Mariana Kotscho
Busca
» TERCEIRA IDADE

Das Unheimliche e o carro da funerária

A instalação de caixas de som em protesto revela o desconforto dos moradores com a presença de idosos e carros de funerária na região

Maria Paula Teperino* Publicado em 04/06/2026, às 06h00

Vivemos sustentando a fantasia de que não adoeceremos, não envelheceremos e, sobretudo, não morreremos. - Foto: Canva Pro
Vivemos sustentando a fantasia de que não adoeceremos, não envelheceremos e, sobretudo, não morreremos. - Foto: Canva Pro

Moradores da Lapa, em São Paulo, protestam contra instituições de longa permanência para idosos, alegando que sua presença desvaloriza os imóveis da região, apesar de os residentes serem em sua maioria acamados e sem mobilidade.

As queixas dos vizinhos incluem o incômodo causado por carros funerários, revelando um desconforto mais profundo relacionado à morte e ao envelhecimento, que os moradores tentam evitar ao se opor aos lares.

Os protestos incluem a instalação de caixas de som para perturbar os idosos, e a situação destaca a dificuldade da sociedade em lidar com a mortalidade e a vulnerabilidade, refletindo uma resistência a confrontar a própria finitude.

Resumo gerado por IA

Outro dia me deparei com uma matéria da Folha de S.Paulo, além de conteúdos em redes sociais, que relatavam a mobilização de moradores de um bairro de classe média alta na zona oeste de São Paulo, a Lapa, contra duas instituições de longa permanência para idosos. Segundo a reportagem, tais estabelecimentos possuem alvará regular de funcionamento, e seus residentes têm idades que variam entre 90 e 100 anos.

Trata-se, em sua maioria, de pessoas acamadas ou com severas limitações de mobilidade — ou seja, indivíduos que praticamente não circulam pelas ruas do bairro, permanecendo restritos ao ambiente interno dessas casas.

Diante desse cenário, surge a pergunta: o que, afinal, estaria incomodando tanto os moradores da região? A resposta aparece de maneira inquietante. Em protesto, alguns vizinhos passaram a instalar caixas de som em suas janelas, tocando música em volume altíssimo, com o objetivo explícito de perturbar o cotidiano dos idosos e forçar a remoção das instituições.

Veja também

Quando questionados pela reportagem sobre o motivo do incômodo, muitos alegaram que a presença desses lares provocaria a desvalorização de seus imóveis. Tal argumento, no entanto, causa certo estranhamento. À primeira vista, trata-se de casas comuns, muitas vezes com muros altos, que pouco interferem na estética do bairro. Além disso, uma das queixas mais frequentes em zonas estritamente residenciais costuma ser o barulho gerado por atividades comerciais — o que, nesse caso, ocorre de forma inversa: são os próprios moradores que produzem o ruído.

A razão mais profunda desse desconforto se revela quando um dos manifestantes, celular em mãos, filma a saída de um carro funerário de uma das instituições e afirma, em tom enfático: “somos obrigados a ver carros de funerária diariamente”. É nesse ponto que algo se evidencia: o incômodo não é propriamente com os idosos, mas com aquilo que eles representam.

A cena aponta para nossa velha e persistente dificuldade de lidar com a castração, no sentido psicanalítico. Vivemos sustentando a fantasia de que não adoeceremos, não envelheceremos e, sobretudo, não morreremos. Buscamos nos proteger de tudo aquilo que nos lembra nossa incompletude — embora sejamos, como nos recorda Lacan, sujeitos marcados pela falta, “seres para a morte”.

Freud dedicou-se a esse fenômeno em seu texto de 1919, Das Unheimliche. Traduzido como “estranho”, “inquietante” ou “infamiliar”, o conceito designa um sentimento peculiar: algo que, embora familiar, retorna sob a forma de estranheza, geralmente por ter sido recalcado. Trata-se da emergência daquilo que deveria permanecer oculto, mas insiste em reaparecer.

Assim, ao se depararem com o carro funerário, esses moradores não enfrentam apenas uma situação externa, mas o retorno de uma ideia profundamente recalcada: a morte. E essa experiência não se restringe ao envelhecimento extremo. A angústia diante da castração também se manifesta quando somos confrontados com corpos que desafiam ideais de completude — como ocorre, por exemplo, na relação social com pessoas com deficiência.

Falo sobre esse tema, e muitos outros, em meu livro que será lançado em agosto pela Editora Appris, “Não Desvie o Olhar – A invisibilização das pessoas com deficiência sob o ponto de vista da psicanálise”.

*Maria Paula Teperino é graduada em Psicologia e em Direito. Aprofundou sua formação no campo da psicanálise: é pós-graduada em Psicologia Clínica pela PUC-Rio e em Teoria Psicanalítica pela Universidade Veiga de Almeida (UVA/RJ), instituição onde também concluiu o Mestrado em Psicanálise, Saúde e Sociedade. Atualmente, integra o Fórum do Campo Lacaniano do Rio de Janeiro. Em agosto, Maria Paula lançará seu primeiro livro, Não Desvie o Olhar — A Invisibilização das Pessoas com Deficiência sob o Olhar da Psicanálise (resultado de sua dissertação de mestrado), no qual revisita histórias pessoais à luz da teoria psicanalítica. Mulher com deficiência física, Maria Paula traz à sua prática e às suas reflexões uma perspectiva singular sobre corpo, sujeito e sociedade.

Quer incentivar este jornalismo sério e independente? Você pode patrocinar uma coluna ou o site como um todo. Entre em contato com o site clicando aqui.