A tecnologia traz benefícios, mas também riscos. Descubra como proteger seus filhos de perigos no ambiente digital
Karina Queiroz* e Marina Helou** Publicado em 10/03/2026, às 06h00

A crescente preocupação com a segurança de crianças e adolescentes na internet destaca a necessidade de um diálogo aberto entre pais e filhos, além de políticas públicas eficazes para proteger os jovens dos riscos digitais.
Um relatório revela que 44% das crianças de até dois anos das classes A e B já utilizam celulares, evidenciando a urgência de abordar os perigos associados ao uso de redes sociais e plataformas digitais.
Medidas como estabelecer regras claras, participar ativamente do universo digital das crianças e exigir regulamentações adequadas são essenciais para criar um ambiente online mais seguro e saudável para os jovens.
Como saber o que o seu filho está acessando na internet? Com quem ele está falando ou quais perigos ele está correndo? Essas são algumas das perguntas que rondam a cabeça de pais, mães e educadores(as) e que não têm respostas simples. A boa notícia é que pelo menos o assunto está sendo discutido, o que já é um passo importante. Embora seja inquestionável que a tecnologia tem um potencial positivo na formação de crianças e adolescentes, ela também pode apresentar armadilhas que colocam suas vidas em perigo, o que é ocasionado, muitas vezes, pelo contato com desconhecidos e pessoas mal intencionadas.
E é nesse ponto que precisamos estar atentos e unidos para lidar com uma avalanche de estratégias persuasivas e sedutoras que as redes sociais e as plataformas digitais nos oferecem diariamente. Além da criação de políticas públicas assertivas para proteção do direito de crianças e adolescentes no ambiente digital, é também preciso o engajamento dos responsáveis pelas crianças e adolescentes. O uso prolongado de redes sociais e plataformas digitais é uma realidade, e a exposição a riscos no ambiente digital tem recortes etários e socioeconômicos. Segundo relatório TIC Kids Online de 2025, 44% das crianças de até dois anos, das classes A e B, já usam celular, uma prática também observada em outros países.
As plataformas digitais como redes sociais, aplicativos e jogos são guiadas pela lógica mercadológica da economia da atenção - produtos e serviços possuem um conjunto de mecanismos algorítmicos e estratégias de design que estimulam a nossa permanência em seus produtos e exploram reações emocionais. Tudo para alcançar dois resultados: engajamento e lucro. Se essas engrenagens afetam os adultos, imagine com crianças e adolescentes. Eles são alvos ainda mais vulneráveis a conteúdos nocivos, desinformação, manipulações e interações inseguras.
Outros riscos também se apresentam, como o impacto negativo no desenvolvimento da capacidade de concentração e fortalecimento de habilidades psicossociais próprias dessa fase. Sem falar dos perigos, com o excesso de exposição em chats com áudio e vídeo, de grupos com desconhecidos e jogos que conectam crianças a adultos (a maioria dos jogadores online é composta por adultos com média de idade em torno de 35 anos).
Diante desse cenário complexo, alguns caminhos podem ajudar pais e mães, além de outros responsáveis por crianças e adolescentes, a lidar com o uso de telas e redes sociais. Pensando em garantir um ambiente digital mais seguro a crianças e adolescentes, estes passos são fundamentais:
A proteção começa pela conversa clara e constante. Crianças e adolescentes precisam se sentir seguros para relatar situações, tirar dúvidas e pedir ajuda. O medo de punição afasta, enquanto a escuta aproxima. O diálogo aberto também permite entender o que elas consomem nas redes e onde estão circulando. Sempre tendo em mente que aquilo que a criança não entende que é risco não será reportado a você - por isso a importância do acompanhamento constante.
Vale combinar horários, tipos de conteúdo permitidos e locais de uso dos aparelhos com acesso à internet, preferencialmente em áreas comuns da casa. Importante lembrar: nenhuma plataforma é totalmente segura. Todas oferecem possibilidades de interação com desconhecidos.
A supervisão é parte do cuidado. Assim como acompanhamos atividades presenciais, é fundamental acompanhar jogos, perfis, influenciadores e mecanismos de interação. Isso fortalece vínculos, reduz riscos e permite intervenções adequadas quando necessário.
Nada na internet aparece por acaso. Por isso, é importante explicar como os aplicativos funcionam e que os algoritmos são programados para prender a atenção dos usuários. Se você é um adulto responsável por uma criança e adolescente e não sabe essas informações, você deve procurá-las. Ajudar as crianças e adolescentes a reconhecer manipulações e o poder de narrativa dos influenciadores é fundamental para que criem senso crítico para identificar conteúdos falsos ou incompletos e, em especial, identificar sinais de risco.
Um ambiente seguro depende de vínculos de confiança presenciais. Incentivar brincadeiras, convivência familiar, atividades físicas e momentos desconectados ajuda a reduzir a dependência das telas e fortalece vínculos de proteção emocional, essenciais para qualquer processo formativo.
A regulamentação da Lei nº 15.211/2025, conhecida como ECA Digital, é indispensável para que as plataformas digitais e as big techs assumam sua responsabilidade na promoção de um ambiente mais seguro para crianças e adolescentes. Cobrar do poder público medidas como verificação etária, canais de denúncia efetivos e a rápida remoção de conteúdos nocivos e violentos das plataformas é de fundamental importância, seja para garantir a efetividade da legislação federal, seja para compartilhar custos e responsabilidades com aqueles que lucram no ambiente digital. Todos esses pontos estão ao alcance de pais e educadores que, impactados por tantas notícias que aterrorizam o noticiário, querem dar passos concretos na proteção de suas crianças. Importante reforçar que, como exposto no último item, embora medidas domésticas sejam importantes, elas não dispensam políticas públicas capazes de enfrentar o problema. Esse é um tema importante para a atual e próximas gerações.
Proteger crianças e adolescentes no ambiente digital é um assunto urgente. Famílias, Estado, plataformas, empresas e sociedade civil têm papéis complementares, mas igualmente relevantes. Diálogo, informação acessível e políticas públicas são indispensáveis para transformar o ambiente digital em um espaço mais seguro, saudável e acolhedor para todas nossas crianças e adolescentes.
*Karina Queiroz é profissional de tecnologia e de Cyber Segurança, formada na área de Telecomunicações e Engenharia de Redes e Proteção à Criança. Em Cyber segurança liderou a Segurança Cibernética em mais de 23 países, no papel de Cyber Officer, incluindo América Latina e África Subsaariana. Fundadora do Instituto Teckids e atualmente cursa Neurociência na USP.
**Marina Helou está no seu segundo mandato como deputada estadual em São Paulo pela Rede Sustentabilidade. Tem como pautas prioritárias a infância, meio ambiente e desenvolvimento sustentável e direitos humanos, além da vida segura de mulheres e meninas. É mãe do Martin e da Lara, entusiasta da política baseada no diálogo, transparência e participação, além de ser autora e co-autora de mais de 20 Leis no estado de São Paulo - entre elas a restrição do uso de celulares nas escolas públicas de São Paulo.
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