Estudo revela que metade do mundo enfrentará calor extremo até 2050, afetando diretamente as escolas e a educação
JP Amaral* Publicado em 13/02/2026, às 06h00

Estudo indica que até 2050, metade da população mundial enfrentará calor extremo, impactando diretamente as escolas, que já registraram adiamentos de aulas devido às altas temperaturas. A pesquisa revela que as escolas nas capitais estão em áreas até 4 graus acima da média urbana, aumentando o risco de evasão escolar em 5%.
Crianças são as mais afetadas pelo calor intenso, que prejudica seu desenvolvimento e capacidade de aprendizado, além de impactar negativamente o sono. A desigualdade racial e socioeconômica agrava a situação, com crianças de áreas periféricas enfrentando condições ainda mais adversas.
Para mitigar esses efeitos, é necessário integrar a educação ao combate à crise climática, implementando medidas como planos de contingência e revitalização dos espaços escolares. A proposta inclui a 'Educação baseada na Natureza', que visa reconectar as crianças com o meio ambiente e promover um aprendizado mais saudável e sustentável.
Estudo recente na revista Nature trouxe que metade do mundo viverá sob calor extremo até 2050. Parece longe, mas a realidade já está muito próxima e tem um alvo imediato — as escolas. Ano passado, nessa mesma época, escolas do Rio Grande do Sul adiaram a volta às aulas por conta do calor. Dados da pesquisa do MapBiomas com o Instituto Alana mostram que as escolas das capitais estão em territórios até 4 graus acima da média urbana. Estudo da FGV com a Universidade Minerva localizou um aumento de 5% de risco de evasão escolar por causa do calor extremo.
Essa realidade nos provoca a pensar também quem é mais impactado. Estamos falando de um público particularmente vulnerável às ondas de calor: as crianças. Elas transpiram e respiram muito mais que adultos. Fora que o calor afeta diretamente o seu desenvolvimento de todas as formas. Em um ambiente de estresse térmico intenso fica mais difícil se concentrar, aprender, se exercitar e até brincar. Para além dos efeitos diretos relacionados à percepção cognitiva e bem-estar, o calor noturno prejudica o “sono restaurador”, responsável por fixar o que foi aprendido durante o dia.
Além disso, devemos considerar que temos como recorte as desigualdades que exponenciam esses impactos, pois as crianças negras, periféricas, são ainda mais vulnerabilizadas pelas condições de racismo ambiental que permeiam essas condições. A mesma pesquisa sobre as escolas das capitais brasileiras identificou que todos os indicadores sobre os riscos climáticos e áreas verdes nas escolas pioram conforme elas se aproximam de favelas. Lembrando que essa realidade está posta não só para os alunos, mas para toda comunidade escolar, como foi o caso da professora em uma escola municipal de Praia Grande que chegou a desmaiar por conta do calorão.
Com essa realidade posta para hoje — e até 2050 —, há um caminho possível para convergir. Um caminho que passa por colocar o setor de educação com a mesma relevância no combate à crise climática que o setor de transportes ou de energia. Isso porque as escolas estão em todos os territórios e têm a capilaridade para distribuir medidas de adaptação climática, como planos de contingência a eventos extremos e a revitalização dos espaços internos e externos para gerar mais conforto térmico.
Esse caminho passa pela aceitação de que nos apartamos da Natureza e precisamos trazê-la de volta para perto — dentro das escolas e no seu entorno. Precisamos reflorestar a cidade a partir das escolas, como mostrou estudo da UFPR ao analisar áreas de florestas urbanas de Curitiba com maior conforto térmico. Devemos também considerar medidas como ventilação natural, sombreamento e presença de água no ambiente escolar.
Além disso, precisamos “Naturalizar” o currículo, compreendendo que iniciar uma educação socioambiental passa pelo contato e vínculo profundo das crianças com a Natureza, trazendo um ambiente melhor para a aprendizagem e um senso de pertencimento para cuidá-la e entendê-la como aliada no combate aos riscos ambientais. O mapa do caminho para isso chama-se Educação baseada na Natureza, um movimento para adaptar os espaços escolares ao novo clima e reconectar as crianças com o mundo natural.
Parece que só nos lembramos desse tema quando corremos para as lojas para comprar o ventilador no dobro do preço porque está chegando o verão, ou entramos na fila enorme de pedidos de ar condicionado, mas temos que enfrentá-lo de forma sistêmica, pulverizada em todos os territórios. E as escolas são os melhores equipamentos urbanos para fazermos isso no curto prazo. Que gestoras e gestores públicos não esperem o próximo verão, muito menos 2050, para garantir a proteção das crianças e de todos nós, promovendo um mutirão contra o calor extremo.
* JP Amaral é gerente de Natureza do Alana, formado em Gestão Ambiental pela Universidade de São Paulo, com especialização em Sistemas de Gestão Integrada e Futurologia e conselheiro do CONAMA.
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