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O fracasso invisível da educação: alunos passam, o aprendizado não

Ensinar é o mesmo que aprender? Precisamos reestruturar o sistema escolar.

Vanessa Tenório* Publicado em 18/05/2026, às 06h00

A neurociência mostra que a aprendizagem é um processo ativo e emocional, desafiando práticas tradicionais nas escolas - pexels
A neurociência mostra que a aprendizagem é um processo ativo e emocional, desafiando práticas tradicionais nas escolas - pexels

O sistema educacional brasileiro enfrenta um desafio crítico: alunos avançam de série sem garantir aprendizado efetivo, evidenciando a falha na transformação real do ensino e na formação de educadores.

Estudos, incluindo um relatório do Banco Mundial, destacam que a mera escolarização não assegura a aquisição de competências, com práticas pedagógicas tradicionais que priorizam a memorização em detrimento do aprendizado ativo e significativo.

A mudança necessária envolve repensar o papel do professor como facilitador da aprendizagem, promovendo ambientes que valorizem a autonomia e a interação, além de reformular a formação docente para focar no entendimento de como os alunos realmente aprendem.

Resumo gerado por IA
Apesar do aumento no acesso à escola e dos avanços tecnológicos, há um problema silencioso atravessando a educação brasileira: alunos avançam de série, acumulam conteúdos e conquistam diplomas, mas não necessariamente aprendem. O fracasso não está na ausência de ensino, e sim na ausência de transformação real e na formação de educadores.
Um relatório do Banco Mundial já alertava, em 2018, que escolarização não é sinônimo de aprendizagem. Colocar crianças dentro da sala de aula está longe de garantir que elas desenvolvam competências, pensamento crítico ou autonomia. Ainda assim, o sistema educacional segue operando como se ensinar fosse suficiente.
Essa lógica tem raízes profundas. Durante décadas, a escola foi estruturada sob um modelo industrial, baseado em padronização, divisão por idade, currículos rígidos e foco na transmissão de conteúdo. Nesse formato, o aluno é tratado como receptor, e o professor, como emissor. É o que Paulo Freire chamou de “educação bancária”, aquela em que o conhecimento é depositado, e não construído.

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O problema é que o cérebro humano não aprende assim

Hoje, diferentes áreas, da pedagogia à neurociência, convergem para um mesmo ponto: aprender é um processo ativo, emocional e profundamente individual. Para Jean Piaget, o conhecimento não é transmitido, mas construído. Lev Vygotsky destacou o papel das interações e da linguagem como mediadores desse processo. Já Maria Montessori defendia a autonomia e o respeito ao ritmo de cada criança como pilares da aprendizagem.
Mais recentemente, a neurociência reforçou essas ideias com evidências concretas. Estudos mostram que emoção, atenção e motivação são determinantes para que o aprendizado aconteça. A médica e educadora Judy Willis explica que a amígdala, região do cérebro ligada ao medo, pode bloquear o aprendizado quando o aluno se sente pressionado ou inseguro. Em contrapartida, ambientes emocionalmente seguros ativam o córtex pré-frontal, responsável por funções como planejamento, tomada de decisão e raciocínio complexo.
Isso ajuda a entender por que práticas comuns nas escolas, como o excesso de provas, o foco na nota e o uso do erro para punição, podem ser contraproducentes. O medo até pode gerar desempenho imediato, mas raramente produz aprendizagem duradoura.
A motivação, por outro lado, tem efeito oposto. Segundo os psicólogos Edward Deci e Richard Ryan, três necessidades básicas sustentam o engajamento humano: autonomia, competência e pertencimento. Sem sentir que é capaz, que tem algum controle sobre o próprio processo e que faz parte de um ambiente que o valoriza, o aluno dificilmente aprende de forma profunda.
Essa perspectiva também dialoga com a ideia de progressão cognitiva proposta por Benjamin Bloom. Para ele, aprender vai muito além de lembrar ou compreender, envolve aplicar, analisar, avaliar e, no nível mais alto, criar. No entanto, na prática, grande parte das escolas permanece nos níveis mais básicos, priorizando memorização e reprodução.
O resultado é um cenário paradoxal. Estudantes passam anos na escola, mas saem sem domínio pleno de leitura, escrita ou matemática. Cresce o número de analfabetos funcionais, pessoas que foram escolarizadas, mas não educadas.
Nesse contexto, a chegada da inteligência artificial adiciona uma nova camada de complexidade. Ferramentas capazes de gerar textos, resolver problemas e organizar informações podem tanto aprofundar o problema quanto ajudar a resolvê-lo. Se usadas apenas para acelerar a transmissão de conteúdo, tendem a reforçar um modelo já falho. Se integradas a práticas que valorizem autonomia, pensamento crítico e personalização, podem abrir caminhos para uma aprendizagem mais significativa.

A questão central, portanto, não é tecnológica, é pedagógica

O que está em jogo é uma mudança de papel. O professor deixa de ser apenas transmissor de conteúdo e passa a atuar como designer de aprendizagem, alguém que cria experiências, provoca o pensamento, medeia relações e constrói ambientes seguros para que o erro seja parte do processo, e não motivo de punição.
Isso exige também uma revisão na formação docente. Em vez de focar exclusivamente no conteúdo que será ensinado, é preciso avançar para a compreensão de como o aluno aprende. Entender o funcionamento do cérebro, reconhecer a importância das emoções, identificar o momento de cada estudante e oferecer feedbacks que orientem, e não paralisem, são competências cada vez mais essenciais.
No fim, a pergunta que deveria guiar qualquer prática educacional é simples, mas incômoda: o que está sendo ensinado está, de fato, sendo aprendido? Porque ensinar sem garantir aprendizagem é performance. Escolarizar sem formar é burocracia. Avaliar sem  desenvolver é apenas classificar. Aprender, por outro lado, é transformação. É quando o conhecimento deixa de ser externo e passa a reorganizar a forma como alguém pensa, sente e age.
E talvez seja esse o maior desafio da educação contemporânea. Garantir que cada aluno saia da sala de aula diferente, maior, do que entrou.

*Vanessa Tenório é especialista em Neurociência, CEO e confundadora da Systemic Bilingual

*Com edição de Marina Yazbek Dias Peres