Estudos mostram que a restrição de celulares pode reduzir distrações, mas não garante melhorias significativas na aprendizagem dos alunos
Kenneth Corrêa* Publicado em 25/08/2026, às 06h00

A nova legislação brasileira restringe o uso de celulares nas escolas, permitindo exceções apenas para situações específicas, mas não garante que essa medida melhore a aprendizagem dos alunos. A proibição visa reduzir distrações, embora a simples retirada do aparelho não se traduza em melhores resultados educacionais.
Estudos recentes indicam que intervenções pedagógicas estruturadas com dispositivos móveis podem ter efeitos positivos na aprendizagem, mas a presença de celulares pessoais em sala de aula não demonstrou benefícios claros. Além disso, a restrição ao uso de celulares mostrou eficácia em diminuir seu uso, mas não resultou em melhorias significativas nas notas ou na frequência escolar.
A UNESCO alerta que, embora a restrição reduza distrações, é crucial preparar os alunos para ambientes digitais, enfatizando a importância de desenvolver habilidades críticas em vez de simplesmente remover a tecnologia. O desafio para as escolas é como utilizar o tempo recuperado sem celulares de maneira eficaz, promovendo experiências de aprendizagem que estimulem o pensamento crítico e a interação.
A discussão sobre o celular na escola costuma ser apresentada como uma escolha entre dois lados: permitir o uso do dispositivo como ferramenta de aprendizagem ou restringi-lo para proteger a atenção dos estudantes. A evidência mais recente sugere que a questão é menos simples e, ao mesmo tempo, mais concreta. Tirar o celular da mão do aluno funciona. O que não está demonstrado é que essa medida, sozinha, produza uma melhora relevante na aprendizagem.
No Brasil, essa discussão já não é apenas uma escolha de cada escola. A Lei nº 15.100, de 13 de janeiro de 2025, restringiu o uso, por estudantes, de aparelhos eletrônicos portáteis pessoais, inclusive celulares, nas instituições de educação básica. O Decreto nº 12.385, de fevereiro de 2025, regulamentou a medida e estabeleceu a proibição durante aulas, recreios e intervalos, com exceções previstas para situações como acessibilidade, inclusão, condições de saúde e uso pedagógico.
Há um detalhe importante nessa formulação: a legislação fala em aparelhos pessoais. Ela não estabelece que a tecnologia deixou de ter lugar na educação. O Parecer CNE/CEB nº 4/2025 e a Resolução CNE/CEB nº 2/2025, que tratam da integração curricular da educação digital e midiática, mantêm a possibilidade de utilização pedagógica de dispositivos digitais sob orientação dos profissionais de educação.
A distinção importa porque estamos falando de duas situações diferentes. Uma coisa é um aluno usar seu próprio celular para acessar redes sociais, responder mensagens ou alternar entre diferentes estímulos durante uma aula. Outra é utilizar um dispositivo dentro de uma atividade desenhada pelo professor, com objetivo de aprendizagem definido.
Uma revisão sistemática ajuda a separar os dois olhares. Foi publicada na Campbell Systematic Reviews, por Claire Dorris e colegas da Queen's University Belfast, reuniu 18 ensaios clínicos randomizados, com 11.126 estudantes de 4 a 12 anos, em seis países. Os estudos avaliaram intervenções com dispositivos móveis voltadas ao ensino de leitura e matemática e encontraram um efeito positivo combinado sobre os resultados de aprendizagem, com Cohen's d de 0,24.
Mas esse resultado precisa ser lido com cuidado. Os estudos avaliavam intervenções pedagógicas estruturadas, e não simplesmente a presença de celulares pessoais em sala. Além disso, 13 dos 18 estudos foram classificados como apresentando algumas preocupações quanto ao risco de viés e 5 como de alto risco. Os próprios autores ressaltam que as intervenções e os contextos eram bastante diferentes entre si e que são necessárias pesquisas adicionais para entender em quais condições a tecnologia produz melhores resultados.
Ou seja: a evidência não permite concluir que “celular na escola melhora a aprendizagem”. Ela permite uma afirmação mais específica: determinados usos pedagógicos de dispositivos móveis podem contribuir para resultados de aprendizagem quando estão integrados a intervenções estruturadas.
O movimento contrário, que é o de restringir o uso do aparelho, também começou a produzir evidências mais robustas. Em 2026, o National Bureau of Economic Research publicou um estudo de Hunt Allcott, Jason Baron, Thomas Dee, Angela Duckworth, Matthew Gentzkow e Brian Jacob que analisou escolas americanas que adotaram bolsas com trava magnética para guardar celulares durante o período escolar. O trabalho combinou dados de GPS, pesquisas com professores e alunos, resultados de testes padronizados e registros administrativos.
O resultado mais inequívoco foi justamente o mais básico: a restrição reduziu o uso do celular. Segundo os professores pesquisados, a parcela de alunos que utilizavam o aparelho em sala para fins pessoais caiu de 61% para 13% após a adoção das bolsas. Os dados de GPS também apontaram uma redução persistente da atividade dos aparelhos nos horários escolares.
Quando a pergunta passa a ser aprendizagem, porém, a história muda. O efeito médio sobre as notas ficou próximo de zero nos três primeiros anos após a adoção. Os pesquisadores conseguem descartar ganhos superiores a aproximadamente 0,008 desvio-padrão. Houve efeitos heterogêneos: estudantes do ensino médio apresentaram ganhos modestos, especialmente em matemática, enquanto os anos finais do ensino fundamental registraram pequenas perdas.
Também não apareceu uma melhora geral na frequência escolar, atenção autorrelatada ou percepção de bullying on-line. No primeiro ano de adoção, os registros apontaram aumento de incidentes disciplinares e queda no bem-estar subjetivo dos estudantes. Nos anos seguintes, o efeito sobre o bem-estar se tornou positivo e o aumento dos incidentes disciplinares desapareceu.
Essa talvez seja a parte mais interessante do debate. A restrição funciona para aquilo que se propõe a fazer: reduzir o uso pessoal do celular durante a rotina escolar. Mas retirar o aparelho não é, por si só, o mesmo que produzir aprendizagem.
Essa diferença é importante porque, muitas vezes, confundimos três problemas distintos: uso excessivo de tecnologia, falta de atenção e dificuldade de aprendizagem. Eles podem estar relacionados, mas não são a mesma coisa. Uma política de restrição consegue atuar diretamente sobre o primeiro. Pode alterar as condições em que o segundo acontece. Mas não resolve automaticamente o terceiro.
A UNESCO atualizou essa discussão em 2025, em meio à expansão da inteligência artificial generativa na educação. No relatório AI and education: Protecting the rights of learners, a organização defende que a transformação digital seja orientada por uma abordagem centrada no ser humano e baseada em direitos, com atenção à qualidade, equidade, privacidade, segurança e responsabilidade. Em outra publicação, AI and the future of education: Disruptions, dilemmas and directions, a UNESCO chama atenção para um risco que vai além da distração: à medida que estudantes passam a delegar processos de pensamento às máquinas, a tecnologia pode deixar de apoiar a aprendizagem e começar a substituir parte dela.
A tendência internacional mostra que essa preocupação deixou de ser uma particularidade brasileira. Segundo o monitoramento mais recente do Global Education Monitoring Report (GEM), da UNESCO, 114 sistemas educacionais já adotavam, em março de 2026, algum tipo de proibição nacional ao uso de celulares nas escolas, o equivalente a 58% dos países monitorados. Em junho de 2023, eram 24%; no início de 2025, 40%.
Isso significa que estamos diante de uma mudança importante na política educacional global. Mas a própria UNESCO faz uma ressalva: restringir o celular pode reduzir distrações, mas não elimina a necessidade de preparar os estudantes para viver em ambientes digitais. A escola continua sendo um dos espaços em que eles podem aprender a avaliar informações, administrar o uso das telas e compreender os riscos e possibilidades das plataformas digitais.
É nesse ponto que a inteligência artificial generativa torna o debate ainda mais complexo. Ferramentas capazes de resumir textos, traduzir conteúdos, produzir respostas e auxiliar na resolução de problemas reduzem o custo de acesso à informação. Isso muda o que significa saber alguma coisa. Se uma máquina consegue produzir uma resposta em segundos, ganha importância a capacidade de avaliar se aquela resposta faz sentido, identificar erros, comparar fontes e formular perguntas melhores.
Nesse contexto, ensinar tecnologia não significa necessariamente colocar mais dispositivos nas mãos dos alunos. Significa desenvolver a capacidade de compreender quando uma ferramenta ajuda, quando atrapalha e quais são os seus limites.
A escola pode, portanto, ter bons motivos para retirar o celular de determinados momentos. A evidência de 2026 mostra que essa medida efetivamente reduz o uso pessoal do aparelho. Mas a pergunta seguinte é mais difícil: o que a escola faz com a atenção que recuperou?
Se o tempo sem celular simplesmente for preenchido por uma aula pouco envolvente, a tecnologia terá sido removida, mas o problema pedagógico continuará existindo. Se, por outro lado, esse espaço for ocupado por uma experiência de aprendizagem bem planejada, com interação, investigação, leitura, criação e pensamento crítico, a restrição pode fazer parte de uma política educacional mais ampla.
Essa é, para mim, a distinção que precisa orientar o debate. Restrição de celular é política de comportamento, não política de aprendizagem. Ela pode proteger o tempo escolar e reduzir uma fonte concreta de distração. Mas não cria, por si só, uma boa aula.
A tecnologia mais eficiente para a educação não é necessariamente a mais nova e nem necessariamente é aquela que está nas mãos do estudante. É aquela que resolve um problema real de aprendizagem, dentro de uma estratégia pedagógica clara.
A pergunta que precisamos fazer, portanto, não é apenas se o celular deve entrar ou sair da sala. É o que colocamos no lugar da atenção que acabamos de recuperar. Esse espaço pode ser ocupado por mais uma tela, por uma aula melhor planejada, por uma conversa, por um experimento, por um livro ou por uma atividade que exija do aluno aquilo que nenhuma ferramenta entrega pronta: pensar.
* Kenneth Corrêa é Estrategista das Tecnologias Emergentes & IA. Autor do livro "Organizações Cognitivas - Alavancando o Poder da IA Generativa e dos Agentes Inteligentes", publicado no MIT (Massachusetts Institute of Technology), Professor C-Level da Fundação Getúlio Vargas (FGV) e duas vezes palestrante TEDx.
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