Pacientes de esclerose múltipla sem surtos visíveis ainda enfrentam dificuldades, como fadiga e lentidão, que precisam ser monitoradas regularmente
Dr. João Dib* Publicado em 11/09/2026, às 06h00

A esclerose múltipla apresenta um desafio crescente para os médicos, que agora se concentram na perda gradual de função em pacientes que não apresentam surtos, impactando a abordagem de tratamento e pesquisa na área.
Estudos recentes focam em três frentes terapêuticas: inibidores de BTK, anti-CD40L e terapia CAR-T, que visam controlar a inflamação e reprogramar o sistema imunológico, com resultados iniciais promissores em termos de redução de lesões.
No Brasil, a Associação Brasileira de Esclerose Múltipla estima cerca de 40 mil casos, destacando a necessidade de diagnóstico precoce e acesso a tratamentos adequados, além da importância de monitorar sintomas que não aparecem em exames de imagem.
A consulta que mais me ocupa o pensamento não é a do surto ocasionado pela esclerose múltipla. É quando o paciente entra andando, não teve crise nos últimos anos, a ressonância não mostra lesão nova, os exames estão em ordem. Mas ele conta que as pernas cansam antes de terminar o quarteirão, que demora mais para achar a palavra na reunião de trabalho. Nada na imagem explica essas situações.
Essa perda lenta e silenciosa de função, sem surto aparente, é hoje o principal desafio de quem trata esclerose múltipla. Foi ela que mudou a pergunta feita nos consultórios e nos centros de pesquisa. Durante décadas, o objetivo foi controlar os surtos e reduzir a atividade inflamatória da doença. Esse objetivo foi alcançado em boa medida: os medicamentos disponíveis diminuem a frequência das crises, freiam o surgimento de novas lesões no cérebro e na medula e melhoram a qualidade de vida. A ambição agora é outra, e mais difícil. Retardar a progressão e preservar a função neurológica ao longo do tempo.
É esse desafio que orienta as pesquisas mais recentes, e explica por onde a ciência decidiu atacar. Na minha avaliação, três frentes concentram as apostas.
A primeira são os inibidores de BTK, medicamentos orais que agem sobre células do sistema imunológico envolvidas na inflamação. Alguns atravessam a barreira hematoencefálica e chegam ao sistema nervoso central, onde podem agir diretamente na inflamação do cérebro e da medula. Essa característica interessa muito para as formas progressivas da doença, que ainda têm poucas opções de tratamento.
A segunda são os anti-CD40L, que procuram interromper a comunicação inadequada entre células do sistema imunológico. A lógica aqui é diferente da relacionada a outras terapias: em vez de eliminar essas células, o objetivo é reduzir sua ativação excessiva e controlar a resposta autoimune. Os estudos seguem em andamento, e os resultados iniciais já mostram redução de novas lesões na ressonância magnética, um indicador importante de atividade da doença.
A terceira é a terapia CAR-T, desenvolvida primeiro para alguns tipos de câncer e agora investigada em doenças autoimunes. Células de defesa do próprio paciente são modificadas em laboratório para reconhecer e eliminar as células ligadas ao processo da doença. A expectativa é uma reprogramação mais profunda do sistema imunológico, com potencial de mudar a evolução da esclerose múltipla.
Muitas dessas terapias continuam em fases de pesquisa clínica e precisam demonstrar, de forma consistente, eficácia e segurança em longo prazo antes de chegar à prática médica. Digo isso ao paciente na mesma consulta em que falo do que vem por aí, porque esperança sem prazo vira frustração.
No Brasil, a Associação Brasileira de Esclerose Múltipla (Abem) estima cerca de 40 mil pessoas convivendo com a doença. Uma revisão sistemática publicada em 2025 na revista Clinical Neurology and Neurosurgery chegou a uma prevalência agrupada de 14,5 casos por 100 mil habitantes, com variação regional entre 4,5 e 30,7 por 100 mil. Vale olhar essa variação de perto. Custa acreditar que a doença seja seis vezes mais comum em uma região do que em outra. Onde falta neurologista e falta ressonância, falta diagnóstico. O mapa da prevalência brasileira desenha, em parte, o mapa do acesso.
Não existe tratamento único que sirva para todos. A esclerose múltipla se manifesta de maneiras muito diferentes, e a decisão terapêutica considera o tipo da doença, a idade, os sintomas, os exames, o perfil de segurança de cada medicamento e o que aquela pessoa pretende fazer da vida nos próximos anos. Duas pessoas com o mesmo diagnóstico podem precisar de caminhos opostos.
A esclerose múltipla é considerada uma doença rara, e ainda assim milhares de famílias lidam com ela todos os dias. Isso sustenta três coisas que dependem menos de laboratório e mais de organização: diagnóstico precoce, acesso ao tratamento adequado e informação de qualidade circulando.
Se você tem esclerose múltipla e não apresenta surtos há anos, leve uma questão para a próxima consulta: o acompanhamento não deve se limitar aos surtos. Como está sua capacidade de caminhar? Quanto tempo você leva para percorrer 25 metros? Sua mão ficou mais lenta para abotoar a camisa? A fadiga mudou de padrão?
Esses sinais também precisam ser avaliados e registrados ao longo do tempo, ano a ano. Afinal, algumas mudanças na doença podem não aparecer na ressonância magnética. E reconhecer e documentar essa evolução é fundamental para acompanhar a progressão da esclerose múltipla e orientar as decisões sobre o tratamento, inclusive diante de novas terapias que podem chegar nos próximos anos.
* Dr. João Dib é neurologista do Hospital Samaritano Barra, da Rede Américas, no Rio de Janeiro.
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