Mariana Kotscho
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Violência contra mulheres e radicalização online

Educadora analisa como a radicalização de meninos nas redes sociais e a ausência de debate nas escolas ajudam a explicar casos recentes de violência

Redação * Publicado em 16/03/2026, às 06h00

Pessoa de capuz em frente a tela de computador segura um telefone celular.
Jovens começaram a acessar conteúdos de misoginia e radicalização durante a pandemia. - Foto: Canva Pro

Vitor Hugo de Oliveira Simonin, acusado de envolvimento em um estupro coletivo no Rio de Janeiro, entregou-se à polícia vestindo uma camiseta com a frase 'regret nothing', associada a grupos misóginos, o que gerou forte repercussão e levantou questões sobre a radicalização de jovens na internet.

A educadora Carol Campos destaca que a pandemia intensificou o acesso descontrolado de adolescentes a conteúdos misóginos, contribuindo para a formação de pensamentos misóginos entre jovens, especialmente entre meninos, enquanto meninas se tornaram mais emancipadas.

Campos enfatiza a necessidade de desradicalização e a inclusão de debates sobre gênero nas escolas, já que a Base Nacional Comum Curricular não contempla esses temas, dificultando a educação sobre igualdade de gênero e a prevenção de novos casos de violência.

Resumo gerado por IA

O caso do jovem Vitor Hugo de Oliveira Simonin, acusado de participar do estupro coletivo contra uma adolescente no Rio de Janeiro, ganhou ainda mais repercussão quando ele se entregou à polícia usando uma camiseta com a frase “regret nothing”, em tradução literal, “não se arrependa de nada”. A expressão é frequentemente associada a grupos misóginos que circulam na internet, como os chamados “Red Pills”, comunidades virtuais que propagam discursos de ódio contra mulheres.

Para a educadora Carol Campos, diretora do Vozes da Educação, o episódio não pode ser analisado como um fato isolado. Ele se conecta a um fenômeno mais amplo de radicalização de jovens em ambientes digitais.

Segundo Carol Campos, a pandemia criou um cenário especialmente sensível para adolescentes que estão chegando na maioridade. “Se a gente for pensar, esses jovens que têm 17, 18 anos hoje, seis anos atrás tinham 12, 13 anos. Eles estavam longe da escola, porque a escola estava fechada, e eles estavam tendo tempo e acesso às redes sociais de forma descontrolada. E aí o que aconteceu? Eles começaram a acessar conteúdos de misoginia, de radicalização e etc. Você não radicaliza a pessoa da noite para o dia.”

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Ela explica que a radicalização costuma acontecer de forma gradual, por meio do consumo contínuo de conteúdos. “Ao longo do tempo, esses meninos foram consumindo esse material, não tinha supervisão. Existe paralelamente a isso uma crise de parentalidade, ou seja, esses pais estão muito perdidos na hora de apoiar seus filhos. E aí o que aconteceu foi que a gente foi criando, debaixo do nosso teto, jovens que têm pensamentos muito misóginos.”

Carol Campos também chama atenção para um dado que revela um distanciamento crescente entre meninos e meninas em temas ligados à igualdade de gênero. “Isso explicaria, por exemplo, a pesquisa que foi feita pelo King’s College de Londres, que mostra que a geração Z é a geração mais resistente às questões de combate ao assédio contra a mulher do que outras gerações.”

Segundo ela, parte desse fenômeno pode ser explicado pelo tipo de conteúdo consumido por cada grupo durante os últimos anos. “O pensamento de meninas e meninos está cada vez mais diferenciado nessas temáticas. Enquanto os meninos estavam na pandemia consumindo esses conteúdos e se radicalizando, as meninas estavam consumindo outros conteúdos e estavam se tornando cada vez mais emancipadas.”

A educadora também destaca que o ambiente digital atual é diferente do que outras gerações experimentaram. “Na década de 90, as crianças foram criadas pela televisão. Nos anos 2000, foram criadas pelo videogame. Mas as crianças da década de 2020 estão sendo criadas em chats e redes sociais de jogos.”

Segundo ela, a diferença é que hoje há interação direta com desconhecidos. “Antes, as crianças estavam diante de telas, mas não interagiam com outras pessoas. A partir de 2010 e 2020, a gente começa a ter jogos compartilhados, jogos com chat, com internet. Isso abriu uma porta para que crianças e adolescentes tivessem contato com pessoas que elas não conheciam, com ideias muito diferentes.”

Para Carol Campos, o desafio agora não é apenas prevenir novos casos, mas enfrentar a radicalização que já aconteceu. “Para mim, a grande questão é: como é que eu desradicalizo o menino? Porque, para combater a radicalização, a gente vai ter que trabalhar isso na escola.”

Ela lembra que o debate sobre relações de gênero acabou ficando de fora da Base Nacional Comum Curricular. “A nossa Base Nacional Comum Curricular não pôde prever o debate desses temas na escola. Isso foi retirado da base para que ela pudesse passar no Congresso. Então a gente não trabalhou isso.”

*Com edição de Lina Santiago.

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