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Até onde a medicina deve ir para prolongar uma vida?

Entenda como a medicina pode prolongar a vida, mas nem sempre isso significa cuidado adequado ao paciente ou respeito a sua vontade

Dr. Rodolfo Moraes* Publicado em 11/09/2026, às 06h00

Dr. Rodolfo Moraes, médico paliativista. - Foto: Divulgação
Dr. Rodolfo Moraes, médico paliativista. - Foto: Divulgação

A medicina moderna possui recursos para prolongar a vida, mas isso não deve ser confundido com cuidado efetivo, especialmente em situações de doenças graves onde decisões difíceis são frequentemente tomadas sem preparação adequada.

A pressão familiar por intervenções médicas pode levar à obstinação terapêutica, onde tratamentos sem benefício real são mantidos, aumentando o sofrimento do paciente e ignorando suas preferências sobre qualidade de vida.

Os cuidados paliativos são essenciais para garantir que o cuidado continue quando a cura não é mais possível, focando no alívio do sofrimento e no respeito às escolhas do paciente, além de promover a autonomia através das Diretivas Antecipadas de Vontade, que ainda são pouco conhecidas no Brasil.

Resumo gerado por IA

A medicina tem recursos para prolongar a vida. Contudo, ainda precisamos reconhecer que prolongá-la não é sinônimo de cuidado.

Essa talvez seja uma das decisões mais difíceis diante de uma doença grave. E quase nunca estamos preparados para ela.

Quando tudo parece estar por um fio, é comum a família pedir: “Doutor, faça tudo o que for possível”.

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É uma frase compreensível. Ela nasce do amor, do medo de perder alguém e da esperança de que exista sempre mais alguma coisa a fazer.

Mas o que significa, de fato, fazer tudo?

Significa utilizar todos os recursos disponíveis, independentemente do benefício para o paciente? Significa prolongar funções do organismo mesmo quando a pessoa já não tem possibilidade de recuperar uma vida que considere aceitável?

A tecnologia ampliou enormemente aquilo que conseguimos fazer. Mas o fato de um procedimento ser tecnicamente possível não significa que ele seja necessariamente adequado.

É nesse ponto que a medicina precisa olhar para além da doença.

Cuidar de uma pessoa não é apenas combater células doentes, controlar exames ou manter órgãos funcionando. É também compreender quem está diante de nós.

O que essa pessoa considera qualidade de vida? Quais tratamentos aceitaria ou recusaria, e o que ela estaria disposta a enfrentar para ganhar mais tempo?

Essas perguntas deveriam fazer parte da conversa muito antes de uma internação ou de uma situação de emergência.

Quando não fazemos isso, decisões enormes acabam sendo tomadas em ambientes de tensão, muitas vezes com o paciente sem condições de expressar sua vontade. A família, angustiada, precisa decidir por alguém sem saber exatamente o que essa pessoa gostaria.

É nesse cenário que pode surgir a obstinação terapêutica: a insistência em tratamentos que já não oferecem benefício real, mas podem acrescentar sofrimento.

E é importante dizer: reconhecer esse limite não significa abandonar o paciente.

Os cuidados paliativos existem justamente para que o cuidado continue quando a cura deixa de ser possível ou quando determinados tratamentos já não fazem sentido. O objetivo é aliviar o sofrimento e respeitar valores, desejos e escolhas.

Ainda existe uma ideia equivocada de que cuidados paliativos são sinônimo de “fim” ou de desistência. Não são.

São uma mudança de perspectiva.

Em vez de perguntar apenas “o que mais podemos fazer?”, passamos a perguntar também: “o que é importante para esta pessoa, agora?”.

Essa mudança pode transformar a experiência de uma doença grave e, inclusive, da própria finitude em si.

Também precisamos falar mais sobre autonomia. No Brasil, as Diretivas Antecipadas de Vontade permitem que uma pessoa registre previamente suas preferências sobre tratamentos, caso futuramente não possa manifestá-las.

Poucas pessoas conhecem esse recurso.

Talvez porque falar sobre a própria finitude ainda seja um tabu.

Mas conversar sobre a morte não significa desejar morrer. Significa reconhecer que a vida tem limites e que, enquanto podemos escolher, temos o direito de dizer como queremos ser cuidados.

A pergunta que proponho não é se a medicina deve fazer tudo o que consegue, mas sim quando prolongar a vida significa deixar de lado aquilo que dá sentido a ela?

Talvez a medicina mais humana seja justamente aquela que sabe tratar quando é preciso, insistir quando há benefício e, principalmente, escutar quando o paciente precisa ser colocado no centro da decisão.

Afinal de contas, se por um lado prolongar a vida pode ser uma conquista, por outro, prolongar o sofrimento, sem sentido, não.

* Dr. Rodolfo Moraes é médico especialista em Clínica Médica e Medicina Paliativa, membro ativo dos comitês de Bioética e Espiritualidade da ANCP (Academia Nacional de Cuidados Paliativos). Atua como coordenador e médico paliativista nos serviços de cuidados paliativos no Hospital do Câncer, na Santa Casa e no Hospital São Joaquim de Franca SP. É autor do livro O Erro é Chamar de “Fim” – O que os cuidados paliativos ensinam sobre viver até o último suspiro.

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