A pesquisa associa o período pós-menopausa à redução de massa cinzenta, depressão e alterações cognitivas que podem indicar demência
Vanessa Kopersz* Publicado em 24/02/2026, às 06h00

Pesquisadores da Universidade de Cambridge identificaram que a menopausa afeta regiões cerebrais ligadas à memória e à tomada de decisões, aumentando a vulnerabilidade a problemas como ansiedade e depressão, além de impactar o desempenho cognitivo das mulheres.
O estudo analisou dados de quase 125 mil mulheres, revelando que aquelas na pós-menopausa apresentaram maior incidência de sintomas emocionais e cognitivos, com a terapia de reposição hormonal não revertendo completamente as alterações estruturais no cérebro.
As especialistas destacam a importância de um acompanhamento integral da saúde feminina durante a menopausa, sugerindo que hábitos saudáveis e a prática de atividades físicas podem ajudar a mitigar os efeitos negativos no cérebro e na saúde mental das mulheres.
Os pesquisadores da Universidade de Cambridge, no Reino Unido, concluíram que as áreas do cérebro mais afetadas foram o hipocampo, que tem a função de formar novas memórias e armazenar as antigas; o córtex entorrinal, que também atua na memória e funciona como uma via de comunicação do hipocampo; e o córtex cingulado anterior, essencial para tomada de decisões, controle de impulsos, atenção e processamento da dor. Essas três regiões costumam ser afetadas também pelo mal de Alzheimer.
O levantamento também apurou que estas mulheres também surgem com maior incidência de sintomas como ansiedade, depressão, insônia e pior desempenho em testes cognitivos relacionados ao tempo de reação. O estudo também avaliou os efeitos da terapia de reposição hormonal (TRH) e concluiu que, embora ela possa atenuar alguns aspectos cognitivos, não parece reverter completamente as alterações estruturais observadas no cérebro.
Os pesquisadores analisaram dados de quase 125 mil mulheres participantes do UK Biobank, um dos maiores bancos de dados de saúde do mundo. As participantes foram divididas em três grupos:
Além de responderem a questionários sobre saúde mental, sono e bem-estar geral, parte das participantes realizou testes cognitivos, como memória e tempo de reação. Cerca de 11 mil mulheres também passaram por exames de ressonância magnética, permitindo a análise detalhada da estrutura cerebral.
Os dados mostraram que mulheres na pós-menopausa tinham maior probabilidade de procurar ajuda médica para ansiedade, nervosismo e depressão, além de pontuações mais elevadas em escalas de sintomas depressivos. Também foi maior o número de prescrições de antidepressivos neste grupo.
Problemas de sono também foram detectados: houve mais relatos de insônia, noites mal dormidas e sensação constante de fadiga. Entre as mulheres que faziam terapia hormonal, o cansaço foi ainda mais frequente, embora a duração do sono não tenha sido significativamente diferente.
Segundo os pesquisadores do Reino Unido, parte das mulheres que utilizaram a terapia já relatava sintomas emocionais (ansiedade, depressão, pânico) antes da menopausa, o que pode ter influenciado a decisão médica pela prescrição preventiva.
Além disso, na perimenopausa com a queda dos hormônios a arquitetura neuronal é prejudicada. "Há uma alteração nas células glia, que somam cerca de 80 a 100 bilhões em nossos cérebros," explica o Prof. Dr. André Malavasi, ginecologista.
As células glia são células não neuronais essenciais ao sistema nervoso pois sustentam, nutrem, protegem e isolam os neurônios, superando-os em número no cérebro. Os principais tipos incluem astrócitos (suporte/nutrição), oligodendrócitos e células de Schwann (mielinização), micróglias (defesa) e células ependimárias. Essa mudança na base das glias também favorece a depressão, que acaba predispondo a um quadro de possível demência no futuro.
No campo cognitivo, mulheres na pós-menopausa que não utilizavam terapia hormonal apresentaram tempos de reação mais lentos em comparação às mulheres na pré-menopausa. Já as que faziam reposição hormonal tiveram desempenho semelhante ao grupo mais jovem, sugerindo um possível efeito protetor parcial.
No entanto, os exames de imagem revelaram um dado mais preocupante: redução significativa do volume de massa cinzenta em regiões essenciais do cérebro, como:
Essas áreas também estão entre as mais afetadas em doenças neurodegenerativas, como o Alzheimer.
Para a médica e pesquisadora especialista em menopausa, Fabiane Berta, os achados ajudam a explicar por que as mulheres representam quase dois terços dos casos de demência no mundo. “A menopausa é um evento neuroendócrino profundo, pois o cérebro feminino é altamente dependente do estrogênio para manter funções como memória, foco e equilíbrio emocional. Quando esse hormônio cai de forma abrupta, o cérebro precisa se reorganizar e nem sempre isso acontece sem consequências,” afirma.
Segundo a especialista, a perda de massa cinzenta observada nessas regiões não significa, por si só, que a mulher desenvolverá Alzheimer, mas indica uma janela de maior vulnerabilidade neurológica. “Estamos falando de um período crítico da vida em que o cérebro passa por adaptações estruturais reais. Ignorar isso é negligenciar uma etapa decisiva da saúde feminina,” destaca.
O estudo também avaliou o impacto da terapia hormonal e concluiu que, no recorte analisado, o uso não impediu a perda de massa cinzenta. Para Fabiane, esse dado precisa ser interpretado com cautela. “A ciência ainda está avançando na compreensão do timing, do tipo de hormônio, da via de administração e do perfil da paciente. Terapia hormonal não é uma solução única e universal, mas isso não invalida seu papel em sintomas, qualidade de vida e possíveis efeitos neuroprotetores quando bem indicada,” explica.
A pesquisa reforça ainda que sintomas cognitivos frequentemente relatados por mulheres na menopausa, como lapsos de memória, dificuldade de concentração e sensação de confusão mental, não são subjetivos nem psicológicos, mas refletem mudanças biológicas mensuráveis. “Durante anos, essas queixas foram minimizadas ou tratadas como estresse, ansiedade ou excesso de trabalho. Hoje, os exames de imagem mostram que há uma base neurológica concreta para esse sofrimento,” diz Fabiane.
Outro ponto relevante levantado pelos pesquisadores é a necessidade de ampliar o olhar para a saúde mental feminina nesse período. Mulheres em terapia hormonal apresentaram maior prevalência de histórico de transtornos mentais, o que, segundo os autores, indica que muitas já chegavam ao tratamento com sofrimento psíquico prévio. “Isso reforça a importância do acompanhamento integral, que inclua avaliação hormonal, neurológica e emocional, e não apenas o tratamento isolado de sintomas,” pontua a médica.
A especialista reforça que hábitos como atividade física regular, sono de qualidade, alimentação equilibrada, controle do estresse e acompanhamento médico individualizado continuam sendo pilares fundamentais para a proteção da saúde cerebral feminina ao longo do envelhecimento.
Para a Dra., o estudo britânico marca uma virada no entendimento da menopausa como um evento sistêmico e cerebral. “A menopausa não acontece apenas nos ovários. Ela acontece no cérebro, no coração, nos ossos e no metabolismo. Reconhecer isso é essencial para prevenir declínio cognitivo, preservar autonomia e garantir qualidade de vida a longo prazo,” conclui.
O Dr. Malavasi também é enfático quanto à necessidade da prática de atividades físicas para evitar possíveis síndromes demenciais. Ele recomenda, em específico o fortalecimento de pernas. Isto pois treinar os grandes músculos musculares é um poderoso estímulo para o cérebro: fazer agachamentos e subir escadas, por exemplo, são atividades que aumentam o fluxo sanguíneo cerebral e a produção de BNDF (fator neurotrófico derivado do cérebro) que atua diretamente na formação de novos neurônios e na manutenção de conexões neuronais.
Apesar de tantas perspectivas de prevenção há o complexo lado psicológico dessa descoberta - afinal, são tantos rótulos que acompanham a mulher ao longo dos anos. "É fundamental que a ciência estude os fatores biológicos ligados à depressão. Quanto melhor sabemos, melhor podemos lidar com essa doença. Mas por outro lado precisamos ter cuidado para que essas descobertas não reforcem antigos estigmas sobre a fragilidade feminina," dia a psicóloga e psicanalista Katia Calegari. ‘’A menopausa já é uma fase marcada por mudanças físicas, emocionais e sociais importantes, que exigem adaptação e apoio. Quando a comunicação enfatiza apenas riscos biológicos — como maior predisposição à depressão ou perda de massa cinzenta — isso pode aumentar sentimentos de insegurança e insuficiência. Toda informação deveria ampliar o cuidado e a compreensão e não aumentar o peso que as mulheres já carregam ao longo da vida," completa.
*Vanessa Koperszé é jornalista na luta por um climatério melhor - Menocausa
*Com edição de Marina Yazbek Dias Peres