Identifique os sinais do presenteísmo e saiba como ele pode levar a quadros de ansiedade e burnout entre os profissionais
Redação* Publicado em 05/07/2026, às 06h00

O presenteísmo, fenômeno em que trabalhadores estão fisicamente presentes, mas não conseguem atuar plenamente, tem se tornado uma preocupação nas empresas, impactando a produtividade e o bem-estar emocional dos colaboradores. Essa condição, muitas vezes invisível, pode levar a um ciclo de desgaste emocional e queda na qualidade das entregas.
Sinais de presenteísmo incluem dificuldade de concentração, desmotivação e aumento de erros, frequentemente alimentados por crenças sobre desempenho e comprometimento. A cultura organizacional que valoriza a disponibilidade constante contribui para essa situação, resultando em sobrecarga e sofrimento psicológico.
Atualizações na NR1 (Norma Regulamentadora nº 1) buscam abordar os riscos psicossociais nas organizações, reconhecendo a importância da saúde mental. Para mitigar o presenteísmo, é essencial que gestores promovam ambientes seguros, incentivando a comunicação aberta e a busca por ajuda sem estigmas.
Em um cenário em que produtividade e disponibilidade constante ainda são frequentemente associadas ao comprometimento profissional, um fenômeno silencioso tem chamado atenção dentro das empresas: o presenteísmo.
Diferente do absenteísmo, quando o trabalhador se afasta ou falta ao trabalho por diferentes motivos, incluindo questões físicas e emocionais, o presenteísmo acontece quando o colaborador permanece no ambiente profissional, cumpre horários e segue exercendo suas funções, mas já não consegue atuar com sua capacidade plena. Segundo a psicóloga cognitivo-comportamental Karine Brock, trata-se de uma condição que muitas vezes passa despercebida justamente porque não existe uma ausência visível. “No absenteísmo, a ausência aparece. Já no presenteísmo, o sofrimento permanece oculto. O profissional está presente fisicamente, mas emocional e cognitivamente já não consegue sustentar o mesmo nível de funcionamento”, explica.
Entre os sinais mais frequentes estão dificuldade de concentração, redução da atenção aos detalhes, esquecimentos constantes, aumento de erros, irritabilidade, desmotivação, fadiga, isolamento e dificuldade para tomar decisões. Também é comum observar profissionais que permanecem por longas horas em atividade, mas com baixa efetividade. Pela perspectiva da Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), Karine explica que muitos desses comportamentos estão ligados às interpretações que as pessoas constroem sobre trabalho e desempenho. “Crenças como ‘preciso dar conta de tudo’, ‘não posso demonstrar fraqueza’ ou ‘meu valor depende da minha performance’ acabam alimentando culpa, medo de julgamentos e insegurança. Como consequência, muitas pessoas seguem trabalhando mesmo quando já apresentam sinais importantes de desgaste emocional”, relata a profissional.
Outro ponto de atenção está na cultura organizacional que valoriza disponibilidade permanente como sinônimo de alta performance. Responder mensagens imediatamente, assumir múltiplas demandas e nunca faltar pode parecer comprometimento, mas também pode esconder sobrecarga e sofrimento psicológico. Com o tempo, esse ciclo impacta diretamente a qualidade das entregas, aumenta conflitos internos e favorece um processo de adoecimento silencioso.
A especialista destaca ainda que existe uma relação importante entre presenteísmo e o aumento de quadros de ansiedade, depressão e síndrome de burnout. “Muitas vezes o presenteísmo é um dos primeiros sinais de que algo não está bem. Permanecer sob níveis elevados de estresse por longos períodos, sem espaço para recuperação emocional, aumenta significativamente o risco de adoecimento mental”, explica Karine Brock.
Nesse contexto, as atualizações relacionadas à NR1 (Norma Regulamentadora nº 1) representam um avanço importante ao ampliar o olhar para os riscos psicossociais dentro das organizações. Para Karine, esse movimento marca uma mudança histórica na forma de compreender saúde ocupacional. “A inclusão dos fatores socioemocionais demonstra um marco importante porque reconhece que saúde mental e saúde emocional devem receber a mesma atenção dada aos demais aspectos da saúde dentro das organizações”, ressalta ela.
Na prática, isso significa que empresas passam a ser convidadas não apenas a identificar riscos físicos, mas também fatores como excesso de demanda, falhas de comunicação, insegurança psicológica e modelos de liderança que podem comprometer o bem-estar dos trabalhadores. Para que isso aconteça, a psicóloga reforça que gestores e lideranças têm papel essencial na construção de ambientes emocionalmente seguros, investindo em escuta ativa, diálogo sem julgamentos, canais de acolhimento e ações preventivas que permitam que pedir ajuda deixe de ser visto como sinal de fraqueza e passe a ser compreendido como um ato de consciência.
* Edição por Lina Santiago
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