O problema não é a falta de conhecimento científico. É a distância entre o que já sabemos e o que efetivamente fazemos por essas crianças
Paulo Eduardo de Araujo Imamura* Publicado em 29/12/2025, às 06h00

Os Transtornos do Espectro Alcoólico Fetal (TEAF) afetam milhares de crianças no Brasil, resultando em dificuldades que poderiam ser evitadas com a abstinência de álcool durante a gravidez, mas continuam a ser pouco reconhecidos e tratados inadequadamente.
A Síndrome Alcoólica Fetal (SAF), a forma mais grave do TEAF, é uma das principais causas evitáveis de problemas no desenvolvimento infantil, levando a consequências como fracasso escolar e exclusão social devido à falta de acompanhamento adequado.
O Sistema Único de Saúde (SUS) deve priorizar o cuidado dessas crianças, promovendo a capacitação de profissionais e a integração entre saúde e educação, além de garantir um acompanhamento contínuo e estruturado para minimizar os impactos ao longo da vida.
Os Transtornos do Espectro Alcoólico Fetal - TEAF não são raros, não são novos ou invisíveis. Eles apenas continuam sendo pouco reconhecidos. No Brasil, milhares de crianças vivem com dificuldades que poderiam ter sido evitadas, se sua mãe não tivesse consumido bebida alcoólica na gravidez.
E mesmo reconhecidos, as crianças com TEAF poderiam ser muito melhor acompanhadas. O problema não é a falta de conhecimento científico. O problema é a distância entre o que já sabemos e o que efetivamente fazemos.
A Síndrome Alcoólica Fetal - SAF é a forma mais grave dos Transtornos do Espectro Alcoólico Fetal e representa uma das principais causas evitáveis de alterações no desenvolvimento infantil. Ignorá-las significa aceitar trajetórias marcadas por fracasso escolar, exclusão social e sofrimento que poderiam ser, em grande parte, reduzidos com cuidado adequado.
Quanto ao álcool, não existe dose segura e os TEAF não têm cura. A única maneira de prevení-los é a ABSTINÊNCIA TOTAL DE ÁLCOOL NA GRAVIDEZ.
O erro não está apenas no diagnóstico tardio, mas na falta de seguimento: é comum que crianças com TEAF não apresentem sinais claros ao nascer. Muitas chegam à escola sem diagnóstico, rotuladas como desatentas, mal comportadas ou “difíceis”. O sistema falha quando espera que o problema se resolva sozinho ou quando atribui exclusivamente à família ou à escola dificuldades que têm base neurobiológica.
Essas crianças não são totalmente incapazes. Elas aprendem de outra forma. Precisam de acompanhamento contínuo, previsível e estruturado. Quando isso não ocorre, o impacto se acumula ao longo da vida.
A Atenção Primária precisa assumir o protagonismo: o Sistema Único de Saúde-SUS tem este ponto forte que precisa ser valorizado, a Atenção Primária à Saúde. Unidades Básicas de Saúde-UBSs e equipes da Estratégia Saúde da Família acompanham crianças desde o início da vida. Esse acompanhamento não pode se limitar ao controle de peso, estatura e vacinas.
Avaliar desenvolvimento, linguagem, comportamento e aprendizagem deve ser rotina.
Pediatras, médicos de família, enfermeiros e agentes comunitários precisam ser capacitados para poder identificar os sinais de alerta precocemente. O que muitas vezes falta é capacitação específica e fluxos claros de encaminhamento.
Suspeitar de TEAF não é acusar, não é julgar, não é punir. É cuidar.
Onde essas crianças devem ser acompanhadas no SUS: quando a suspeita surge, o sistema precisa responder. E o SUS dispõe de serviços capazes de acompanhar essas crianças:
O problema não é a inexistência desses serviços, mas o acesso desigual, a demora nos encaminhamentos e a fragmentação do cuidado. Criança com TEAF não pode ser avaliada de serviço em serviço, sem coordenação.
Acompanhamento das crianças com TEAF não é evento isolado, é um processo: não existe intervenção única para os TEAF. O cuidado é contínuo e precisa se adaptar às fases da infância. Neurologista, Cirurgião pediatra, Fonoaudiologia, Terapia ocupacional, Psicologia, Fisioterapia e seguimento médico não são luxo. São necessidade.
Quando essas intervenções começam cedo, reduzem dificuldades secundárias, melhoram o desempenho escolar e protegem a saúde mental da criança. Quando chegam tarde, o custo humano e social é muito maior.
A família não pode ser deixada sozinha: outro erro frequente é tratar apenas a criança e ignorar a família. Pais e cuidadores convivem com exaustão, frustração e culpa. Sem orientação adequada, muitos desistem do seguimento ou perdem a confiança no sistema.
A abordagem precisa ser clara: sem julgamento, sem moralismo e sem culpabilização. O foco deve ser proteção da criança, fortalecimento dos vínculos familiares e construção de estratégias possíveis dentro da realidade de cada família.
Saúde e educação precisam parar de trabalhar isolados: grande parte do sofrimento dessas crianças acontece na escola. A falta de diálogo entre saúde e educação gera rótulos, punições inadequadas e exclusão.
Crianças com TEAF não são desinteressadas nem indisciplinadas. Elas precisam de adaptação pedagógica, previsibilidade e compreensão. Relatórios de saúde, orientação à escola e comunicação contínua fazem parte do cuidado e precisam ser assumidos como responsabilidade do sistema.
Prevenção não pode ser discurso vazio: é impossível falar de TEAF sem falar de prevenção. Nenhuma quantidade de álcool é segura durante a gestação. Essa mensagem precisa ser clara, repetida e sustentada por políticas públicas, campanhas permanentes e orientação no pré-natal.
Mas prevenção não substitui cuidado. As crianças que já nasceram com TEAF existem, estão nas escolas, nas UBS e nas famílias brasileiras. Ignorá-las é uma forma silenciosa de exclusão.
Um posicionamento necessário: o SUS tem estrutura, profissionais e capilaridade para cuidar melhor dessas crianças. O que falta é reconhecer os TEAF como prioridade em desenvolvimento infantil, qualificar equipes e integrar a rede.
Não se trata de criar novos serviços, mas de usar melhor os que já existem. Não se trata de apontar culpados, mas de assumir responsabilidades.
Cuidar adequadamente de crianças com TEAF não é favor. É dever do Estado, compromisso ético dos profissionais e um investimento concreto no futuro do país.
* Paulo Eduardo de Araujo Imamura é médico pediatra-neonatologista e membro do Núcleo de Estudos sobre os Transtornos do Espectro Alcoólico Fetal da Sociedade de Pediatria de São Paulo
Quer incentivar este jornalismo sério e independente? Você pode patrocinar uma coluna ou o site como um todo. Entre em contato com o site clicando aqui.