A fisioterapia oncológica é essencial para melhorar a qualidade de vida dos pacientes, desde o diagnóstico até os cuidados paliativos
Ana Paula Oliveira* Publicado em 26/04/2026, às 06h00

O Congresso Latino-Americano de Fisioterapia em Oncologia, realizado em São Paulo, destacou a importância da fisioterapia oncológica na transformação do cuidado ao paciente com câncer, enfatizando a necessidade de integração desse serviço desde o início do tratamento.
Os profissionais relataram que a fisioterapia não apenas reabilita, mas também preserva a autonomia e dignidade dos pacientes, enfrentando os efeitos colaterais do câncer e promovendo qualidade de vida em todas as fases do tratamento.
O evento também ressaltou a importância da formação de novos fisioterapeutas qualificados, dada a crescente demanda e a evolução do perfil dos pacientes, além de fortalecer conexões internacionais que estimulam a produção científica na área.
Estar em um evento como o Congresso Latino-Americano de Fisioterapia em Oncologia – COLAFO 2026, realizado em São Paulo entre os dias 9 e 11 de abril, é sempre um lembrete potente de que não estamos sozinhos. Somos muitos, e seguimos crescendo, os profissionais comprometidos em transformar a forma como o paciente com câncer é cuidado no Brasil e na América Latina.
Mas, para além da troca científica e das conexões que um evento desse porte proporciona, o que mais me atravessa é a certeza de que a fisioterapia oncológica ainda precisa ser mais conhecida, mais compreendida e, principalmente, mais integrada à jornada do paciente desde o início.
Porque a fisioterapia oncológica não começa depois. Ela começa antes, durante e segue até quando for necessário.
Ao longo da minha trajetória, tenho visto de perto o quanto a atuação do fisioterapeuta pode mudar a experiência de quem enfrenta o câncer. Não se trata apenas de reabilitar um movimento ou tratar uma dor, embora isso já seja, por si só, extremamente relevante. Trata-se de preservar autonomia, funcionalidade e dignidade em um momento em que tantas coisas parecem fugir do controle.
Quando um paciente inicia um tratamento oncológico, ele não está lidando apenas com a doença. Ele enfrenta efeitos colaterais intensos, como fadiga, perda de força, limitações físicas, dor e, muitas vezes, um impacto emocional profundo. É nesse cenário que a fisioterapia se insere como um cuidado essencial.
O trabalho do profissional pode prevenir complicações, reduzir sintomas e acelerar a recuperação. Em muitos casos, conseguimos evitar perdas funcionais importantes. Em outros, devolvemos ao paciente a capacidade de realizar atividades simples do dia a dia. E isso, para quem está atravessando um tratamento tão duro, tem um valor imensurável.
E há algo que considero central: a fisioterapia oncológica olha para a pessoa, não apenas para o diagnóstico. Atendemos crianças, adultos, idosos. Pacientes em início de tratamento, em reabilitação ou em cuidados paliativos. Em cada fase, o objetivo muda. Mas o compromisso permanece o mesmo: promover qualidade de vida.
Nos cuidados paliativos, por exemplo, nossa atuação não é sobre cura, mas sobre conforto. É sobre aliviar a dor, facilitar a respiração, permitir que aquele paciente viva com o máximo de dignidade possível. Isso também é cuidado. Isso também é ciência.
Durante o COLAFO 2026, ouvi relatos de colegas de diferentes regiões do Brasil, inclusive de contextos em que o acesso ainda é mais desafiador. E ficou evidente o quanto temos avançado. Ver experiências do serviço público sendo compartilhadas, como as do Amazonas, é a prova de que estamos construindo uma fisioterapia oncológica cada vez mais sólida, diversa e representativa.
Outro ponto que me marcou foi o fortalecimento das conexões internacionais, como a parceria firmada com a associação argentina da área. Esse tipo de movimento amplia horizontes, estimula a produção científica e nos ajuda a evoluir como especialidade.
Mas, se há algo que eventos como esse deixam ainda mais claro, é que o crescimento do setor precisa caminhar junto com a formação de novos profissionais.
A demanda existe e tende a crescer. O perfil dos pacientes oncológicos está mudando, com diagnósticos cada vez mais precoces e uma expectativa maior de retorno às atividades. Isso exige uma atuação qualificada, baseada em evidências e, ao mesmo tempo, profundamente humana. Por isso, a especialização não é um diferencial, e, sim, uma necessidade.
Precisamos de fisioterapeutas preparados para atuar com segurança, conhecimento técnico e sensibilidade. Profissionais que entendam que, por trás de cada protocolo, existe uma história. E que cada história importa.
Se hoje a fisioterapia oncológica ganha mais espaço, é porque existe um movimento coletivo, de profissionais, instituições e iniciativas educacionais, comprometido com essa transformação. E eu acredito profundamente que estamos no caminho certo. Seguimos estudando, pesquisando, trocando experiências. Seguimos construindo pontes. E, acima de tudo, seguimos cuidando de vidas. Porque, no fim, é disso que se trata.
* Ana Paula Oliveira é fisioterapeuta especialista em Oncologia pelo Coffito/ABFO e diretora científica da BIOONCO.
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