Para salvar vidas e construir um futuro sem violência contra mulheres é necessário educar jovens
Ana Claudia Victoriano* Publicado em 06/01/2026, às 06h00

A violência contra a mulher no Brasil é um problema que se inicia com comportamentos sutis, como ciúmes e controle, e para combatê-la efetivamente, é necessário focar na educação de jovens e adolescentes.
O projeto 'Se Liga Moçada' tem promovido discussões sobre violência de gênero e consentimento, alcançando mais de 24 mil jovens e gerando um impacto positivo na percepção de relacionamentos abusivos.
Com a educação preventiva, instrutores e famílias relatam maior abertura para discutir temas antes considerados tabus, evidenciando a importância de transformar a cultura por meio da educação para prevenir a violência.
A violência contra a mulher não começa com o tapa, o empurrão ou a ameaça. Ela começa muito antes — no controle disfarçado de cuidado, no ciúme romantizado, na naturalização do machismo, no silêncio que ensina meninas a suportar e meninos a dominar. Por isso, se quisermos enfrentar de verdade a violência contra mulheres no Brasil, precisamos olhar para onde quase sempre chegamos tarde demais: a educação. E, sobretudo, a educação de adolescentes e jovens.
Falo a partir da experiência prática. Há anos atuo na formulação e execução de políticas públicas e projetos educativos voltados à prevenção da violência de gênero. E, desde 2024 coordeno o projeto Se Liga Moçada, uma iniciativa de educação preventiva do INDES, por meio do Programa Bem Querer Mulher em parceria com o CIEE, que mostra, na prática, que prevenir funciona.
O Se Liga Moçada atua com jovens aprendizes, propondo reflexões diretas e honestas sobre violência de gênero, violência sexual, consentimento e relacionamentos saudáveis. Não são encontros vazios. É conversa, escuta, vivência e produção coletiva e, em 2025, 24.227 jovens participaram diretamente das atividades educativas do projeto, além de 366 instrutores e 254 familiares, segundo os dados consolidados de avaliação.
O que muda quando a educação chega antes da violência? Muda tudo!
Nas avaliações, os jovens relataram maior capacidade de identificar relações abusivas, reconhecer sinais de violência psicológica e compreender que ciúme e controle não são amor. Muitos disseram, pela primeira vez, ter entendido o que é consentimento de verdade.
Os Instrutores afirmaram sentir-se mais preparados para abordar temas que antes geravam medo ou silêncio. Famílias relataram diálogos que nunca haviam acontecido dentro de casa.
A violência contra mulheres não se sustenta apenas pela força física. Ela se sustenta pela cultura. E cultura se transforma com educação. Não basta punir. É preciso prevenir.
O Brasil avançou na legislação. A Lei Maria da Penha é um marco. Mas nenhuma lei, sozinha, muda mentalidades. Se não investirmos em educação preventiva, continuaremos enxugando gelo: acolhendo vítimas, contando mortes e perguntando onde erramos.
Erramos quando achamos que falar de gênero com jovens é “polêmico”.
Erramos quando acreditamos que prevenção é gasto e não investimento.
Erramos quando deixamos a educação fora da política de enfrentamento à violência.
Projetos como o Se Liga Moçada mostram que é possível ensinar respeito, igualdade e cuidado sem moralismo, sem censura e sem violência. Educar é salvar vidas e nenhuma violência nasce do nada. Ela é aprendida. E tudo aquilo que é aprendido pode ser desaprendido e, se quisermos um futuro com menos mulheres agredidas, violentadas ou mortas, precisamos começar agora — com os jovens, com diálogo, com educação e com coragem política.
Educar não é apenas formar profissionais.
É formar relações.
E relações saudáveis salvam vidas.
Para conhecer mais o projeto acesse: www.seligamocada.com.br ou no Instagram @bemquerermulher.
* Ana Claudia Victoriano é Pedagoga, Especialista em Gestão de Políticas Públicas, Diversidade e Inclusão Social. Atua na formulação e coordenação de políticas públicas e projetos educativos voltados à prevenção da violência de gênero e à formação de jovens por meio do Programa Bem Querer Mulher.
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