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Abandono afetivo: quando um pai ama um filho, mas não consegue estar emocionalmente presente

Neste Dia dos Pais, vamos refletir sobre as causas do abandono afetivo e suas consequências na vida e desenvolvimento das crianças

Amanda Amude* Publicado em 09/08/2026, às 06h00

A maneira como aprendemos a amar começa nas primeiras relações da vida. - Foto: Canva Pro
A maneira como aprendemos a amar começa nas primeiras relações da vida. - Foto: Canva Pro

O abandono afetivo na infância ocorre quando as necessidades emocionais de uma criança são negligenciadas, mesmo que o pai esteja fisicamente presente, resultando em consequências duradouras para o desenvolvimento emocional da criança.

A formação emocional dos pais é influenciada por suas próprias experiências e crenças, muitas vezes levando homens a se sentirem incapazes de expressar vulnerabilidade e afeto, o que contribui para o abandono afetivo.

Para combater esse ciclo, é essencial que os pais busquem autoconhecimento e aprendam novas formas de se relacionar, reconhecendo que a transformação pessoal é fundamental para oferecer o apoio emocional que os filhos necessitam.

Resumo gerado por IA

Um pai precisa sair de casa para abandonar um filho? A resposta é não.

O abandono afetivo na infância acontece quando as necessidades emocionais de cuidado, vínculo, proteção e validação são negligenciadas de forma persistente por quem deveria acolhê-las. Isso significa que um pai pode estar presente em todas as fotos de família e, ainda assim, estar ausente da relação.

Muito já se fala sobre as diferentes formas de abandono afetivo e sobre suas consequências ao longo da vida. Mas, neste Dia dos Pais, proponho inverter a pergunta. Em vez de questionarmos "O que acontece com uma criança abandonada?", talvez devêssemos perguntar: o que acontece com um homem para que ele abandone afetivamente um filho que ama?

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A maioria dos pais não acorda pensando: "Hoje vou machucar meu filho." O que acontece é que muitos despertam emocionalmente indisponíveis. E isso não surge do nada.

A maneira como aprendemos a amar começa nas primeiras relações da vida. Assim como aprendemos nossa língua materna convivendo com quem cuidou de nós, também aprendemos como expressar afeto, lidar com conflitos, oferecer proteção e construir vínculos. Essas experiências não determinam nosso destino, mas exercem profunda influência sobre a forma como nos relacionamos.

Durante gerações, muitos homens foram educados para acreditar que sentir era sinal de fraqueza. Aprenderam que um bom pai era aquele que provia, suportava, resolvia problemas e seguia em frente. Foram ensinados a sustentar financeiramente uma família, mas nem sempre a sustentar emocionalmente uma relação.

Isso não justifica o abandono afetivo, mas ajuda a compreendê-lo. Explicar não é absolver. Compreender a origem de um comportamento não diminui a dor que ele provoca, mas permite interromper sua repetição.

Na clínica, ao longo de 19 anos, aprendi que boa vontade, sozinha, não sustenta uma paternidade saudável. É preciso conhecimento, autoconhecimento e coragem para olhar para a própria história. Mas entender a própria história é apenas o começo, porque compreensão sem ação gera consciência, mas não necessariamente transformação.

Transformar a própria história exige decisões diferentes, aprender novas formas de expressar amor, de se comunicar, de lidar com os conflitos, de regular as próprias emoções e de estar verdadeiramente presente na relação com os filhos.

Ler sobre paternidade, ouvir palestras, fazer psicoterapia e desenvolver inteligência emocional não são demonstrações de fraqueza, são atos de responsabilidade. Porque os filhos aprendem a se relacionar observando como seus pais se relacionam consigo mesmos, com o outro e com a vida. É por isso, que transformar a si mesmo é, também, uma forma de cuidar dos filhos.

O abandono afetivo raramente inicia ali na relação com o filho, geralmente começa quando o homem abandona partes importantes de si mesmo, abandona a própria dor, a vulnerabilidade, o medo e emoções que nunca encontrou espaço para sentir. E quem vive distante de si, muitas vezes sem perceber, também passa a viver distante de quem mais ama.

Neste Dia dos Pais, talvez a pergunta mais importante não seja: "Eu amo meu filho?" ou "Eu daria a vida por ele?". Mas sim: “O que estou fazendo, na prática, para ser o pai que ele precisa?”

Porque amor sem presença emocional pode ser vivido por uma criança como abandono. E a maior herança que um pai pode deixar não é aquilo que construiu para o filho, mas aquilo que teve coragem de transformar dentro de si antes de entregá-lo ao mundo.

* Amanda Amude é psicóloga clínica.

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