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A dor que virou negócio social

Como Ana Lucia Motta transformou a própria experiência em motor de inclusão e crescimento econômico e negócio social

Ana Lucia Motta* Publicado em 24/03/2026, às 06h00

A CEO da ALL DUB Estúdios, Anna Lucia Motta. - Divulgação
A CEO da ALL DUB Estúdios, Anna Lucia Motta. - Divulgação

Após viver dois anos como paraplégica, a CEO Ana Lucia Motta percebeu a exclusão enfrentada por pessoas com deficiência no Brasil, levando-a a fundar uma empresa de acessibilidade que transforma eventos em ambientes inclusivos.

Com mais de 45 milhões de pessoas com deficiência no país, a acessibilidade é vista como uma oportunidade econômica significativa, especialmente no setor de turismo, que representa cerca de 8% do PIB brasileiro.

A empresa de Motta implementa soluções como audiodescrição e Libras, demonstrando que a inclusão não é apenas uma obrigação legal, mas uma estratégia que gera valor econômico e fortalece marcas no mercado atual.

Resumo gerado por IA

Durante dois anos, estive paraplégica e vivi a rotina de uma cadeirante. Foi nesse período que compreendi, na prática, o que significa ser excluída de espaços que deveriam ser para todos. Não se trata apenas de rampas inexistentes ou banheiros inadequados. Trata-se de não conseguir acessar cultura, informação, lazer, oportunidades profissionais e experiências que movimentam a economia e conectam pessoas.

A dor pessoal me revelou uma realidade estrutural: o Brasil ainda não enxerga a acessibilidade como estratégia de desenvolvimento. E foi dessa constatação que criei uma empresa de acessibilidade — um negócio social criado para transformar eventos, projetos culturais e experiências corporativas em ambientes verdadeiramente inclusivos.

A indústria de eventos é um dos motores da economia urbana contemporânea. Festivais, shows, feiras, congressos e encontros corporativos ativam cadeias produtivas inteiras, impactando hotelaria, transporte, alimentação, tecnologia e comunicação. O turismo, fortemente impulsionado por eventos, responde por cerca de 8% do PIB brasileiro e gera mais de 7 milhões de empregos, segundo o WTTC (World Travel & Tourism Council (WTTC). O setor de turismo e viagens contribui com uma parte significativa do Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil, chegando a cerca de 7,7 % a 8 % da economia nacional e a acessibilidade se inclui nesse segmento.

No entanto, há um mercado ainda subexplorado. De acordo com o IBGE, o Brasil possui mais de 45 milhões de pessoas com deficiência — cerca de 21% da população. Quando somamos idosos, pessoas com mobilidade reduzida temporária, pessoas com transtorno do espectro autista, baixa visão ou deficiência auditiva, esse número ultrapassa 60 milhões de brasileiros. É um público economicamente ativo, com poder de consumo e forte potencial de movimentação financeira.

Minha experiência pessoal mostrou algo que os números confirmam: quando um ambiente não é acessível, ele simplesmente deixa de existir para milhões de pessoas. E quando ele se torna acessível, o impacto econômico e social se multiplica.

Estudos do setor indicam que pessoas com deficiência tendem a viajar acompanhadas, ampliando gastos com transporte, hospedagem e alimentação. Além disso, quando encontram destinos preparados, permanecem mais tempo e retornam com maior frequência. Isso significa aumento do ticket médio, maior ocupação hoteleira e crescimento do consumo local.

Na empresa, trabalhamos com audiodescrição, legendagem, Libras, comunicação acessível e planejamento inclusivo desde a concepção do evento. Não se trata apenas de cumprir a Lei Brasileira de Inclusão (Lei nº 13.146/2015), que determina acesso pleno em eventos públicos e privados. Trata-se de compreender que inclusão gera valor econômico, fortalece marcas e amplia mercado.

Em um cenário empresarial cada vez mais orientado por critérios ESG, acessibilidade deixou de ser custo e passou a ser indicador de governança, inovação e responsabilidade corporativa. Empresas que investem em inclusão ampliam reputação, atraem patrocinadores, consolidam parcerias estratégicas e ganham vantagem competitiva.

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Nossa experiência no carnaval carioca na Sapucaí este ano começou na noite da montagem e organização da cabine de acessibilidade no Setor 13 para pessoas PCD da Sapucaí. Cada detalhe pensado, cada equipamento testado, cada espaço organizado com cuidado e responsabilidade. Nada é improvisado quando falamos de inclusão. Nossa equipe estruturou tudo para que, no desfile de abertura das escolas do grupo especial, as pessoas com deficiência fossem recebidas com conforto, autonomia e dignidade. Libras posicionadas, audiodescrição pronta, operação alinhada, equipe preparada. Foi nessa noite intensa de preparação que vários repórteres de TV nos encontraram. Eles chegaram para cobrir o Carnaval… E saíram encantados com a história que estava sendo construída ali — uma história de acessibilidade, impacto social e pertencimento. Porque Carnaval é espetáculo. Mas inclusão é o que transforma espetáculo em experiência para todos. E é isso que fazemos todos os anos com orgulho

Transformar minha dor em propósito me permitiu enxergar algo essencial: acessibilidade não beneficia apenas pessoas com deficiência. Ela qualifica a experiência para todos, melhora fluxos, amplia público, fortalece cidades e torna o desenvolvimento mais sustentável.

Ficar dois anos em uma cadeira de rodas me ensinou que exclusão é invisibilidade econômica. Criar a empresa de acessibilidade me mostrou o oposto: quando a inclusão é planejada, ela gera crescimento, inovação e prosperidade.

Acessibilidade não é exceção.

É estratégia.

É mercado.

E é futuro.

*Ana Lucia Motta é CEO da ALL DUB Estúdios

*Com edição de Marina Yazbek Dias Peres