Entenda como a masculinidade saudável pode ser um caminho para a transformação social e a redução da violência
Vanessa Kopersz* Publicado em 05/01/2026, às 06h00

Rodrigo Hilbert se afastou de amigos com comportamentos machistas, buscando relações mais saudáveis, em meio ao alarmante aumento de feminicídios no Brasil, que registrou 207 casos em 2025, um aumento de 8% em relação ao ano anterior.
O psicanalista Guilherme Facci destaca que o feminicídio reflete a falência do homem tradicional, que não aceita a autonomia feminina, enquanto Fabio Manzoli promove uma masculinidade menos estereotipada, defendendo a criação de filhos livres de conceitos patriarcais.
Facci e Manzoli enfatizam a importância de uma masculinidade que aceite a vulnerabilidade e promova o diálogo, além de reconhecer que o machismo é uma estrutura enraizada que exige reflexão e mudança contínua por parte dos homens.
Recentemente, o apresentador Rodrigo Hilbert revelou que se afastou de muitos amigos por não concordar com atitudes machistas e comportamentos que não condizem mais com a pessoa que ele se tornou, buscando companhias menos agressivas, mais sensíveis e que conversem mais, o que gerou repercussão e elogios pela sua reflexão sobre a masculinidade.
Em meio ao recente crescimento assustador de feminicídios no Brasil, a discussão em torno do assunto é extremamente bem-vinda. Dados da Secretaria Estadual de Segurança Pública de São Paulo (SSP-SP) revelam que entre janeiro e outubro de 2025 foram registrados 53 casos de feminicídio na capital paulista. Este é o maior índice anual desde 2018, mesmo sem contabilizar os meses de novembro e dezembro.Em todo o estado de São Paulo, foram registrados 207 feminicídios entre janeiro e outubro de 2025. No mesmo período do ano anterior, foram 191. Um aumento, portanto, de 8% considerando os dez primeiros meses do ano. Isso sem contar a subnotificação de casos.
Para o psicanalista Guilherme Facci, criador do incensado podcast ‘’A Loucura Nossa de Cada Dia’’, o feminicídio ‘’é o sintoma mais trágico da falência do homem tradicional. Não é crime de ódio apenas, é relacionado ao narcisismo patológico. O homem mata a mulher porque não suporta que ela seja um ‘outro’, um sujeito com desejos próprios’’. E completa: ‘’para muitos homens, a mulher é um objeto que serve para sustentar a virilidade dele. Quando ela diz ‘não’, quando ela vai embora, o espelho se quebra. Ele se sente aniquilado. Ele mata para tentar destruir a prova da sua própria impotência. É o grito desesperado e brutal de quem não tem recursos psíquicos para lidar com a perda e com a frustração. Os homens precisam aprender a perder, a lidar com a alteridade, e principalmente com uma nova posição subjetiva onde a sua única função no mundo deixa de ser a de provedor’’.
Mas o que seria uma ‘’masculinidade saudável’’? Esse é o mote que permeia o perfil do influenciador Fabio Manzoli, de 46 anos que concentra 214 mil seguidores no Instagram. Ele foi um dos pioneiros do movimento por figuras masculinas menos estereotipadas ao inaugurar sua rede social em 2017.
A história de Fabio é sui generis. ‘’Em algum momento eu entendi que o fato de eu ter sido um suicida por trinta anos e batido na trave uma vez, entre o fato de eu ter sido um homem muito explosivo verbal/ emocionalmente em relacionamentos amorosos com mulheres, de ter uma autoestima péssima, de ter usado muita droga pesada, entre outros desafios, consegui perceber que tudo isso tem como base a cultura do ‘engole o choro’ para sermos mais viris, ou mais homens, como se fosse possível ser mais homem’’.
Para Fabio, o ‘engole o choro’ vem como símbolo de que homens devem reprimir tudo aquilo que é considerado feminino dentro da nossa sociedade. Das emoções, ‘’ só podemos expressar a raiva. E não o afeto, o carinho, o cuidado, já que não é permitido sorrir muito. Existe uma expressão conhecida como ‘caixa do homem’, que de forma resumida diz que precisamos ser uma máquina sexual, que nunca nega fogo, que não demonstra emoções, resolve as coisas na porrada e jamais demonstra qualquer fragilidade. Essa fórmula é responsável pelo fato de nós homens cometermos, em média, 92% de toda violência que existe no mundo’’.
Já para Facci, o termo masculinidade saudável não seria o mais apropriado ‘’porque sugere que existe uma fórmula higienista para o desejo e para a psique, o que não existe. Mas, se formos usar esse termo, eu diria que a ‘masculinidade ‘possível’ é aquela que topa fazer as pazes com a própria falta’’. Facci ressalta que ’’o homem tradicional foi montado para ser o ‘Falo’, aquele que tudo pode, que não quebra, que não sente. Isso é insustentável. Uma masculinidade saudável é aquela que desce desse pedestal imaginário e aceita a castração. É o homem que entende que a vulnerabilidade não é o oposto de ser homem, é apenas a condição humana’’.
Guilherme nos lembra, brilhantemente, que ‘’o Brasil é um país que sofre de uma ‘paternidade delinquente’. ‘’Historicamente, somos a terra do ‘sabe com quem está falando?’. O machismo estrutural aqui é o gozo do poder sem limites. Combater isso exige que a Lei (simbólica e jurídica) funcione para barrar esse gozo desenfreado do homem. Mas, no divã, a abordagem é individual: é permitir que um homem possa falar e principalmente escutar o que diz’’.
O psicanalista reflete que o machismo - e principalmente a misoginia-, mostra a covardia dos homens diante do próprio desejo e funciona mais ou menos assim: eu condeno no outro um desejo que é meu, mas que eu não aceito como meu e projeto no outro. Para o profissional do divã ‘’as religiões, absolutamente todas, fazem isso com maestria: colocam a mulher como causadora ou culpada pelo desejo e pela desgraça dos homens. Todas as religiões diminuem, degradam ou culpabilizam as mulheres em suas narrativas e rituais - nem o Budismo escapa. Então o machismo estrutural também passa por um descolamento do fanatismo religioso, o que é ainda mais complicado no Brasil. O homem brasileiro precisa parar de atuar ao bater, gritar, assediar e começar a falar sobre o que lhe dói. Enquanto o homem não elaborar sua própria vulnerabilidade, ele vai continuar projetando-a na mulher e tentando destruí-la’’.
Outro conceito da masculinidade saudável (ou possível) é uma criação de meninos e -por que não - meninas anti machistas. Fabio, pai de gêmeos de 3 anos e 9 meses, acredita que ‘’o machismo precisa acabar e o feminismo é um caminho para isso. Ainda tem muitos homens que pensam que feminismo é o oposto do machismo, como se fosse um movimento para subjugar os homens e colocá-los no lugar da mulher patriarcal. Feminismo é sobre direitos iguais, sobre todos termos acesso às mesmas oportunidades. Sobre podermos nos vestir da forma que quisermos. Sobre podermos emitir nossas opiniões sem ninguém nos ridicularizar’’.
E ainda ressalta: ‘’minha filha não vai ouvir de mim ‘fecha a perna’ e coisas que fazem a mulher crescer achando a própria sexualidade suja e pecaminosa. Meu filho não vai ouvir de mim ‘isso é coisa de mulherzinha/ viadinho’, a frase que dá origem aos pensamentos misóginos e de lgbtfobia dentro da mente dos homens. Certamente cometerei erros no caminho, mas a minha intenção é criá-los da forma mais livre possível dos conceitos patriarcais, e muitas vezes cristãos’’.
O influencer acredita que a coisa mais importante seja o exemplo que ele será para seu filho. ‘’Mais do que qualquer coisa que eu falar pra ele, o impacto maior é no que eu fizer na prática. Como eu trato as mulheres com quem eu me relaciono? Como eu me relaciono com as minhas emoções? Eu reprimo o meu filho dizendo pra ele engolir o choro e que isso não é coisa de homem? Ou deixo ele continuar expressando aquilo que, no fundo, o torna mais humano? A gente aprende que tem coisa que nos faz ser mais ou nos faz ser menos homem, mas o que está em jogo é o quanto conseguimos recuperar nossa capacidade de sermos humanos. Ser humano sente!’’.
Ele também revela que não assiste mais pornografia desde 2016, com raras e pontuais recaidas de lá pra cá. E provavelmente quem assiste pornografia pode ler isso e pensar eu vejo, mas meu filho não sabe. Manzoli pensa que ‘’a questão não é o que o filho sabe, mas o que a pornografia faz com a cabeça de quem a assiste. Costumo dizer como quem consumiu bastante pornografia desses sites mais conhecidos, que a pornografia tradicional é a manifestação maior da mulher como um absoluto nada. É o auge da misoginia e da objetificação. A mulher existe, apenas, para saciar os fetiches masculinos, muitas vezes violentos, com abusos e coisas que demonstram, no fundo, a raiva que nós homens sentimos das mulheres’’.
Já Facci também ressalta que não existem homens ‘’não machistas’’. Aliás, homens e machismo são dois termos indissolúveis, a meu ver, do alto de meus quase 52 anos como mulher. ‘’Quem disser que nunca é machista, ou está mentindo ou está em negação absoluta. Eu fui criado nessa cultura, a linguagem que eu uso é atravessada pelo patriarcado. O machismo não é uma roupa que você tira e pronto, ‘estou curado’. É uma estrutura’’, reflete o psicanalista. ‘’Eu me pego tendo pensamentos machistas, ou querendo explicar coisas que as mulheres já sabem. A correção vem da análise e da escuta. Quando percebo, eu paro e me pergunto: ‘De onde veio isso? Que insegurança minha eu estou tentando cobrir com essa postura?’. A correção não é se chicotear, mas sim se responsabilizar e mudar a rota. É um exercício diário de humildade’’, pontua.
*Vanessa Kopersz é jornalista.
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