A sociedade precisa aprender a lidar com a longevidade e a morte, transformando a visão sobre os anos que ganhamos em uma conquista
Monalisa Barros* Publicado em 01/07/2026, às 06h00

O envelhecimento traz a inevitável perda de entes queridos, levando a reflexões sobre a vida e a morte, e a necessidade de lidar com essas ausências de forma mais consciente e acolhedora.
Embora a expectativa de vida no Brasil tenha aumentado significativamente, a sociedade ainda não se preparou adequadamente para oferecer qualidade de vida aos idosos, que frequentemente são vistos como um ônus econômico.
É essencial promover uma educação sobre a morte e o envelhecimento, além de incentivar conversas abertas sobre o tema, registrar vontades e fortalecer laços afetivos para enfrentar a solidão e o luto de maneira mais saudável.
Ultimamente, tenho percebido algo que antes passava despercebido. Meu marido chega em casa e o semblante já vem carregado. Outro amigo do banco onde trabalhou por tantos anos se foi. A notícia chega, ele se senta, o olhar perde o foco por um instante — e eu sei que está revisitando os pequenos detalhes da convivência, o café compartilhado, as histórias que só aquela turma conhecia.
Envelhecer é isto: perder gente. Gente que amamos, gente que nos acompanhou, gente que carrega versões de nós que já não existem mais. A velhice é o palco onde a morte se apresenta com mais frequência. Não como tragédia — como companheira de cena. A cada ano que passa, o coro de ausências fica maior.
E isso me leva a pensar: estamos preparados para viver tanto?
A expectativa de vida no Brasil é de 73 anos. Muitos vivem mais — 80, 85, 90 anos. Isso é uma vitória extraordinária da civilização. No ano de 1900, a expectativa de vida mal chegava aos 34 anos. Hoje, beira os 76. A ciência nos deu décadas extras de existência. Mas alguém nos ensinou o que fazer com elas?
A sociedade, que comemora os avanços da medicina, não sabe o que fazer com as pessoas que vivem mais. O idoso é tratado como ônus fiscal, como ameaça à Previdência, como gasto na saúde pública. As manchetes gritam sobre o rombo dos sistemas de pensão, sobre o custo dos aposentados. Raramente celebram o fato de que estamos vivendo mais. Raramente perguntam: como dar qualidade a esses anos extras?
Perdi minha mãe. Perdi meu primo. Perdi amigos queridos. E a cada despedida, percebo que o luto não é apenas sobre a pessoa que se foi — é sobre o que ela carregava de mim que também se despedaça. São pedaços de memória que vão com ela. Histórias que só nós duas conhecíamos. Cheiros, vozes, gestos que ninguém mais no mundo testemunhou.
A morte não é um erro do sistema. Não é uma falha a ser corrigida pela ciência. A morte é o desfecho natural do desenvolvimento humano — um estágio para o qual fomos empurrados sem preparação, como alunos que chegam à prova final sem ter visto a matéria.
Precisamos de uma educação para a morte. Precisamos aprender a envelhecer, a nos despedir, a deixar ir. Precisamos de espaços sociais que acolham o idoso não como peso, mas como testemunha viva da nossa história coletiva. Precisamos parar de tratar a longevidade como ameaça e começar a tratá-la como o que ela realmente é: uma conquista da humanidade.
O desafio do nosso tempo não é viver mais. É saber o que fazer com o tempo que ganhamos. É adicionar vida aos anos, e não apenas anos à vida.
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* Monalisa Nascimento dos Santos Barros é psicóloga, Professora Titular dos cursos de Medicina e de Psicologia da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia e Docente do corpo permanente dos programas de Mestrado Profissional de Psicologia da Saúde IMS CAT/UFBA e de Saúde da Família FIOCRUZ/UFBA. Também é mestre pela University of Exeter, doutora em Estudos da Subjetividade pela Universidade Federal Fluminense e realizou pós-doutorado em Saúde Mental Perinatal pela Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra em Portugal.
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