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Da cabine de pedágio à gerência do maior centro de operações rodoviárias do Brasil

Entenda como a dedicação e o preparo levaram Neucelia a implementar inovações e a inspirar futuras gerações de mulheres na carreira do Brasil

Neucelia Cevalhos* Publicado em 14/03/2026, às 06h00

A trajetória da primeira mulher a operar no CCO: Neucelia Cevalhos - Divulgação
A trajetória da primeira mulher a operar no CCO: Neucelia Cevalhos - Divulgação

Neucelia Cevalhos, gerente do Centro de Controle de Operações da Motiva, compartilha sua trajetória desde 1999, quando começou como arrecadadora de pedágio, até se tornar uma referência feminina em um ambiente predominantemente masculino, impactando a segurança viária no Brasil.

Com mais de 50% de mulheres na equipe atual, a evolução da presença feminina no setor de infraestrutura é notável, refletindo um ambiente de trabalho mais inclusivo e dinâmico, onde habilidades individuais são valorizadas acima do gênero.

Cevalhos destaca a importância de treinamento e preparação para o avanço na carreira, culminando em sua promoção em 2025, que a levou a refletir sobre sua jornada e a influência positiva que teve na vida de seu filho, um engenheiro de rodovias.

Resumo gerado por IA

Era 1999 quando me candidatei para uma vaga de trabalho na então CCR, atual Motiva. Na época, era uma jovem mãe de 25 anos com um filho pequeno e, após ficar um período fora do mercado para me dedicar integralmente à maternidade, a ideia era aproveitar os meus mais de seis anos de experiência em banco para ocupar a função de atendente de caixa. A surpresa surgiu quando me vi arrecadadora de pedágio na AutoBan, que administra o Sistema Anhanguera-Bandeirantes (SP).

Cheguei à cabine sem saber qual era a realidade do meu novo espaço de trabalho, em meio ao fluxo intenso de carros e caminhões. O ambiente era marcado pelo som dos motores, a pressa nos olhares e a tensão que atravessava o vidro. O pedágio, que para muitos motoristas era apenas um obstáculo na estrada, se tornou, para mim, um ponto de virada. Porque ali, em meio aquele contexto, algo dentro de mim despertou.

O que poderia ser um desafio serviu de combustível. Cresci vendo meu pai se dedicar ao máximo como bombeiro. Até foi meu plano inicial, mas não pude seguir seus passos por ter baixa estatura. Tenho 1,50m de altura e era preciso um pouco mais para me tornar bombeira. Entendi como um sinal para encontrar a minha própria missão e, em pouco tempo, isso ficou claro, quando, depois de poucos meses no pedágio, passei em um processo interno para atuar no serviço de 0800 que estava sendo implementado na AutoBan. O atendimento me permitiria realizar em parte o sonho de salvar vidas.

Estar próxima do Centro de Controle de Operações (CCO) me abriu os olhos para as possibilidades que poderia tomar em minha carreira. Isso porque, no CCO, uma decisão rápida e assertiva pode salvar muitas vidas. Mas, nos anos 2000, o ambiente era muito masculino. Não era comum ter mulheres. Quando finalmente consegui migrar do atendimento 0800 para a sala de controle, a primeira função que exerci foi como auxiliar de operador. Eu olhava as câmeras, registrava boletim de acidente e, basicamente, prestava apoio para a pessoa que tomava as decisões. O clima era visto como pesado demais para a presença feminina. Mas, com desenvoltura, muito preparo, estudo e um pouco de sorte, entrei na operação de rádio. Fui a primeira mulher a fazer isso na Companhia.

Pouco a pouco, com bastante trabalho e uma dedicação demonstrada diariamente, nós, mulheres, fomos revertendo o quadro. Agora, temos um time formado por mais de 50% de mulheres, muito diferente da época em que eu entrei. Hoje, atuamos em um ambiente dinâmico, em operação 24h, sete dias por semana, no único centro operacional de rodovias unificado do Brasil. O nosso trabalho exige agilidade de leitura de cenários, capacidade de tomada de decisões rápidas e certeiras e estrutura emocional forte e, por isso, é preciso olhar cada indivíduo e suas habilidades, e não apenas para o gênero. Hoje, somos 150 pessoas diversas que compartilham suas histórias e experiências de vida, ao mesmo tempo em que empregam toda atenção para garantir segurança viária para milhões de pessoas.

A visibilidade para as mulheres evoluiu demais no setor de infraestrutura. Está cada vez mais claro que podemos ser o que quisermos, tanto é que estamos presentes no planejamento, no operacional, no atendimento, nas viaturas, na engenharia e em diversas outras atividades. O que precisamos fazer para isso? Treinamento e preparo. Foi o que eu busquei ao longo do tempo, me preparando para cada desafio. Estudei Tecnologia da Informação e Comunicação, busquei cursos sobre gestão de contratos e robótica e tudo mais que foi necessário para estar pronta para dar novos passos na minha carreira.

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A cadeira de gerente que ocupo atualmente, por exemplo, foi criada para mim. Uma conquista dos anos de muito trabalho, após ter desenhado o projeto que unificou, em Jundiaí (SP), os centros de operação da Motiva, que antes eram espalhados por diferentes cidades e estados do Brasil, e por ter implementado o primeiro projeto de atendimento por WhatsApp em rodovias no país.

Foi a consagração de uma jornada de muita dedicação, comprometimento e luta, mas, quando essa promoção veio, em 2025, também trouxe reflexão sobre o que eu deixei nesse trajeto. Escrevi para meu filho pedindo desculpas pelas minhas ausências em apresentações da escola, festas e aniversários. Momentos que não voltam mais.

Como mãe, carreguei esse peso por anos. Isso me incomodava e senti que naquele momento precisava zerar o sentimento de culpa que acompanha a maternidade. A resposta do meu filho me atravessou como um raio de luz e me mostrou que a presença não está só no corpo, mas também na inspiração. No alto dos seus 30 anos, ele me respondeu que só se tornou quem ele é, um engenheiro de rodovias, porque eu fui a sua referência. E melhor: que chegamos juntos onde queríamos.  

Ele me mostrou que eu estava no caminho certo o tempo todo e que, assim como meu pai, que entrava em casas enfrentando fogo para resgatar desconhecidos, também tenho a chance de salvar vidas. A minha trajetória está longe de ter sido fácil, mas hoje percebo que cada obstáculo vencido valeu a pena e que, nós mulheres, podemos estar em todos os lugares com protagonismo e competência.

*Neucelia Cevalhos é gerente do Centro de Controle de Operações (CCO) das Rodovias da Motiva, maior empresa de infraestrutura de mobilidade do Brasil.

*Com edição de Marina Yazbek Dias Peres