Conheça os aspectos essenciais sobre a morte encefálica, a autorização para doação de órgãos no Brasil e a importância do consentimento familiar
Cristiane Pinheiro* Publicado em 27/09/2026, às 06h00

O Dia Nacional da Doação de Órgãos, celebrado em 27 de setembro, destaca a importância da conscientização sobre a doação, especialmente em relação à morte encefálica, que é frequentemente mal compreendida pela população, resultando em altas taxas de recusa familiar.
Dados da Associação Brasileira de Transplante de Órgãos mostram que, em 2025, 45% das famílias consultadas no Brasil se recusaram a autorizar a doação, evidenciando a necessidade de mais informações e diálogos sobre o tema antes de situações de emergência.
Profissionais de saúde enfatizam a importância de conversas prévias sobre doação de órgãos, que devem incluir esclarecimentos sobre o processo e a vontade dos doadores, além de garantir que a autorização familiar siga os protocolos legais estabelecidos no país.
No dia 27 de setembro é celebrado o Dia Nacional da Doação de Órgãos. O tema ainda é cercado por dúvidas e informações que nem sempre chegam às famílias de forma clara. Entre os principais pontos que precisam ser compreendidos está a morte encefálica, condição que, apesar de permitir a manutenção temporária da circulação e de outras funções do organismo com o auxílio de aparelhos e medicamentos, significa a perda completa e irreversível das funções do encéfalo e, portanto, a morte da pessoa.
Além de conhecer os aspectos médicos e legais do processo, falar sobre doação de órgãos antes de uma situação de emergência pode ajudar as famílias a compreenderem melhor o tema e conhecerem a vontade de seus familiares. A conversa em casa, portanto, é uma das principais ferramentas de conscientização.
Em 2025, 45% das entrevistas familiares registradas no Brasil resultaram em recusa à doação, segundo dados da Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO). O número reforça a importância de ampliar o acesso à informação e criar espaços para que as pessoas possam esclarecer dúvidas sobre o processo.
Nesta entrevista exclusiva, Maria Fernanda Camargo, diretora de Transplantes da Rede Américas e coordenadora do Centro de Transplantes e Nefrologia do Hospital Samaritano Higienópolis, explica como funciona a doação de órgãos, esclarece dúvidas frequentes e destaca por que conversar sobre o assunto com antecedência pode fazer diferença.
MK: Por que ainda é tão importante falar sobre doação de órgãos?
Maria Fernanda Camargo: Porque informação é uma das principais ferramentas para que as pessoas possam compreender esse processo. A doação de órgãos envolve aspectos médicos, legais e humanos que nem sempre são conhecidos pela população. Quando conversamos sobre o assunto com antecedência, conseguimos esclarecer dúvidas e entender melhor como funciona todo o processo.
MK: O que é, exatamente, a morte encefálica?
Maria Fernanda Camargo: Morte encefálica significa a perda completa e irreversível das funções do encéfalo, que inclui o cérebro e o tronco encefálico. É a morte da pessoa. O diagnóstico é realizado seguindo um protocolo rigoroso, com diferentes etapas, exames clínicos, teste de apneia e exame complementar que confirmam essa condição.
MK: Por que existe tanta dúvida em relação à morte encefálica?
Maria Fernanda Camargo: Porque, com o auxílio de aparelhos e medicamentos, alguns sinais podem permanecer temporariamente, como os batimentos cardíacos e a circulação sanguínea. Além disso, a ventilação mecânica provoca o movimento do tórax, o que pode gerar a impressão de que a pessoa ainda está respirando. Por isso, explicar o que está acontecendo de maneira clara é tão importante.
MK: Como é feito o diagnóstico da morte encefálica?
Maria Fernanda Camargo: Existem critérios bastante rigorosos. São realizados dois exames clínicos por médicos diferentes e capacitados, além do teste de apneia, que verifica a ausência de movimentos respiratórios diante do estímulo adequado, e de um exame complementar que confirma a ausência de atividade encefálica conforme os critérios estabelecidos. Além disso, os médicos responsáveis pelo diagnóstico devem seguir critérios específicos de capacitação e independência em relação às equipes responsáveis pela retirada e pelo transplante dos órgãos, garantindo a independência desse processo.
MK: Qual é o papel da família durante esse processo?
Maria Fernanda Camargo: A família deve receber informações ao longo de todo o processo. É importante perguntar, pedir que uma explicação seja repetida ou solicitar que os termos médicos sejam apresentados de uma maneira mais simples. O diálogo é parte fundamental desse acolhimento.
MK: A conversa sobre doação deve acontecer antes de uma situação de emergência?
Maria Fernanda Camargo: Sim. Conversar sobre doação em um momento tranquilo permite que cada pessoa compartilhe seus desejos e esclareça suas dúvidas. Conhecer a vontade de alguém em vida pode ajudar a família a compreender e respeitar melhor seus desejos em um momento de grande impacto emocional e que exige decisões importantes.
MK: Como funciona a autorização para a doação de órgãos no Brasil?
Maria Fernanda Camargo: Depois da confirmação da morte encefálica, a família é consultada e orientada sobre a possibilidade de doação. No Brasil, a doação de órgãos após a morte depende de autorização familiar, que deve ser formalizada seguindo as regras previstas na legislação brasileira. Por isso, mesmo que uma pessoa tenha manifestado em vida o desejo de ser doadora, é fundamental conversar sobre essa decisão com seus familiares.
MK: O que acontece depois que a família autoriza a doação?
Maria Fernanda Camargo: É iniciado um trabalho que envolve diversos profissionais e instituições, como equipes de terapia intensiva, enfermagem, laboratórios, centrais de transplantes, transporte e equipes cirúrgicas. Os órgãos passam por avaliações para determinar quais podem ser utilizados com segurança. A distribuição é coordenada pelo Sistema Nacional de Transplantes e segue critérios técnicos definidos para cada órgão, que podem incluir compatibilidade, gravidade ou situação de urgência, tempo de espera, características do doador e do receptor e critérios de regionalização.
MK: Por que a agilidade é tão importante nesse processo?
Maria Fernanda Camargo: Porque os órgãos têm diferentes tempos de preservação e todo o processo, desde a retirada até o implante no receptor, precisa ser organizado de forma muito ágil. O Ministério da Saúde apresenta como referências usuais de tempo máximo de isquemia cerca de quatro horas para o coração, quatro a seis para os pulmões, 12 para fígado e pâncreas e até 48 horas para os rins. Esses períodos são referências e cada órgão e cada situação clínica precisam ser avaliados individualmente.
MK: Qual é a principal mensagem que você gostaria de deixar para quem ainda não conversou sobre doação de órgãos com a família?
Maria Fernanda Camargo: Que essa conversa não precisa esperar uma situação de emergência. Falar sobre doação, esclarecer dúvidas e compartilhar desejos com a família são atitudes que ajudam a ampliar o conhecimento sobre o tema. E, para nós, profissionais de saúde, fica também o compromisso de explicar com clareza, ouvir com atenção e acolher com respeito, qualquer que seja a decisão da família.
* Cristiane Pinheiro é jornalista.
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