Série “All her fault” escancara a carga mental da mãe e reacende debate sobre parentalidade
Redação Publicado em 07/01/2026, às 06h00

A série 'All her fault' tem gerado identificação entre mães modernas ao retratar suas rotinas sobrecarregadas e a responsabilidade que sentem por tudo relacionado aos filhos, refletindo uma realidade comum em 2026.
Dados de uma pesquisa de 2025 mostram que 43% das mulheres são as únicas responsáveis pelo trabalho doméstico e 48% cuidam de familiares sem remuneração, evidenciando a carga desproporcional que elas enfrentam no dia a dia.
Com 57% das mulheres trabalhando mais de 40 horas semanais e relatando cansaço físico, a educadora Carol Campos destaca a necessidade urgente de discutir a crise da parentalidade e seus impactos na saúde e autonomia das mulheres.
Sucesso recente no streaming, a série “All her fault” tem provocado identificação imediata ao retratar a rotina de uma mãe moderna: profissional ativa, emocionalmente sobrecarregada e responsabilizada por tudo o que envolve a vida dos filhos. Para a educadora Carol Campos, fundadora do Vozes da Educação, a trama toca em uma ferida coletiva. “De como as mães em 2026 estão exaustas. De como elas carregam toda a carga mental de uma família.” Segundo ela, o impacto da série vai além do suspense e revela um retrato fiel da maternidade contemporânea. A angústia revelada na série é a vivida por todas as mães que entram em pânico se algo sair errado: “se o filho reprova a culpa é da mãe. Se o filho não aprende matemática, a culpa é da mãe. Se ele faz bullying, a culpa é da mãe. A culpa é sempre da mãe”, diz Carol.
Ao longo dos episódios, a narrativa explicita um padrão social conhecido por muitas famílias: a mãe é quem sabe, lembra e responde por tudo. Carol destaca uma das cenas mais simbólicas da série, em que até informações básicas sobre a criança recaem sobre a figura materna: “Ela é a mãe. Ela sabe de tudo, ela lembra de tudo e ela tem culpa de tudo.” Para a educadora, essa lógica atravessa também a relação família-escola, reforçando cobranças, julgamentos e uma cultura de culpa que adoece mulheres.
Em dezembro de 2025, a Sempreviva Organização Feminista, em parceria com a Gênero e Número e com apoio do Ministério das Mulheres, apresentou a pesquisa “Sem Parar 2025: O trabalho e a vida das mulheres cinco anos depois do início da pandemia”. Os dados revelam que os impactos da crise sanitária permanecem presentes no cotidiano das brasileiras: 43% das mulheres são as únicas responsáveis pelo trabalho doméstico, enquanto 48% cuidam de alguém sem remuneração, majoritariamente familiares.
Mesmo quando compartilham tarefas, as mulheres ainda assumem a maior parte, o que impacta negativamente seu acesso ao mercado de trabalho, formação, saúde, lazer e qualidade de vida.
Além disso, 57% trabalham mais de 40 horas semanais e 60% relatam cansaço e dores físicas, evidenciando que a sobrecarga de trabalho e cuidado segue desproporcional e afeta diretamente a saúde, o bem-estar e a autonomia econômica das mulheres.
Em meio a esse cenário, Carol lembra que o alerta já foi dado internacionalmente. O ex-cirurgião geral dos Estados Unidos, Vivek Murthy, afirmou em 2024 que “a parentalidade estava em crise”. Para a educadora, no entanto, os efeitos dessa crise são desproporcionais. “Vamos precisar falar sobre isso este ano, sem falta”.
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