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Como amenizar o custo emocional da maternidade chamada de “solo”

Reconhecer a presença simbólica do pai pode ser o primeiro passo para a cura emocional na maternidade chamada de "solo"

Adriana Ribeiro* Publicado em 12/02/2026, às 06h00

Figuras de objetos no chão representando terapia sistêmica
Não existe mãe solo, e sim criação solo: sistemicamente, ninguém vem ao mundo sem pai e mãe. - Foto: Canva Pro

A discussão sobre a maternidade solo destaca que a ausência do pai não elimina sua importância na origem da criança, podendo gerar consequências emocionais e comportamentais nos filhos, como dificuldades de limites e problemas com autoridade.

Mulheres que criam filhos sozinhas enfrentam não apenas desafios práticos, mas também um peso emocional significativo, resultante de histórias familiares e a pressão de 'dar conta de tudo'.

Para promover a cura emocional, é fundamental reconhecer o papel do pai, construir redes de apoio e cuidar da mulher como um todo, permitindo que ela não precise ser forte o tempo todo e facilitando um ambiente mais amoroso e saudável.

Resumo gerado por IA

Eu costumo dizer - e digo com muito respeito e sensibilidade - que não existe maternidade solo. Existe criação solo porque, sistemicamente, ninguém vem ao mundo sem pai e mãe. O que pode existir é a ausência do pai na função, no vínculo ou na convivência, mas não na origem.

No campo sistêmico, muitas vezes a exclusão do pai acontece de forma sutil, quase inconsciente, através de frases internas ou ditas em voz alta, como:

“Aqui não existe pai.”

“Eu dou conta sozinha.”

“Meu filho não precisa de pai.”

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Essas frases não são maldade, são tentativas de sobrevivência emocional. São defesas, mas o campo, a vida escuta, e quando o pai é excluído simbolicamente, o sistema tenta recolocá-lo de algum jeito de forma inconsciente, e isso pode aparecer em filhos com dificuldade de limites, confusão com autoridade, problemas com homens (nas meninas), problemas com responsabilidade (nos meninos), raiva, tristezas sem nome e repetição de padrões de abandono nas gerações seguintes.

Quando uma mulher se vê criando um filho sozinha, o primeiro impacto é prático: mais contas, menos tempo, cansaço constante. Mas, do ponto de vista sistêmico, o que mais pesa não é apenas a falta de ajuda externa: é o peso interno que ela carrega. Um peso invisível feito de histórias familiares, lealdades inconscientes e da sensação profunda de “eu preciso dar conta de tudo”.

O primeiro movimento de cura é simbólico: devolver ao pai o lugar que é dele no sistema, mesmo que ele esteja ausente na vida real. Isso não é sobre concordar com a história, nem romantizar ausências. É apenas reconhecer a verdade: essa vida veio de dois.

O segundo passo é sair do lugar da heroína, muitas mães vivem em modo sobrevivência, a força vira identidade. Mas sustentar tudo sozinha cobra um preço alto do corpo, da mente e da alma.

Também é essencial construir redes reais de apoio. Ninguém foi desenhado para criar uma criança sozinha, o campo precisa sustentar, não apenas a mãe.

E talvez o mais importante: cuidar da mulher como mulher, não só como mãe. Desejo, corpo, prazer, sonhos e vínculos também são saúde emocional e muito importantes.

Amenizar a maternidade chamada de “solo” não é tornar essa mulher mais forte, é permitir que ela não precise ser forte o tempo todo. É preciso um processo de cura emocional nessa mulher, e quando isso acontece, algo se reorganiza no campo. E a vida começa a fluir com menos peso e mais amor.

* Adriana Ribeiro é terapeuta sistêmica, especialista em desenvolvimento humano e constelação familiar.

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