Mariana Kotscho
Busca
» NEURODESENVOLVIMENTO

Birra excessiva: pode ser neurológico?

A birra é uma fase normal do desenvolvimento, mas pode indicar problemas quando se torna frequente e intensa

Michelle Zeny Perrelli* Publicado em 23/02/2026, às 06h00

Criança chora e é contida por adulto.
A birra é normal no desenvolvimento da criança, mas crises persistentes na pré-escola devem ser investigadas. - Foto: Canva Pro

A birra é uma fase normal do desenvolvimento infantil, ocorrendo entre 1 e 4 anos, mas pode se tornar um transtorno quando afeta a convivência e o desempenho escolar da criança e da família.

Birras típicas são breves e ocorrem em resposta a frustrações, enquanto birras preocupantes são frequentes, prolongadas e desproporcionais, podendo indicar desregulação emocional e estar associadas a condições como autismo e TDAH.

Pais devem buscar avaliação profissional quando as crises se tornam intensas e frequentes, com a ajuda de especialistas como neurologistas e psicólogos, para melhor manejo e diagnóstico, visando o desenvolvimento emocional saudável da criança.

Resumo gerado por IA

A birra faz parte do desenvolvimento infantil e costuma surgir entre 1 e 4 anos. Nessa fase, o cérebro ainda está amadurecendo, especialmente o córtex pré-frontal que é responsável pelo controle das emoções e dos impulsos. Por isso, chorar, gritar ou jogar-se no chão não significa falta de limites, muitas vezes é apenas a forma possível de comunicação para quem ainda não consegue expressar frustrações.

O alerta aparece quando a intensidade foge do esperado e se transforma em um transtorno na vida da criança e da família, impactando diretamente a qualidade da convivência com os pares, familiares e/ou os ganhos escolares.

A birra típica acontece diante de uma frustração clara, dura poucos minutos e melhora com acolhimento. Já a birra que preocupa é aquela muito frequente, de duração prolongada, desproporcional ao motivo e difícil de consolar. Estudos do Journal of the American Academy of Child & Adolescent Psychiatry mostram que crises explosivas persistentes na pré-escola são associadas a maior risco de transtornos do neurodesenvolvimento.

Veja também

Nesses casos, a birra deixa de ser apenas comportamental e pode refletir desregulação emocional, ou seja, uma dificuldade neurológica de organizar sentimentos intensos.

Ela pode estar presente em condições como autismo, TDAH, atrasos de linguagem ou privação de sono. Outro fator cada vez mais relevante é o excesso de telas. Pesquisas do JAMA Pediatrics e do Lancet Child & Adolescent Health demonstram que a exposição prolongada reduz a tolerância à frustração, aumenta a impulsividade e piora o controle emocional. O cérebro se acostuma com recompensa imediata, tornando o mundo real frustrante demais.

Uma pergunta ajuda a diferenciar: a criança está negociando ou está em sofrimento? Na birra comum, ela observa o adulto. Na crise de desregulação ela não consegue parar, mesmo querendo.

Os pais devem procurar avaliação quando houver crises intensas diárias após os 3–4 anos, atraso de fala, alterações sensoriais, agressividade frequente ou grande dificuldade de se acalmar. A avaliação deve ser realizada com neurologista pediátrico, psiquiatra infantil e psicólogo cognitivo comportamental, pois assim há um melhor manejo e definição diagnóstica. Em casos de atraso de fala é importante também a avaliação da saúde auditiva para descartar prejuízos na audição.

Investigar não é rotular. Muitas vezes não é falta de limite, é falta de capacidade naquele momento. Quanto antes ajudarmos a criança a aprender a se regular, melhor será seu desenvolvimento emocional.

*Dra. Michelle Zeny Perrelli é neurologista pediátrica do Hospital Pequeno Príncipe.

Quer incentivar este jornalismo sério e independente? Você pode patrocinar uma coluna ou o site como um todo. Entre em contato com o site clicando aqui.