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Volta às aulas: e agora, professor autista?

O retorno às aulas traz desafios únicos para o professor autista, que enfrenta estressores muitas vezes ignorados pela comunidade escolar

Luciano Gonçalves* Publicado em 12/02/2026, às 06h00

Professores neurodivergentes também são afetados pelas mudanças e novidades de um novo ano letivo. - Foto: Canva Pro
Professores neurodivergentes também são afetados pelas mudanças e novidades de um novo ano letivo. - Foto: Canva Pro

O início do ano letivo traz desafios significativos para professores neurodivergentes, especialmente aqueles no espectro autista, que enfrentam crises de ansiedade e estresse devido a mudanças na rotina escolar.

Esses educadores lidam com a pressão de novas divisões de turmas, evasão de alunos e a necessidade de se adaptar a um ambiente em constante mudança, o que pode afetar sua saúde mental e física.

Embora algumas instituições estejam eliminando fatores estressantes, como alarmes barulhentos, a carga de trabalho e a burocracia continuam a exigir um alto nível de desempenho, destacando a necessidade de suporte psicológico para esses profissionais.

Resumo gerado por IA

Todo início de ano é a mesma coisa. As listas de resoluções do novo ciclo sempre incluem as obrigações relacionadas ao calendário escolar. Antes da volta às aulas, será necessário renovar o material didático, trocar objetos desgastados e fora de uso, escolher a marmita perfeita, repor a milésima garrafinha térmica perdida, aprontar o uniforme adequado e por aí vai.

Além de alunos, mães, pais e responsáveis, professoras e professores neurodivergentes também são afetadas e afetados pelas mudanças e novidades. Educadoras e educadores autistas não ficam de fora desse turbilhão. De modo geral, aos olhos da comunidade escolar, tais estressores passam batidos.

A começar pelo cenário, alterações de salas se apresentam como incômodo para docentes neurodivergentes. O humor desses educadores pode apresentar crises de ansiedade graves diante do novo.

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Alguns dirão que professores concursados têm quarenta e cinco dias de descanso e que esse direito contempla a todos. Sim, correto. Porém, mesmo que o profissional tenha aproveitado a contento as férias legais, uma coisa não se relaciona com a outra.

Por exemplo, no meu caso, o início do período letivo traz, com alguma variação, resfriado, alteração ocular (bacteriana ou viral), manchas avermelhadas na pele e, mais grave, as crises hipertensivas que me lembram o paradoxo que é ser um adulto autista. Por um lado, a falta de percepção e de condição para identificar sensações e sentimentos, próprios e alheios. Em termos técnicos, essa ausência é definida como alexitimia, prejuízo que afeta a maioria da população que se encontra no espectro. Por outro lado, a dor extrema, física e mental, diante de uma “simples” alteração da rotina.

E mais, se você é do tipo que realiza observações reiteradas sobre a necessidade da informação, logo será chamado, em público (sim, em público) de exigente, chato, exagerado ou “causador”, como me descreveu dia desses um colega de trabalho. Se você pede, solicita, implora, vira o chato da coordenação. Calado, você se transforma no dono da escala preferida para rearranjos inesperados, negociatas sem transparência e com acomodações para favoritas e favoritos.

Na soma de dores de cabeça do início do ano escolar, entre as mais crônicas, estão a divisão dos componentes ofertados, a quantidade de carga-horária e os turnos que se amontoam e desafiam a qualidade do sono de professoras e professores. Esse é o momento que você descobre que trabalha com catedráticos, donos de cadeiras, especialistas em tudo e afins.

Invariavelmente, a mudança espacial vem somada à alteração de alguns atores. Há sempre aquele aluno que transfere a matrícula e os motivos não apresentam uma lógica aparente. E, ainda, aquele que abandona os estudos porque, de fato, nunca encontrou um motivo justo para passar tantas horas estudando. Diante da evasão, culpada ou não, a mente do professor autista beira o colapso porque, nesses casos, não há tempo, condição e oportunidade para ensinar.

Em contrapartida, aparecem os estudantes novatos. Ou seja, mais estresse.

A depender dos métodos de ingresso e de ensino, em maior ou menor grau, alunos transferidos serão atendidos a partir dali. E tome novas avaliações diagnósticas, entrevistas e tentativas para inserir as novidades.

Afunilando mais, diante do ponto eletrônico - não raramente, incapaz de reconhecer digitais - você retoma a luta para registrar o seu valor de operário. As madrugadas em claro corrigindo atividades dos retardatários, as horas preenchendo diários, mesmo afastado por motivos de saúde, não contarão. O ponto, depósito de tudo quanto é micróbio, a mente transtornada já definiu, é o que importa, impera.

À burocracia da prova de utilidade real, acrescenta-se um fiscal comprometido com o número, com uma alegada produtividade, a despeito da saúde psicológica e física dos seus subordinados e do seu próprio bem-estar. Doente, você não recebe sequer um desejo humanitário de melhoras.

Depois que soa a sirene monstruosa e barulhenta, a comunidade acadêmica espera o riso no rosto, a afabilidade do profissional, a urbanidade no trato, a conduta pautada na ética e a entrega total da excelência, claro. Felizmente, esses aparelhos sonoros estão sendo banidos em muitas instituições de ensino! Essa mudança sutil é um alento efetivo para o professor autista que precisa se recompor e seguir para a aula. Ainda assim, para atender a tudo que se cobra de um educador, autista ou não, haja terapia!

*Luciano Gonçalves é Professor do Instituto Federal de Ciência, Educação e Tecnologia do Tocantins (IFTO). Doutor pelo Programa de Pós-Graduação em Literatura Brasileira da Universidade de São Paulo (USP). Autista diagnosticado tardiamente. Autor de Crônicas espectrais, notas sobre o TEA (Editora Patuá, 2024).

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