Iorque, em novembro de 2023. E, como em toda boa história, a cidade não demorou a responder.
Hoje, Maria Clara Laet constrói uma carreira pulsante no cenário nova-iorquino. Integra a companhia kamrDANCE, se apresenta com bandas de jazz e já pisou em palcos emblemáticos como o Apollo Theater. Seu trabalho também ganha espaço em instituições de prestígio como o 92Y, além de participar do Mercy Velvet Project da kamrDANCE, projeto com apoio da Universidade de Yale no qual dança, canta e também toca percussão.
Mas talvez o mais interessante não seja aonde ela chegou e sim como ela chegou.
Maria Clara não se limita a reproduzir o sapateado tradicional. Sua pesquisa artística propõe uma fusão potente entre jazz e ritmos brasileiros. Ela também atua como dançarina no projeto da Jessee Leigh Robinson que trabalha com hip hop e breakdance. Ela explica que seus projetos dialogam con influências brasileiras e do jazz norte americano, e tratam o sapateado não só como dança mas como um instrumento de percussão que compõe a música tanto quanto outros instrumentos. Em paralelo, suas videoaulas e videodanças expandem o formato da dança para o audiovisual, explorando enquadramentos, cenários naturais e novas formas de conexão com o público.
Tudo isso guiado por uma missão clara que é levar a cultura brasileira para o centro da cena internacional do sapateado.
Há também, nessa trajetória, uma assinatura afetiva. O sobrenome “Laet”, herdado da mãe, cenógrafa e parceira criativa, é mais do que uma escolha artística. É um símbolo de origem, colaboração e continuidade. Figura presente nos bastidores, ela segue sendo também uma das vozes mais críticas e fundamentais no processo criativo da filha. “Minha mãe me critica positivamente, ela me impulsiona e me ajuda a melhorar o meu trabalho”, fala, orgulhosa.
Entre palcos históricos, prêmios internacionais e projetos inovadores, Maria Clara Laet constrói uma carreira que ressoa muito além do som de seus sapatos. Sua dança carrega história, atravessa culturas e transforma tradição em contemporaneidade.
E, ao que tudo indica, esse é só o começo.
*Edição por Lina Santiago.
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