Mariana Kotscho
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Presenteísmo: quando estar no trabalho não significa estar realmente presente

Identifique os sinais do presenteísmo e saiba como ele pode levar a quadros de ansiedade e burnout entre os profissionais

Redação* Publicado em 05/07/2026, às 06h00

Presenteísmo: o colaborador permanece no ambiente profissional, cumpre horários e segue exercendo suas funções, mas já não consegue atuar com sua capacidade plena. - Foto: Canva Pro
Presenteísmo: o colaborador permanece no ambiente profissional, cumpre horários e segue exercendo suas funções, mas já não consegue atuar com sua capacidade plena. - Foto: Canva Pro

O presenteísmo, fenômeno em que trabalhadores estão fisicamente presentes, mas não conseguem atuar plenamente, tem se tornado uma preocupação nas empresas, impactando a produtividade e o bem-estar emocional dos colaboradores. Essa condição, muitas vezes invisível, pode levar a um ciclo de desgaste emocional e queda na qualidade das entregas.

Sinais de presenteísmo incluem dificuldade de concentração, desmotivação e aumento de erros, frequentemente alimentados por crenças sobre desempenho e comprometimento. A cultura organizacional que valoriza a disponibilidade constante contribui para essa situação, resultando em sobrecarga e sofrimento psicológico.

Atualizações na NR1 (Norma Regulamentadora nº 1) buscam abordar os riscos psicossociais nas organizações, reconhecendo a importância da saúde mental. Para mitigar o presenteísmo, é essencial que gestores promovam ambientes seguros, incentivando a comunicação aberta e a busca por ajuda sem estigmas.

Resumo gerado por IA

Em um cenário em que produtividade e disponibilidade constante ainda são frequentemente associadas ao comprometimento profissional, um fenômeno silencioso tem chamado atenção dentro das empresas: o presenteísmo.

Diferente do absenteísmo, quando o trabalhador se afasta ou falta ao trabalho por diferentes motivos, incluindo questões físicas e emocionais, o presenteísmo acontece quando o colaborador permanece no ambiente profissional, cumpre horários e segue exercendo suas funções, mas já não consegue atuar com sua capacidade plena. Segundo a psicóloga cognitivo-comportamental Karine Brock, trata-se de uma condição que muitas vezes passa despercebida justamente porque não existe uma ausência visível. “No absenteísmo, a ausência aparece. Já no presenteísmo, o sofrimento permanece oculto. O profissional está presente fisicamente, mas emocional e cognitivamente já não consegue sustentar o mesmo nível de funcionamento”, explica.

Entre os sinais mais frequentes estão dificuldade de concentração, redução da atenção aos detalhes, esquecimentos constantes, aumento de erros, irritabilidade, desmotivação, fadiga, isolamento e dificuldade para tomar decisões. Também é comum observar profissionais que permanecem por longas horas em atividade, mas com baixa efetividade. Pela perspectiva da Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), Karine explica que muitos desses comportamentos estão ligados às interpretações que as pessoas constroem sobre trabalho e desempenho. “Crenças como ‘preciso dar conta de tudo’, ‘não posso demonstrar fraqueza’ ou ‘meu valor depende da minha performance’ acabam alimentando culpa, medo de julgamentos e insegurança. Como consequência, muitas pessoas seguem trabalhando mesmo quando já apresentam sinais importantes de desgaste emocional”, relata a profissional.

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Outro ponto de atenção está na cultura organizacional que valoriza disponibilidade permanente como sinônimo de alta performance. Responder mensagens imediatamente, assumir múltiplas demandas e nunca faltar pode parecer comprometimento, mas também pode esconder sobrecarga e sofrimento psicológico. Com o tempo, esse ciclo impacta diretamente a qualidade das entregas, aumenta conflitos internos e favorece um processo de adoecimento silencioso.

A especialista destaca ainda que existe uma relação importante entre presenteísmo e o aumento de quadros de ansiedade, depressão e síndrome de burnout. “Muitas vezes o presenteísmo é um dos primeiros sinais de que algo não está bem. Permanecer sob níveis elevados de estresse por longos períodos, sem espaço para recuperação emocional, aumenta significativamente o risco de adoecimento mental”, explica Karine Brock.

Nesse contexto, as atualizações relacionadas à NR1 (Norma Regulamentadora nº 1) representam um avanço importante ao ampliar o olhar para os riscos psicossociais dentro das organizações. Para Karine, esse movimento marca uma mudança histórica na forma de compreender saúde ocupacional. A inclusão dos fatores socioemocionais demonstra um marco importante porque reconhece que saúde mental e saúde emocional devem receber a mesma atenção dada aos demais aspectos da saúde dentro das organizações”, ressalta ela.

Na prática, isso significa que empresas passam a ser convidadas não apenas a identificar riscos físicos, mas também fatores como excesso de demanda, falhas de comunicação, insegurança psicológica e modelos de liderança que podem comprometer o bem-estar dos trabalhadores. Para que isso aconteça, a psicóloga reforça que gestores e lideranças têm papel essencial na construção de ambientes emocionalmente seguros, investindo em escuta ativa, diálogo sem julgamentos, canais de acolhimento e ações preventivas que permitam que pedir ajuda deixe de ser visto como sinal de fraqueza e passe a ser compreendido como um ato de consciência.

* Edição por Lina Santiago

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