Entre algoritmos e silêncios, uma educadora alerta que a ausência adulta abre espaço para novas formas de apego
Redação* Publicado em 21/01/2026, às 06h00

O uso crescente da inteligência artificial por crianças e adolescentes para apoio emocional levanta preocupações sobre a ausência de vínculos familiares, com quatro em cada dez jovens buscando companhia em máquinas.
A educadora Cris Poli destaca que a carência emocional revela um vazio nas interações familiares, exacerbado pela constante exposição a informações digitais desde cedo, o que dificulta a transmissão de valores e princípios.
Poli defende que a responsabilidade pela presença e escuta nas relações familiares é crucial, alertando que a tecnologia deve servir ao ser humano e não substituí-lo, enfatizando que nada pode substituir a presença real e o afeto humano.
O avanço da inteligência artificial já deixou de ser apenas uma questão de produtividade ou inovação tecnológica. Para muitas crianças e adolescentes, essas ferramentas estão ocupando um espaço cada vez mais íntimo: o da companhia emocional. Um dado recente revela que quatro em cada dez crianças recorrem à inteligência artificial em busca de apoio emocional ou sensação de presença. O número acende um sinal de alerta que vai muito além da tecnologia.
Para a educadora, escritora e coordenadora pedagógica da Escola do Futuro Brasil Cris Poli, o problema central não está nas ferramentas em si, mas no vazio que elas passam a preencher. “Quando uma criança procura companhia numa máquina, isso revela uma carência profunda. A pergunta que precisamos fazer é: onde está essa família?”, afirma.
Com mais de quatro décadas dedicadas à educação, Cris Poli afirma que educar nunca foi simples. “A gente não educa coisas, educa pessoas. E sempre deixamos marcas nos nossos filhos”, explica. Segundo ela, a formação do caráter e da personalidade acontece na interação cotidiana, no ambiente em que a criança cresce.
O que mudou, segundo a educadora, é a quantidade de interferências externas. “Hoje tudo é contestado. Valores e princípios são questionados o tempo todo, porque a criança tem acesso a muitas informações desde muito cedo”, diz.
Ela lembra que, no início dos anos 2000, os desafios estavam concentrados na televisão e no celular. “Hoje, a interferência das redes sociais e do mundo digital é constante, 24 horas por dia.”
A percepção de que as novas gerações chegam ao mundo mais conectadas não é apenas simbólica. Cris Poli observa mudanças já nos primeiros meses de vida. “As crianças hoje nascem mais alertas, mais rápidas. Eu costumo dizer que elas já vêm com um ‘chipzinho’ de última geração.”
O desafio, segundo ela, não é apenas das escolas ou dos avós, mas principalmente dos pais. “O grande desafio é acompanhar esse ritmo. Porque elas recebem muita informação desde muito cedo, e isso torna mais difícil transmitir aquilo em que você acredita.”
Mesmo com supervisão, há limites. “A vigilância dos pais não é infinita. A criança acessa conteúdos o tempo todo, e nem sempre concordamos com eles.”
O ponto mais sensível, para a educadora, é o uso da inteligência artificial como substituto de vínculos humanos. “Quando falamos de IA para pesquisa ou estudo, já exige cuidado. Mas quando uma criança busca companhia ou terapia numa máquina, isso dói profundamente no meu coração.”
Para ela, esse comportamento revela ausência de escuta, de tempo e de presença no ambiente familiar. “Essas necessidades afetivas deveriam ser supridas no núcleo familiar — e quando falo de família, não é só pai e mãe, mas avós, tios, pessoas que fazem parte da vida dessa criança.”
Cris faz questão de diferenciar o uso terapêutico humano do apoio artificial. “Eu não sou contra terapia. Sou contra a terapia feita por uma máquina. Uma máquina não tem sentimento. Ela é fria.”
A educadora aponta uma contradição do nosso tempo: nunca foi tão fácil acessar informações, serviços e entretenimento, mas nunca foi tão difícil oferecer presença real. “Hoje você tem tudo com um clique. Tudo, menos o afeto, o olhar, a escuta, o abraço.”
Segundo ela, nenhuma tecnologia substitui o gesto humano. “Você pode ter muito conhecimento, muitos títulos, mas se falta um abraço, um silêncio compartilhado, alguém que diga ‘eu não sei como te ajudar, mas estou aqui’, nada disso é substituível.”
Outro perigo apontado é o ambiente artificial de validação criado por algumas ferramentas digitais. “A máquina não contradiz, não frustra. Ela valida, concorda, oferece soluções sem sofrimento”, explica.
Para Cris, isso contribui para a formação de uma geração com baixa tolerância à frustração. “A vida não é assim. Relações reais envolvem conflito, discordância, limites.”
Ela reforça: “Isso não começa na máquina. Começa muito antes.”
A educadora também contextualiza esse cenário à luz dos impactos emocionais da pandemia. “Foram dois anos que marcaram profundamente a humanidade. Crianças nasceram sem contato com avós, famílias isoladas, tudo mediado por telas.”
Ela destaca que bebês cresceram vendo rostos cobertos por máscaras e interações virtuais. “Isso impacta a mente, o coração, as emoções. A neurociência explica isso hoje.”
Segundo Cris, muitas crianças foram expostas a estímulos para os quais não estavam preparadas. “Ninguém teve culpa. Fomos forçados pelas circunstâncias. Mas agora estamos lidando com as consequências.”
Para a coordenadora da Escola do Futuro Brasil, qualquer discussão sobre limites digitais passa, inevitavelmente, pelo comportamento dos pais. “A educação acontece muito mais pelo que somos do que pelo que falamos.”
Cris Poli é direta: “Se o adulto não consegue se controlar nas redes sociais, como vai ensinar o filho?”
Em um mundo onde até adultos precisam de desintoxicação digital, a educadora defende menos discursos e mais coerência. “Não adianta estabelecer regras se eu não vivo aquilo que espero do meu filho.”
Mais do que demonizar a tecnologia, a mensagem final de Cris Poli é um convite à responsabilidade e à presença. “A inteligência artificial foi criada para servir o ser humano, não para substituí-lo.”
A educadora alerta que enquanto as máquinas avançam, o que realmente falta é tempo, escuta e vínculo. “Se a criança não encontra isso em casa, ela vai buscar fora. E hoje, muitas vezes, esse ‘fora’ é uma tela.”
E conclui com um alerta simples e profundo: “Nada substitui uma presença real. Nada.”
*Com edição de Lina Santiago.
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