A falta de apoio e as mudanças sociais dificultam o cuidado adequado aos idosos; como as famílias brasileiras podem se preparar?
Michele Klotz da Rosa* Publicado em 29/12/2025, às 06h00

O Brasil enfrenta um rápido envelhecimento populacional, com projeções do IBGE indicando que até 2060, mais de 25% da população será idosa, o que traz desafios significativos para o apoio familiar e social aos idosos.
A heterogeneidade no envelhecimento, influenciada por fatores como acesso a saúde e condições socioeconômicas, resulta em diferentes experiências de vida, com muitos idosos enfrentando doenças e necessitando de cuidados, enquanto outros mantêm autonomia.
As redes de apoio familiar estão diminuindo devido a mudanças culturais e demográficas, o que, aliado ao aumento da violência contra idosos, evidencia a necessidade de conscientização sobre o cuidado adequado e o respeito à autonomia dos idosos.
O Brasil, antes conhecido como o “país do futuro”, está envelhecendo e muito rapidamente. Com a queda das taxas de natalidade e o aumento da expectativa de vida, nossa pirâmide demográfica aos poucos assume a forma de um barril. Segundo o IBGE, estima-se que, até 2060, mais de 25% da população brasileira será idosa, com uma expectativa ao nascer (que em 1950 era de apenas 45 anos) de 83 anos. Nas precisas palavras do demógrafo José Eustáquio Diniz Alves, estamos vivendo um verdadeiro “tsunami prateado”. Apesar desse aumento da expectativa de vida ser uma ótima notícia, também tem gerado inúmeras repercussões. Hoje falaremos sobre as repercussões no âmbito familiar. Será que as nossas famílias estão preparadas para apoiar seus membros idosos nos dias de hoje? E qual seria a melhor forma de apoio ou cuidado?
Para responder a essas perguntas, será fundamental entendermos antes de quais pessoas idosas estamos falando. Sabemos que o processo de envelhecimento é bastante heterogêneo, variando não só de acordo com a nossa constituição biológica, mas também em função do ambiente onde vivemos ao longo da vida. Assim, não será difícil perceber que o perfil de envelhecimento de alguém que viveu com acesso a cuidados de saúde, alimentação de qualidade, educação, moradia e afeto será muito diferente do perfil de alguém que passou toda a sua vida em situação de vulnerabilidade social, com dificuldade de acesso a saúde, alimentação insuficiente ou de má qualidade, baixa escolaridade, em um contexto violento. Podemos concluir disto que, apesar do aumento da expectativa de vida ser uma ótima notícia, viver mais nem sempre significa envelhecer bem. As iniquidades existem e afetam os possíveis desfechos do envelhecimento: alguns de nós experimentarão a senescência (vivenciando apenas as mudanças que tipicamente acompanham a passagem do tempo), enquanto outros conhecerão a senilidade (convivendo com doenças e as mudanças típicas do envelhecer).
Dados de 2020 da Organização Mundial da Saúde sobre o Brasil dão conta de que a expectativa de vida ao nascer em 2019 para homens e mulheres era de 75,9 anos, enquanto a expectativa de vida “livre de doenças” era de apenas 65,4 anos. Infere-se daí que, seja pela loteria genética, seja em função do ambiente onde se viveu, nos dez últimos anos de vida muitas pessoas idosas brasileiras conviverão com problemas de saúde que demandarão algum tipo de acompanhamento, apoio ou cuidado.
Para pessoas com capacidade funcional preservada, ou seja, que ainda conseguem se autodeterminar (autonomia) e viver de forma independente (sem a necessidade de apoio externo para realizar o que planejaram para si mesmas), o acompanhamento por profissionais de saúde (médicos, fisioterapeutas, entre outros), junto com o apoio da família e de outras pessoas de sua convivência, será suficiente para contribuir para um envelhecimento saudável. Já para aquelas com capacidade funcional reduzida, um cuidado mais próximo e frequente será imperativo.
O problema é que, além de nem todas as pessoas idosas terem acesso ao acompanhamento por profissionais de saúde, muitas delas também não terão o apoio ou o cuidado de que necessitam dentro de suas redes familiares e comunitárias. Isto porque as redes de apoio tendem a se reduzir substancialmente ao longo da vida. O desengajamento do trabalho (onde se encontra boa parte das redes de um adulto típico), a morte, ou mesmo deslocamentos geográficos de familiares costumam reduzir a rede de apoio e cuidado disponível para a pessoa idosa.
Além disso, diversas mudanças culturais e no perfil sociodemográfico das famílias têm contribuído para essa dificuldade de apoio e cuidado dos membros mais velhos: a redução do número de filhos por família, a maior inserção da mulher (a quem culturalmente se imputa os papéis de cuidado na família) no mercado de trabalho, uma valorização do individualismo, além do aumento dos conflitos intergeracionais. Em razão destas mudanças, temos hoje uma diversidade de estruturas familiares, por vezes com várias gerações convivendo sob o mesmo teto, diferentes status conjugais e parentais, orientação sexual, tipos de vínculos (biológicos ou afetivos), o que se mostra bem diferente daquela família nuclear tradicional de décadas atrás. Nesse novo contexto, o apoio e o cuidado ao familiar idoso tornaram-se um desafio para muitas famílias.
Prova disso é que a qualidade das relações dentro das famílias tem dado sinais de deterioração, com altos índices de violência contra pessoas idosas, compreendendo situações de exposição de risco à saúde, maus-tratos, abandono, insubsistência material, negligência, abuso financeiro, entre outros. Dados da Ouvidoria de Direitos Humanos do governo federal dão conta de que mais de 80% dos abusadores são familiares que integram a rede de apoio social da pessoa idosa.
Neste ponto, você pode estar lembrando de casos em que a família é bastante presente e ativa na vida de uma pessoa idosa que você conhece, com familiares que assumem toda a gestão da vida do parente mais velho. Estes casos também precisam ser avaliados com bastante cuidado, pois não é raro encontrarmos pessoas idosas que ainda teriam plenas condições de viverem com autonomia e independência, sendo invadidas por cuidados excessivos que, não raro, a “infantilizam”. Estas situações são um tipo abuso psicológico (uma violência), nem sempre reconhecido pela família e pela vítima.
Dito isso, chegou a hora de retomarmos aquelas perguntas iniciais: será que as nossas famílias estão preparadas para apoiar seus membros idosos nos dias de hoje? E qual seria a melhor forma de apoio? Como já deu para perceber, nem todas as famílias estão preparadas para apoiar de forma adequada seus membros mais velhos e a ideia deste texto é justamente conscientizar sobre o que é considerado um apoio ou cuidado adequado.
Para começar, um apoio ou cuidado adequado é aquele que existe (já que por vezes a pessoa idosa nem sequer tem alguém por perto), é percebido e buscado como fonte de apoio pela pessoa idosa (porque às vezes a pessoa idosa, ou não percebe que existe, ou não busca quem está por perto por receio de sobrecarregar a família). Além disso, um apoio ou cuidado adequado é aquele que interage com a pessoa idosa atendendo as necessidades dela e respeitando a sua autonomia (capacidade de autodeterminação) e independência (capacidade de agir sozinha para realizar o que autodeterminou para si mesma).
Assim, para aquelas pessoas com capacidade funcional preservada (autônomas e independentes), normalmente o apoio adequado será apenas deixar claro que, se necessário, a pessoa idosa pode contar com você, ficando à disposição. Na medida em que a capacidade funcional decline, aí sim um envolvimento e cuidado mais próximo será o mais adequado.
*Michele Klotz da Rosa é Psicóloga (PUC-RS), Mestre em Gerontologia Biomédica (PUC-RS), Doutoranda em Psicologia (PUC-RS), Especialista na área Cognitivo-Comportamental (PUC-RS), com aperfeiçoamento em Terapia do Esquema. Palestrante e professora convidada nas áreas do desenvolvimento humano e envelhecimento, é membro da Comissão de Direitos da Pessoa Idosa da OAB/SP e da Associação Brasileira de Psicogerontologia. Psicoterapeuta integrante do Núcleo Longevidade, do CEFI – Centro de Estudos da Família e do Indivíduo. Na área acadêmica, é colaboradora no Grupo de Pesquisa Avaliação e Intervenção no Ciclo Vital, do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da PUC-RS e Parecerista Ad Hoc da Pan American Journal of Aging Research. Tem entre seus focos de pesquisa os processos psicossociais ligados ao envelhecimento humano.
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