Mariana Kotscho
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A intimidade do bebê

Reflexões sobre a privacidade da vida íntima do bebê e a importância de manter certos momentos e a intimidade do bebê em família.

Eva Wongtschowski* Publicado em 31/08/2026, às 06h00

Os pais gostam de contar as conquistas dos filhos, mas algumas facetas talvez devam ser mantidas dentro de nossas quatro paredes. - Foto: Canva Pro
Os pais gostam de contar as conquistas dos filhos, mas algumas facetas talvez devam ser mantidas dentro de nossas quatro paredes. - Foto: Canva Pro

Durante a gravidez, a mulher compartilha seu corpo com o bebê, oferecendo nutrientes e calor, o que estabelece uma conexão íntima que se estende após o nascimento através do aleitamento e do contato físico.

Essa relação inicial com a mãe e outros adultos é fundamental para o desenvolvimento da autoestima e da consciência de si do bebê, moldando sua subjetividade e intimidade.

O psicanalista Lucas Chinarelli sugere que a vida íntima do bebê deve ser preservada da exposição pública, enfatizando a importância da privacidade nas experiências infantis, o que levanta questões sobre o que deve ser compartilhado pelos pais.

Resumo gerado por IA

Nada mais íntimo do que compartilhar o mesmo corpo. É o que acontece durante a gravidez, momento em que o corpo da mulher dispensa ao bebê, em formação no seu útero, nutrientes, calor, estabilidade, ritmos, espaço, o som da sua voz. Ao nascer, agora no colo, o bebê recebe leite materno (quando possível) que o nutre, defende sua saúde; recebe calor, estabilidade, ritmos, palavras, contato físico. A mãe se mantém garantindo alimento para o corpo e a alma do bebê, a inspiração e o desejo para que se mantenha vivo e cresça. Essa intimidade corporal vem acompanhada de múltiplos afetos que se alternam e permeiam o laço que se estabelece entre mãe e bebê.

Quem acompanha a mãe nesse trabalho, em especial seu companheiro, ao emprestar seu corpo, partilha também colo, calor, ritmo, tato, palavras enriquecendo o universo afetivo do bebê.

O contato íntimo, primeiro com a mãe, somado à experiência com outros adultos, cria a intimidade do bebê consigo mesmo. Isto é, o contato e a relação com o adulto cuidador vai estabelecendo e desenvolvendo o mundo interno do bebê, a consciência de si mesmo, da sua própria existência. Habita a mãe, habita com a mãe, e devagar habita-se a si mesmo. Cria sua subjetividade, naquilo onde se reconhece como si mesmo e até no que não conhece; as surpresas que o “si mesmo” trazem como os sonhos e enganos.

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O corpo próprio é construído tendo como referência o corpo do adulto e seu olhar e cuidados sobre o corpo do bebê: é assim que a intimidade e a familiaridade com o corpo se instituem.

A autoestima, o cuidado consigo mesmo, a confiança se estabelecem a partir das primeiras relações que fundam a vida. A capacidade de ficar só, de aprender, de suportar falhas e faltas, sustentar o encontro consigo mesmo, são desdobramentos da nossa dependência inicial. Lacan, psicanalista francês, inventou o termo “extimidade” para indicar que os limites entre o que está fora e dentro de nós é borrado, é uma espécie de exterioridade íntima. A palavra íntimo, do latim “intimus” é o superlativo do prefixo latino “in” que significa dentro; o mais dentro, o contato com o interior de si mesmo, ou do outro. O íntimo, de cada um de nós, é constituído com que vem de fora, como resultado dos laços estabelecidos.

Sim, o bebê vai adquirindo devagar sua própria intimidade. Nós nos surpreendemos com um vídeo de Lucas Chinarelli, do “era uma vez um papai”, falando, justamente, sobre a vida íntima da criança pequena. É surpreendente por conta do tema abordado, mas também por ele ser um homem, pai, fazendo vídeos sobre bebês! Vejamos o que ele propõe. Alguém pergunta para você, adulto, com quem e onde você dorme, se durante a noite você vai ao banheiro ou se você sofre de gases? Pois bem, ele defende que como a sua, a vida a do bebê não deve se tornar pública. É melhor que acontecimentos íntimos não se transformem em matéria para entretenimento social, ou alimentar a curiosidade de quem quer que seja. A infância, segundo ele, não é um território público, e sua sugestão é de que a vida íntima do bebê não seja exposta. Ele dá ênfase à privacidade dos movimentos e manifestações do corpo do bebê (sono, higiene, alimentação). Mas se estendêssemos a questão a outros aspectos da vida? Os pais gostam, e é legitimo, de contar as conquistas dos filhos, o quanto e como estão se desenvolvendo e adquirindo novas habilidades. Mas há facetas que talvez possam ser mantidas dentro de nossas quatro paredes: o choro, a irritação, o mal humor, a eventual birra…um tema para pensar.

* Eva Wongtschowski é psicanalista, membro do Depto de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae. Participa das Rodas de Conversa do Gamp21 e realiza atendimento clínico.

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