Entenda como a pressão por desempenho impacta a saúde mental das mulheres em posições de liderança e as consequências disso.
Kelly Vara* Publicado em 03/07/2026, às 06h00

O aumento da presença feminina em cargos de liderança traz à tona o custo emocional que muitas mulheres enfrentam, evidenciando a pressão por desempenho e a falta de suporte adequado no ambiente de trabalho.
Dados da Previdência Social mostram que, em 2025, 63,46% dos benefícios concedidos por transtornos mentais foram para mulheres, refletindo a sobrecarga emocional que elas enfrentam em suas jornadas profissionais e pessoais.
Para mitigar esses problemas, é essencial que as empresas reconheçam a realidade das mulheres líderes e implementem condições que promovam sua saúde mental e bem-estar, evitando assim a perda de talentos e comprometimento dos resultados organizacionais.
Nos últimos anos, vimos um avanço importante na presença feminina em cargos de liderança. Essa conquista, sem dúvida, representa uma mudança significativa no mercado de trabalho. No entanto, por trás desse movimento, existe uma realidade que ainda é pouco discutida: o custo emocional que muitas mulheres enfrentam para sustentar esse lugar. A cobrança por desempenho continua alta, mas as condições nem sempre acompanham essa evolução.
Vivi dois episódios de burnout sendo executiva de RH. Eu sabia o que estava acontecendo comigo, tinha o conhecimento técnico, e ainda assim não me protegi. Isso me diz muito sobre o ambiente que muitas mulheres líderes enfrentam.
Ao longo da minha experiência como psicóloga e como executiva, observo que muitas mulheres chegam à liderança já sobrecarregadas. Existe uma pressão constante para provar competência, manter alta performance e, ao mesmo tempo, dar conta das demandas da vida pessoal. O trabalho não termina quando o expediente acaba. Não raramente ele continua em casa, na gestão da rotina, dos filhos, da família. Essa dupla jornada não é apenas física, é emocional, e invisível.
Esse acúmulo gera um tipo de esgotamento silencioso. Diferente de outros quadros mais evidentes, o burnout em mulheres líderes nem sempre aparece de forma explícita. Muitas continuam entregando resultados, participando de reuniões e liderando equipes enquanto internamente estão exaustas. Isso dificulta a identificação do problema, tanto pelas próprias profissionais quanto pelas organizações.
Outro ponto importante é que as oportunidades ainda não são distribuídas de forma igual. Mulheres frequentemente enfrentam mais barreiras para crescer, são mais cobradas em relação à postura e desempenho e, ao mesmo tempo, têm menos espaço para falhar. Essa combinação cria um ambiente de alta exigência e pouca margem de segurança emocional, o que contribui diretamente para o desgaste ao longo do tempo.
Em 2025, a Previdência Social concedeu 546.254** benefícios por transtornos mentais e comportamentais (capítulo V da Classificação Internacional de Doenças) - crescimento de 15,66% em comparação a 2024, quando foram concedidos 472.328 benefícios. As duas doenças com maior quantidade de benefícios concedidos no âmbito deste capítulo foram transtornos ansiosos e episódios depressivos, tanto em 2024 quanto em 2025. Considerando-se o sexo, a quantidade de afastamentos por transtornos mentais é maior entre as mulheres: 63,46% dos benefícios.
O impacto disso não se limita ao indivíduo. Empresas que não reconhecem essa realidade acabam enfrentando consequências importantes, como queda de engajamento, aumento de afastamentos e perda de talentos femininos estratégicos. Por isso, ignorar esse cenário é, na prática, comprometer resultados.
Falar sobre esse tema não é enfraquecer a ideia de liderança feminina, pelo contrário. É fortalecer esse movimento com mais consciência e responsabilidade. Não basta abrir espaço para que mulheres cheguem ao topo. É fundamental criar condições para que elas permaneçam saudáveis, engajadas e capazes de sustentar sua performance ao longo do tempo. Afinal, sucesso não deveria, em hipótese alguma, custar a saúde mental.
**Fonte: Previdência Social concede 546.254 benefícios por incapacidade temporária por transtornos mentais e comportamentais — Ministério da Previdência Social
*Kelly Vara é psicóloga e mentora estratégica especializada em saúde mental no trabalho. Com mais de 20 anos de experiência como executiva de Recursos Humanos, desenvolveu o Método Essência®, que integra psicologia, neurociência e estratégia de carreira para promover alta performance com equilíbrio emocional. Após vivenciar dois episódios de burnout, passou a atuar ajudando profissionais, líderes e empresas a alcançarem resultados sustentáveis sem comprometer a saúde mental.
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