Psicóloga especialista na terapia cognitivo-comportamental, Isabela Serpa, explica os riscos de trocar o terapeuta pela IA
Redação* Publicado em 01/09/2026, às 06h00

Setembro Amarelo destaca o uso crescente de inteligências artificiais como suporte emocional, mas especialistas alertam que isso não substitui o cuidado clínico necessário para a saúde mental.
Os chatbots oferecem acesso imediato e gratuito, atraindo pessoas que enfrentam solidão e dificuldades emocionais, mas podem criar uma falsa sensação de acolhimento sem a profundidade de uma avaliação profissional.
A psicóloga Isabela Serpa enfatiza a importância de buscar ajuda profissional quando o sofrimento persiste, especialmente em casos que envolvem pensamentos suicidas, pois a tecnologia deve ser um complemento e não um substituto para o tratamento adequado.
Com a chegada do Setembro Amarelo, mês dedicado à conscientização sobre a prevenção do suicídio e à importância dos cuidados com a saúde mental, um novo fenômeno começa a chamar a atenção de profissionais: o uso de inteligências artificiais como espaço de desabafo, acolhimento e até tentativa de tratamento para questões emocionais. Mas, segundo a psicóloga cognitivo-comportamental, Isabela Serpa, é preciso estabelecer uma diferença fundamental: a facilidade de acesso à inteligência artificial não significa que exista ali um cuidado clínico.
Disponíveis 24 horas por dia, com respostas imediatas e, em muitos casos, gratuitamente, os chatbots passaram a ocupar um espaço cada vez maior na rotina de pessoas que enfrentam solidão, ansiedade, tristeza ou dificuldades emocionais. Para quem tem vergonha de procurar ajuda ou dificuldade de falar sobre aquilo que sente, conversar com uma IA pode parecer uma alternativa mais simples. “A inteligência artificial hoje está ocupando um espaço grande na vida de muitas pessoas. Ela é muito atraente pois responde imediatamente, você não precisa se expor presencialmente com ninguém e a maioria é gratuita”, explica Isabela.
Para a psicóloga, o problema começa quando esse recurso passa a ocupar o lugar das relações humanas e, principalmente, do acompanhamento profissional. Ela explica que a conversa com uma IA pode, de fato, produzir uma sensação de acolhimento e até ajudar a pessoa a se regular emocionalmente naquele momento. O alívio, portanto, não é necessariamente falso. Ela ressalta, entretanto que na IA a pessoa pode até receber um conforto momentâneo, mas esse ciclo vai se repetindo e o risco está em transformar esse alívio temporário em uma estratégia permanente para lidar com o sofrimento.
A especialista explica que um dos fatores que tornam as inteligências artificiais tão atraentes é justamente a capacidade de estabelecer conversas personalizadas. O chatbot pode lembrar informações compartilhadas anteriormente, utilizar uma linguagem empática e responder de maneira aparentemente individualizada. Para alguém que está sozinho ou emocionalmente vulnerável, essa experiência pode ser interpretada como vínculo e compreensão. Mas, a especialista faz uma distinção importante entre sentir-se acolhido e estar sendo compreendido clinicamente. Ela destaca que a psicoterapia não trabalha apenas com aquilo que o paciente verbaliza. A avaliação envolve história de vida, desenvolvimento, contexto familiar e social, funcionamento emocional e comportamental, além da observação da própria maneira como a pessoa se apresenta durante o atendimento. “A avaliação não pode se limitar a reconhecer apenas as palavras, aquilo que a pessoa escreve ali numa conversa com a IA. Uma avaliação psicológica individualizada vai muito além disso”, afirma.
Outro alerta da psicóloga diz respeito a uma prática cada vez mais comum: pessoas que chegam ao consultório já convencidas de que possuem determinado transtorno porque identificaram sintomas em conteúdos encontrados na internet ou em conversas com inteligências artificiais. “Ter sintomas não é o mesmo que ter um diagnóstico. E reconhecer um padrão não é o mesmo que compreender uma pessoa”, atenta ela.
A capacidade de uma inteligência artificial de responder de maneira extremamente empática também pode representar um risco. Segundo Isabela, alguns sistemas podem ser excessivamente concordantes ou validantes, fazendo com que a pessoa receba repetidamente respostas que confirmem sua própria narrativa. “Isso pode criar uma espécie de câmara do ego emocional”, alerta. Em alguém que já está mergulhado em pensamentos negativos, interpretações equivocadas ou sentimentos de desesperança, uma resposta que simplesmente concorde ou valide aquela interpretação pode contribuir para reforçar o pensamento, em vez de ajudar a pessoa a questioná-lo.
Na terapia cognitivo-comportamental, explica a profissional, o objetivo não é simplesmente concordar com tudo aquilo que o paciente apresenta. O trabalho envolve compreender os padrões que mantêm determinado sofrimento e, quando necessário, questionar pensamentos e interpretações.
A preocupação aumenta quando a conversa envolve pensamentos de morte ou suicídio. A profissional explica que uma pessoa em sofrimento intenso pode não conseguir expressar claramente o que está acontecendo. Pode haver confusão, dificuldade de organizar os pensamentos ou dificuldade de falar diretamente sobre a própria intenção. Nessas situações, uma IA pode interpretar corretamente uma mensagem e orientar a busca por ajuda, mas também pode não compreender a gravidade do que está sendo comunicado. É justamente nesse ponto que a avaliação profissional se torna fundamental. “Uma boa intervenção pode envolver acolher, questionar, avaliar risco, estabelecer planos de segurança e encaminhar também esse paciente para serviços adequados”, aconselha.
A tecnologia pode ser uma ferramenta de informação, organização e apoio. O problema surge quando ela passa a ser utilizada como substituta de uma avaliação profissional ou como único recurso diante de um sofrimento que exige intervenção. “Quando a dor persiste, quando o sofrimento começa a interferir na vida ou quando surgem pensamentos relacionados à morte e ao suicídio, a conversa precisa sair da tela e chegar a profissionais preparados para avaliar, acolher e intervir” conclui Isabela Serpa.
*Edição por Lina Santiago
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