Com uma carreira que começou na indústria de cosméticos, Carolina se tornou referência em soluções sustentáveis e economia circular
Lina Santiago* Publicado em 31/01/2026, às 06h00

Carolina Lobel, brasileira e diretora sênior na Closed Loop Partners, atua na interseção entre engenharia e sustentabilidade, promovendo a economia circular nos Estados Unidos e ajudando a reformular a gestão de resíduos em cidades e empresas.
Sua carreira começou na indústria de cosméticos, mas ganhou um novo rumo na Procter & Gamble, onde desenvolveu embalagens sustentáveis, e na TerraCycle, onde foi parte da criação da plataforma Loop, focada em embalagens reutilizáveis.
Atualmente, Carolina colabora com governos e marcas para implementar infraestrutura de reciclagem e reutilização, enfrentando desafios como custos e comportamento do consumidor, enquanto também promove práticas sustentáveis em sua vida pessoal.
Carolina Lobel construiu sua trajetória profissional no ponto onde engenharia, inovação e propósito ambiental se encontram. Brasileira, criada no Rio de Janeiro, ela hoje atua nos Estados Unidos como diretora sênior no centro de inovação da Closed Loop Partners, uma das organizações mais influentes do mundo no crescimento da economia circular. De Nova York, Carolina ajuda a redesenhar a forma como cidades, governos e grandes empresas lidam com resíduos, embalagens e consumo.
Formada em Engenharia de Produção, sua carreira começou longe do discurso ambiental que hoje a define. Recém-formada, Carolina trabalhou em uma fábrica de cosméticos no Rio de Janeiro, mergulhando nos processos industriais, na lógica da manufatura e no desenvolvimento de embalagens. Foi ali que teve contato direto com a escala da demanda e do desperdício gerado pela indústria de bens de consumo — um aprendizado técnico que, anos depois, se tornaria essencial para seu trabalho em sustentabilidade.
"Inovar em novas formas de reciclagem é essencial — e é apenas o começo. Temos uma responsabilidade urgente de reinventar nossos modelos de produção e nossos hábitos de consumo. Reduzir a dependência da extração de novos materiais não é apenas uma necessidade ambiental, mas uma enorme oportunidade econômica", diz Carol.
A virada veio durante sua passagem pela Procter & Gamble (P&G), onde atuou em inovação de produtos para a América Latina. Expatriada para o Panamá, trabalhou com marcas globais e participou de um projeto que marcaria definitivamente sua trajetória: o desenvolvimento de embalagens de shampoo feitas com plástico coletado em praias da região, em parceria com ONGs e comunidades locais. Foi seu primeiro contato prático com sustentabilidade aplicada — não como conceito abstrato, mas como solução concreta para problemas ambientais e sociais.
Esse projeto a levou à TerraCycle, empresa conhecida por criar soluções para resíduos tradicionalmente considerados não recicláveis. Ali, Carolina integrou o time fundador da plataforma Loop, a primeira iniciativa global de embalagens reutilizáveis em larga escala. Lançado oficialmente em 2019 durante o World Economic Forum, em Davos, o projeto reuniu CEOs de multinacionais como Unilever, PepsiCo e P&G em torno de uma proposta ambiciosa: substituir embalagens descartáveis por sistemas de reutilização contínua.
Apesar do enorme impacto simbólico e da visibilidade global, Carolina reconhece que a transição para novos modelos de consumo enfrenta desafios complexos, como custos, infraestrutura e mudança de comportamento do consumidor. Essa visão pragmática acompanha toda a sua atuação. Para ela, sustentabilidade não se mantém apenas com ativismo ou boas intenções, mas com soluções economicamente viáveis, escaláveis e integradas à realidade das empresas e das cidades. Na sua visão, é possível unir crescimento e redução de impacto ambiental: "Se a gente pensar, tudo era feito queimando madeira. Hoje em dia o Brasil tem energia hidrelétrica, a energia solar e energia eólica, permitindo o crescimento, a prosperidade e gerando empregos - e tudo sem o impacto", diz ela.
Hoje, na Closed Loop Partners, Carolina atua em uma frente ainda mais ampla. Trabalha com governos locais, grandes marcas e formuladores de políticas públicas para criar infraestrutura de reutilização, reciclagem e compostagem, além de apoiar estratégias que reduzam o desperdício desde a origem. Seu foco principal é a reutilização — considerada por ela uma das ferramentas mais eficazes da economia circular, por manter produtos e materiais em uso pelo maior tempo possível.
Fora do ambiente corporativo, Carolina leva a sustentabilidade para a vida cotidiana. Reduziu drasticamente seu consumo pessoal, prioriza itens usados e envolve as filhas, Nina e Sofia, de 4 e 6 anos, em escolhas mais conscientes. “Passei um ano sem comprar nada novo, e isso transformou minha relação com o consumo. Até hoje priorizo comprar usado e focar em experiências — esse olhar já faz parte do dia a dia da minha família. Reduzir o consumo é uma forma consciente de desacelerar e de romper com a pressão interminável por comprar, que não é saudável nem para o planeta, nem para o meu bem‑estar mental”, afirma ela.
Carol também atua como voluntária em iniciativas de bem-estar e meditação, reforçando uma visão de sustentabilidade que vai além do meio ambiente e inclui saúde mental, equilíbrio e qualidade de vida.
Entre o rigor técnico da engenharia e o idealismo ambiental, Carolina ocupa um espaço raro: o de quem entende profundamente como o sistema funciona — e, justamente por isso, trabalha para transformá-lo por dentro.
*Lina Santiago é repórter do portal marianakotscho
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