Nem todo recomeço nasce de uma escolha. Às vezes, ele chega como uma ruptura silenciosa ou um diagnóstico avassalador, que pode vir com a dor
Dra. Lina Konno Ishida* Publicado em 14/05/2026, às 06h00

Após uma década dedicada à Ginecologia e Obstetrícia, a vida de uma médica mudou drasticamente com o diagnóstico de câncer de mama, levando-a a enfrentar cirurgias e quimioterapia, o que resultou em uma neuropatia que a impediu de continuar sua carreira.
A experiência da doença trouxe à médica uma nova perspectiva sobre a dor e a identidade, revelando que a luta contra a limitação física é também uma batalha existencial, refletindo a desorientação que muitos enfrentam em momentos de crise.
Com a necessidade de se reinventar, ela se especializou em acupuntura e agora atende pacientes com dor crônica, compartilhando sua jornada em um livro que aborda a recuperação de propósito e qualidade de vida, enfatizando que a dor não define quem somos.
Após a residência em Ginecologia e Obstetrícia, vivi por dez anos a vida que sempre imaginei: entre centros cirúrgicos, consultórios e hospitais. Eu acompanhava gestantes, trazia vidas ao mundo e ajudava mulheres a atravessar fases críticas de saúde. Era uma rotina intensa, imprevisível e profundamente significativa. A medicina não era apenas minha profissão; era parte de quem eu era. Ser médica organizava a minha identidade.
Até que, em um sábado de Semana Santa, aos 37 anos, tudo mudou com um diagnóstico de câncer de mama.
Enfrentei quatro cirurgias e sessões de quimioterapia. Ao final do tratamento, surgiu um novo desafio: desenvolvi uma neuropatia — sequela da quimioterapia — que me impediu de continuar na especialidade que eu tanto amava. Eu não conseguiria mais operar. Tomada por uma tristeza profunda, precisei me afastar do trabalho. Naquele momento, senti que perdia mais do que a profissão; perdia uma parte de mim mesma. Se eu não era mais a cirurgiã, quem eu seria agora?
Com duas filhas pequenas e enfrentando um divórcio, eu simplesmente não podia parar. Busquei alívio na acupuntura e, o que começou como tratamento pessoal, tornou-se um novo caminho profissional. Fiz a especialização e decidi mudar minha área de atuação.
Hoje, entendo que o impacto de uma doença crônica não é apenas físico — é existencial. Quando o corpo limita, a nossa "cultura da performance" é cruel. Se você não produz ou não cuida como antes, começa a acreditar que vale menos. A dor deixa de ser um sintoma e passa a ser um rótulo: "eu sou a minha dor".
Vivi na pele o que hoje ouço diariamente de minhas pacientes: a desorientação de ter portas fechadas repentinamente. No entanto, foi nessa vulnerabilidade que compreendi algo profundo: a reconstrução não é tentar voltar a ser quem éramos antes, mas ter a coragem de nos reinventarmos diante do que a vida exige.
Embora minha história passe por um diagnóstico médico, essa é uma jornada universal. Todos estamos sujeitos a perdas, mudanças bruscas de rota ou planos que se desfazem. Sentir medo, revolta e raiva é legítimo. O que não podemos é permanecer imóveis. Você não é o seu diagnóstico, a sua dor na coluna ou a sua limitação profissional. Você é uma pessoa inteira vivendo uma experiência difícil — e isso muda tudo.
Anos atrás, no auge do pânico entre exames de imagem, fiz uma oração silenciosa pedindo tempo. Queria estar por perto para ver minhas filhas na escola, apoiá-las na escolha profissional e, quem sabe, chegar à formatura.
Recentemente, o tempo me deu a resposta.
Estava na formatura de Medicina da minha filha mais velha. No Culto Ecumênico, após as falas do padre e do pastor, o representante judeu subiu ao palco. Ele disse algo curioso: que nem sabia exatamente por que estava ali, pois não era rabino. Disse apenas que era um médico judeu e falou seu nome.
Naquele momento, eu me arrepiei por inteira. Era o meu oncologista.
Ali estava o médico que cuidou de mim no período mais sombrio, e ali estava minha filha, celebrando o início de sua própria jornada na medicina. Ao meu lado, de braços dados, estava minha caçula. A ficha caiu. Anos antes, em total solidão, eu havia pedido tempo para chegar até aquele exato dia.
Aquele momento não era apenas sobre um diploma; era um lembrete silencioso de que me foi permitido estar presente.
Às vezes, no meio da incerteza, não conseguimos enxergar o que ainda está sendo construído. Por isso, sinto uma gratidão profunda por poder contar esta história. Não apenas a história da doença, mas a de tudo o que foi possível viver depois dela.
Atualmente, uno minha formação médica à minha experiência de vida para atender pacientes que convivem com dor crônica, ansiedade e insônia. Dessa vivência também nasceu meu livro, onde compartilho caminhos para essa reconstrução.
A dor pode fazer parte da sua vida, mas ela não define quem você é. É possível recuperar o propósito e a qualidade de vida, mesmo com limitações. O convite que faço é para que você também redescubra a autoria da sua própria história.
* Dra. Lina Konno Ishida é médica com atuação em dor crônica, ansiedade e insônia por meio da acupuntura e/ou medicamentoso. Autora do livro "Eu não sou a minha Dor - Como recuperar identidade, propósito e qualidade de vida"
Quer incentivar este jornalismo sério e independente? Você pode patrocinar uma coluna ou o site como um todo. Entre em contato com o site clicando aqui.