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Saúde mental e equidade: inovar no cuidado de doenças graves é fundamental para a liberdade das mulheres

Janeiro Branco destaca a importância de tratar saúde física e mental como questões de equidade e liberdade das mulheres

Michelle Fabiani * Publicado em 28/01/2026, às 06h00

Duas mulheres conversando; uma dela coloca a mão no ombro da outra, em gesto de consolo
Mulheres geralmente vivem mais que homens, mas passam cerca de 25% mais tempo em condições de saúde precárias - Foto: Canva Pro

A saúde mental das mulheres no Brasil é profundamente afetada por desigualdades sociais, com o trabalho de cuidado recaindo majoritariamente sobre elas, o que intensifica o impacto emocional do adoecimento e compromete sua autonomia e projetos de vida.

Dados indicam que, embora as mulheres vivam mais que os homens, elas passam mais tempo em condições de saúde precárias, sendo essa disparidade atribuída a ineficácia nos tratamentos e na forma como o cuidado é oferecido.

Avanços em terapias menos invasivas têm permitido que mulheres mantenham suas rotinas e qualidade de vida durante o tratamento de doenças como câncer de mama e esclerose múltipla, destacando a importância de um cuidado integral que promova equidade e justiça social.

Resumo gerado por IA

A saúde mental das mulheres no Brasil não pode ser analisada fora do contexto social em que elas vivem. Em um país onde a maior parte do trabalho de cuidado ainda recai sobre elas, o impacto emocional da vida cotidiana já é elevado, e se intensifica quando uma doença entra em cena. O adoecimento não impacta apenas o corpo, influenciando identidade, autonomia e também projetos de vida.

Dados globais ajudam a dimensionar essa desigualdade. Entre 1800 e 2018, a expectativa de vida aumentou de 30 para 73 anos. As mulheres vivem, em média, 1.606 dias a mais do que os homens, mas passam cerca de 25% mais tempo em condições de saúde precárias. Essa diferença é atribuída a três causas estruturais: disparidades na eficácia dos tratamentos, nos dados que orientam a ciência e na forma como o cuidado é oferecido. Fechar essa lacuna poderia adicionar até sete dias saudáveis por ano à vida de cada mulher. Não se trata apenas de viver mais, mas de viver melhor, com impactos que se estendem às famílias, comunidades e à sociedade como um todo.

Em janeiro, mês dedicado à conscientização sobre saúde mental, especialistas e instituições chamam atenção para como as desigualdades de gênero moldam a experiência do adoecimento e do tratamento. Doenças como câncer de mama, esclerose múltipla e nefrite lúpica ilustram esse cenário: afetam majoritariamente mulheres em idade ativa, no auge de suas trajetórias profissionais, familiares e afetivas. Para muitas, o diagnóstico não representa apenas um desafio clínico, mas uma ameaça concreta à autonomia e à continuidade de seus planos.

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Nos últimos anos, avanços científicos vêm transformando essa realidade. Terapias menos invasivas e mais compatíveis com a rotina têm reduzido o tempo dedicado ao tratamento e ampliado a possibilidade de que pacientes mantenham suas atividades, vínculos e escolhas. Ao diminuir o impacto físico do cuidado, essas inovações também atenuam o peso emocional do adoecer.

O debate contemporâneo em saúde aponta para um novo paradigma: tratar doenças sem interromper vidas. No câncer de mama, cresce a visão de que é possível falar em cronicidade, permitindo que mulheres curem ou convivam com a doença preservando qualidade de vida,  inclusive com posologias mais cômodas. Na esclerose múltipla, que afeta principalmente mulheres entre 20 e 40 anos, a inovação é decisiva para que o tratamento não signifique afastamento do trabalho, da maternidade ou da vida social. Terapias de alta eficácia, associadas a regimes mais simples, favorecem a manutenção do estilo de vida, com impacto direto na saúde física e mental. Em nefrite lúpica, uma doença ocasionada pelo lúpus em que o próprio sistema imunológico passa a inflamar os rins, o tratamento correto no tempo certo evita a evolução para um quadro de doença renal crônica.

Inserir esse olhar no Janeiro Branco é reconhecer que saúde física e mental também são questões de equidade, sobretudo quando o adoecimento impõe limitações prolongadas, incertezas e rupturas nos projetos de vida das mulheres. Reduzir o fardo do tratamento, ampliar a autonomia e preservar a qualidade de vida são dimensões centrais do cuidado integral. Em um contexto de desigualdade estrutural, inovar em saúde é também uma forma concreta de promover liberdade e justiça social para as mulheres.

* Michelle Fabiani é Diretora Médica da Roche Farma Brasil

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