Reflexões sobre a importância de ser honesto com filhos adotivos, sem segredo, e como a verdade pode impactá-los positivamente
Antoune Nakkhle* Publicado em 26/05/2026, às 06h00

O preconceito em relação à adoção é frequentemente disfarçado por questionamentos que refletem inseguranças sobre a origem e a verdade, impactando a autoestima das crianças adotadas.
A falta de transparência sobre a adoção pode ser vista como uma forma de egoísmo, onde os pais temem a reação dos filhos ao descobrirem sua origem, perpetuando um ciclo de desconfiança e dor emocional.
É crucial que os pais adotivos abordem a adoção com sinceridade e amor, buscando entender suas próprias motivações e promovendo um ambiente de aceitação e verdade para o bem-estar emocional da criança.
O preconceito contra a adoção, assim como o racismo, tem várias camadas e geralmente vem travestido de palavras de bem.
Uma das perguntas que mais ouvi (e ainda ouço) desde que adotei minha filha é: — Mas você vai dizer a verdade para sua filha, sobre a adoção? ou — Por que você não diz que ela puxou o bisavô ou o tataravô por parte de pai para ela entender melhor porque ela é chocolate? Como ela não é preta, preta, apenas escurinha, dá para passar uma mentirinha do bem dessas, não acha?
Também tem gente que se sente à vontade e diz assim: — E a mãe dela, você vai dizer quem ela era e por que teve essa atitude (com tom de repreensão e superioridade)? E a clássica (porque amigo que é amigo é sincero!): — Você não tem medo dela querer conhecer a mãe? Você deixaria? E se a mãe for mal elemento? E o pai, será que é bandido?
Os amigos mais “finos” elaboram, pois não querem ofender, apenas alertar: — Você sabe qual a motivação da moça que entregou sua filha? — Você sabe se a mãe e o pai estão bem? E a família deles, tudo na paz, você tem notícias?
Todas essas perguntas que listei acima têm a ver com duas coisas: verdade e amor.
Talvez você que lê este artigo pense, após ler o que vem abaixo, que falo de algo óbvio. Vamos ao que interessa. Quando uma pessoa é amada para valer, ela sabe. Sente a intensidade também. Perceber o amor de uma mãe ou de um pai colabora demais para a segurança e para a autoestima de um filho - vários especialistas já afirmaram este fato. E neste caso, amor não tem nada a ver com adoção. Falo de amor de pai para filho e vice-versa, seja biológico ou não o filho.
O mesmo acontece quando um pai esconde, omite ou mente sobre alguma coisa muito importante para seu filho. Esconder a origem de alguém é uma enorme crueldade que se pode fazer contra uma pessoa – especialmente com um filho.
Amor não se disfarça. Egoísmo também não. Pois bem, quando um filho vindo por adoção recebe amor verdadeiro de sua mãe ou de seu pai adotivo, ele sabe que esse sentimento é real. Quando tem verdade, é amor. Quando a mentira está incluída nisso (no caso de mentir ao filho sobre a adoção), não sei nomear. Mas sei que fará muito mal para este filho enganado quando descobrir a verdade. E ele vai descobrir. Acredito que abale seriamente a autoestima dele.
É essencial que se pergunte por que alguém mente ou esconde a adoção para um filho que não é biológico. Na vida, escondemos o que não aprovamos em nós mesmos, nossas imperfeições, algo que nos envergonha. E por que esconder a adoção de alguém como sua filha, a quem você tanto ama?
Não vale a justificativa utilizada pelo pais nos anos 1960 de que “foi para te proteger!”. Há muito tempo este argumento não é válido, já está em desuso. Isso é egoísmo e maldade, não é amor. Vamos dar o nome certo para as coisas. Chega.
O falso argumento da “proteção” é completamente vazio - até porque a adoção há um bom tempo é reconhecida legalmente. Não é algo proibido que precise ser escondido. Qualquer pessoa que não deseja se tornar mãe ou pai pode entregar seu rebento para adoção. Então: proteger do que?
Isso pode nos fazer acreditar que você, que adotou, não quer contar a seu filho porque você não tem essa questão resolvida consigo mesmo. Terapia pode ajudar este pai ou esta mãe a entender isso – e assim evitar sofrimento de seu filho. Isso é proteger.
É claro que estou falando aqui de filhos que foram adotados desde muito cedo e não tiveram contato com os pais biológicos.
— E se meu filho quiser conhecer a família de origem dele, como vai ser, meu Deus! Nós somos a família dele!
Se ele quiser conhecer a família de origem, será como para você se estivesse no lugar dele: a coisa mais importante da sua vida. Ele conhecerá sua origem assim como você conhece a sua – lembre-se que, para você, que é filho biológico, isso nem chama sua atenção. Mas se você se colocasse uma só vez no lugar de seu filho vindo por adoção e confiar no amor que sente por ele, certamente você agiria diferente.
A adoção para os pais faz parte de uma escolha muito séria e importante. É quase uma opção de vida, pois são tantos os preconceitos e fantasmas instalados no inconsciente coletivo que, muitas vezes, realmente, parece uma missão. Mas não é. Nada disso. É, como eu disse, uma opção séria que se toma na vida. Mas, acima de tudo, é a decisão de ser mãe ou pai – sozinho ou com alguém ao seu lado compartilhando a paternidade.
Adoção talvez não seja um assunto simples para todas as pessoas que vieram por adoção – afinal, estamos falando de dois extremos: do abandono que uma criança sente quando sabe que foi entregue, recusada e do amor que ela recebe quando é adotada. Talvez sejam sentimentos muito fortes para uma pessoa só. Ou não.
Minha filha, Gabriela, é atriz e está fazendo um espetáculo que aborda esta questão (esconder do filho a adoção). Por mais de uma vez, ao final da peça (@asasdepano.teatro), ela foi abordada por pessoas do público que foram adotadas e sempre souberam a verdade. Eram pessoas tranquilas, isso não era uma questão. Por outro lado, se deparou com uma mãe de três filhos que não sabiam a verdade. Ela parecia enfrentar problemas consigo mesma – talvez angústia por não ter contado a seus filhos sobre a adoção.
Mas se a verdade para sua filha vier na frente de tudo, carregada de afeto e sinceridade, pode ser uma história real muito mais feliz.
*Antoune Nakkhle é jornalista, assessor de comunicação e imagem e pai da Gabriela, atualmente com 21 anos. Um pai branco de filha preta.
Se quiser falar com o autor: paibrancofilhapreta@gmail.com
Para contratar palestra sobre adoção interracial com Antoune Nakkhle, entre em contato em mariana@kotschopress.com.br
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