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É tudo culpa dela?

A pressão social sobre as mães é um fator que contribui para a culpa e o esgotamento emocional, quando tudo recai sobre elas

Malu Echeverria * Publicado em 03/02/2026, às 06h00

Malu Echeverria
A jornalista Malu Echeverria - Foto: Divulgação

A culpa materna continua a ser um tema relevante, evidenciado pelo desabafo de uma mãe sobre os desafios de criar um filho que não se adapta ao mercado de trabalho, refletindo a pressão social sobre as mães em relação ao sucesso dos filhos.

Uma pesquisa revelou que cerca de 90% das mães trabalhadoras no Brasil enfrentam burnout parental, um estado de esgotamento físico e mental, exacerbado pela idealização da maternidade e pelas expectativas sociais.

Especialistas sugerem que as mães devem reconhecer que não são as únicas responsáveis pela formação do caráter dos filhos, e aceitar suas imperfeições pode levar a uma relação mais saudável consigo mesmas e com a maternidade.

Resumo gerado por IA

Recentemente, uma amiga me confessou “Sinto muito remorso pelos erros que cometi com meu filho”. O filho dela, um jovem adulto, além de não gostar de estudar, não para em nenhum emprego. Não foi a primeira vez que ela fez esse tipo de desabafo, e talvez não seja a última. Jamais, no entanto, eu a ouvi culpar o pai do menino, que sumiu do mapa depois que eles se divorciaram, quando o filho tinha apenas 3 anos.

Quando nasce uma mãe, nasce uma culpa. Ou melhor, como diz a especialista em saúde mental Elisama Santos, quando nasce uma mãe, nasce uma culpada. Afinal, a mãe é o alvo preferido dos dedos em riste e das línguas afiadas, se o filho fizer algo errado. Não importa que ela não tenha apoio do pai, da comunidade ou do estado, a culpa será sempre dela.

Confesso que fazia anos que não ouvia alguma mãe falar sobre culpa, tanto no meu círculo pessoal quanto profissional, por isso me surpreendi com o lamento da minha amiga. Apesar da discussão sobre o papel da mãe (e do pai) ter avançado bastante nos últimos anos, principalmente no que diz respeito à divisão dos cuidados, a responsabilidade pelo bem-estar e sucesso dos filhos ainda recai sobre a mãe pelo visto.

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O sucesso recente da minissérie All Her Fault (Prime Video, 2025) é mais uma prova disso. No thriller, uma mãe é acusada de negligência depois que o filho é sequestrado na saída da escola. Daí o sugestivo título, que em português seria algo como “É tudo culpa dela”. O roteiro cheio de reviravoltas fez sucesso entre o público. Mas o que realmente transformou esse suspense em um fenômeno global foi a identificação imediata da audiência feminina com as mães sobrecarregadas da trama.

Claro que por aqui não poderia ser diferente. Não por acaso, uma pesquisa recente feita pela B2Mamy, em parceria com a Kiddle Pass, apontou que cerca de 90% das mães que trabalham no Brasil sofrem de burnout parental, que seria um estado de esgotamento físico e mental relacionado ao maternar.

O motivo pelo qual as mães não conseguem se livrar da culpa, grupo no qual também me incluo, é o fato do sentimento estar fortemente enraizado na idealização da maternidade. Quando não conseguimos atender as exigências que a sociedade nos impõe sobre como devemos criar nossos filhos, e vamos combinar que são muitas, sentimos culpa. É aquela velha história da expectativa versus realidade. Para piorar, as redes sociais estão aí para mostrar, o tempo inteiro, como poderíamos ser a nossa “melhor versão” – como mãe, profissional, esposa, etc.

Precisamos entender que, embora sejamos fundamentais na educação de nossos filhos, não somos as únicas responsáveis pela formação de seu caráter. Ele também é influenciado – para o bem e para o mal – por outras relações, como as familiares e as sociais, assim como pelas experiências de vida. Entender isso não diminui a nossa importância, muito menos a nossa potência.

“Ao nos permitir ser imperfeitas, abrimos caminho para a vulnerabilidade e construímos uma relação mais saudável com nosso eu interior. Temos limites e aceitá-los é um sinal de força, não de fraqueza”, me ensinou, certa vez, a psicóloga Cíntia Aleixo. Espero que nós, mães – eu, você e, especialmente, a minha amiga que criou o filho sozinha – não precisemos mais maratonar uma série no streaming para nos lembrar disso.

Malu Echeverria é jornalista e autora do livro recém-lançado “Deus é Mãe: Celebrando a Potência da Maternidade” (Editora Feminas)

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