Entenda como a volta às aulas pode ser um momento de ansiedade e esperança para crianças com altas habilidades e superdotação
Juliana Honorato* Publicado em 03/02/2026, às 06h00

O retorno às aulas traz um misto de esperança e apreensão para mães de crianças com altas habilidades e superdotação, que temem a repetição de desafios educacionais. A falta de reconhecimento das especificidades dessas crianças pode levar à frustração e ao adoecimento emocional.
Crianças AHSD não são apenas rápidas em aprender, mas também em sentir e perceber, o que as torna vulneráveis em ambientes escolares que não se adaptam a suas necessidades. A padronização do sistema educacional muitas vezes rotula essas crianças como desinteressadas ou problemáticas, ignorando suas capacidades e formas de aprendizado.
Para enfrentar esses desafios, mães são incentivadas a se tornarem parceiras ativas na educação dos filhos, buscando adaptações e construindo pontes com as escolas. A volta às aulas deve ser vista como uma oportunidade para revisar paradigmas e criar ambientes que permitam que crianças AHSD floresçam em suas singularidades.
Todo início de ano letivo carrega uma mistura de expectativa e apreensão. Para mães de crianças com altas habilidades e superdotação (AHSD), esse período costuma vir acompanhado de um sentimento ainda mais complexo: esperança de que “desta vez seja diferente” e o receio silencioso de que os mesmos desafios se repitam.
A escola volta. Mas será que o olhar para essas crianças volta de forma adequada também?
Crianças AHSDs não são apenas aquelas que aprendem rápido. Elas sentem rápido, percebem rápido, se entediam rápido e, muitas vezes, sofrem rápido. São crianças com um funcionamento cognitivo e emocional mais intenso, que vivem o mundo em alta voltagem. Quando o ambiente escolar não reconhece essa especificidade o que poderia ser potência vira fonte de frustração, desmotivação e até adoecimento emocional (porque, afinal, essa criança não se sente reconhecida e “vista” quando a escola promete mais desafios e não cumpre).
Conforme aprendi com a Dra. Olzeni Ribeiro, uma das principais referências no estudo das altas habilidades no Brasil, “superdotação não é privilégio, é diferença, é sensibilidade, é profundidade”. E toda diferença exige manejo adequado. O problema é que, na prática, o sistema educacional ainda opera sob uma lógica de padronização: mesmo conteúdo, mesmo ritmo, mesma forma de avaliação para todos.
Para a criança AHSD tudo isso pode ser sufocante.
É comum vermos crianças brilhantes sendo rotuladas como “desinteressadas”, “desobedientes” ou “difíceis”. Crianças que terminam as atividades rapidamente, questionam o professor, demonstram tédio ou criam estratégias próprias de aprendizagem acabam sendo vistas como problema quando, na verdade, estão apenas reagindo a um ambiente que não dialoga com sua forma de funcionar (e apenas quer encaixá-la e “ter trabalho”).
O retorno às aulas, então, não é apenas logístico. Ele é emocional. Muitas dessas crianças voltam já cansadas antes mesmo de começar, pois são anos esperando uma mudança “que nunca vem”.
Um ponto pouco discutido é o impacto emocional da volta às aulas para crianças AHSD. A hipersensibilidade emocional, a percepção aguçada das injustiças, o perfeccionismo e a autocrítica elevada fazem com que o ambiente escolar seja, muitas vezes, vivido como um campo de tensão.
Quando não há estímulo intelectual suficiente, surgem o desânimo e o desengajamento. Quando há cobrança excessiva sem acolhimento emocional, surge a ansiedade. Quando não há pertencimento, surge o isolamento.
E aqui entra um dado importante: crianças superdotadas não adoecem por excesso de capacidade, mas por falta de ambiente adequado para se expressar.
Apesar dos desafios, a volta às aulas também pode ser um momento de grandes oportunidades, especialmente quando as mães assumem um papel consciente e estratégico.
O primeiro passo é compreender profundamente o perfil da criança. As altas habilidades não são homogêneas, afinal as pessoas são diferentes. Há crianças com destaque acadêmico, outras que pensam muito rápido e são ótimas comunicadoras, outras que simplesmente fazem perguntas existenciais que um adulto faria e outras que enlouquecem os professores com tantos questionamentos e oposições. Algumas são expansivas; outras, introvertidas. Algumas amam desafios; outras travam diante do erro.
Conhecer o funcionamento do seu filho ou filha é o que permite dialogar com a escola de forma clara e assertiva (e como eu sempre falo, “ninguém conhece a criança melhor do que a mãe”).
Mais do que cobrar adaptações, é essencial construir pontes: apresentar laudos quando existirem, compartilhar leituras, sugerir estratégias simples de enriquecimento curricular, flexibilização de tarefas, projetos paralelos ou desafios adicionais.
Importante também é não desanimar ao primeiro “não”, que podem ser inúmeros e manter-se otimista quanto ao futuro da sua criança.
Quando a mãe sai do lugar de defesa constante e entra no lugar de parceria consciente, algo muda no campo.
Conselhos práticos para mães de crianças AHSD na volta às aulas:
A volta às aulas pode e deve ser um convite à revisão de paradigmas.
Quando escola e família caminham juntas, essas crianças não apenas aprendem conteúdos: elas aprendem a confiar em si, a respeitar seus limites e a conhecer e desenvolver seus talentos.
Talvez o maior desafio e a maior oportunidade deste retorno às aulas seja justamente essa: parar de tentar encaixar crianças com AHSD em moldes estreitos e começar a expandir os ambientes para que elas possam florescer sendo elas mesmas.
*Juliana Honorato é terapeuta sistêmica, de libertação de traumas, terapeuta do Método Louise Hay e especialista em Altas Habilidades e Superdotação. Mentora de vida e carreira.
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