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Crianças e adolescentes ansiosos: o que estamos deixando de perceber?

Entenda como a pressão social e digital contribui para o aumento da ansiedade entre jovens e como devemos perceber isso

Larissa Fonseca* Publicado em 24/06/2026, às 06h00

O aumento de expectativas na sociedade também aumenta a ansiedade em jovens. - pexels
O aumento de expectativas na sociedade também aumenta a ansiedade em jovens. - pexels

O aumento dos casos de ansiedade entre crianças e adolescentes tem gerado preocupações em famílias e profissionais, refletindo mudanças significativas na infância contemporânea, marcada por hiperconexão e pressão social constante.

Fatores como o acesso instantâneo a informações, comparações sociais exacerbadas pelas redes sociais e uma cultura que prioriza produtividade contribuem para o crescimento da ansiedade entre os jovens.

É essencial promover um ambiente que valorize o diálogo e o aprendizado a partir de erros, além de priorizar a saúde mental das novas gerações como uma responsabilidade coletiva e urgente.

Resumo gerado por IA

A ansiedade não é um fenômeno novo. Ela faz parte da experiência humana e tem uma função importante que é a de nos preparar para lidar com desafios, mudanças e situações de risco. No entanto, nos últimos anos, o número crescente de crianças e adolescentes que apresentam sinais de ansiedade tem chamado a atenção de famílias, educadores e profissionais da saúde.

Preocupações excessivas, medo de errar, necessidade constante de aprovação, dificuldade para lidar com frustrações, alterações no sono, irritabilidade e sintomas físicos sem causa médica aparente são relatos cada vez mais frequentes nos consultórios, nas escolas e dentro de casa.

Diante dessa realidade, uma pergunta merece reflexão: estamos criando uma geração mais ansiosa?

É importante reconhecer que a infância e a adolescência de hoje são muito diferentes das vividas pelas gerações anteriores. Nossos jovens crescem em um mundo hiper conectado, com acesso instantâneo a informações, estímulos constantes e uma exposição sem precedentes às opiniões e expectativas dos outros.

Se antes as comparações aconteciam apenas dentro da escola ou do círculo social mais próximo, hoje elas estão presentes a todo momento. Redes sociais, padrões de sucesso, desempenho acadêmico, aparência física e popularidade passam a ocupar espaço significativo na construção da identidade de muitas crianças e adolescentes.

Ao mesmo tempo, vivemos em uma sociedade acelerada, que valoriza produtividade, resultados e desempenho. Muitas vezes, sem perceber, transmitimos aos mais jovens a ideia de que precisam estar sempre preparados, sempre ocupados e sempre alcançando novos objetivos.

As agendas também se tornaram mais cheias. Entre escola, cursos, atividades extracurriculares, esportes e compromissos diversos, sobra pouco tempo para o descanso, para o ócio criativo e para experiências fundamentais ao desenvolvimento emocional, como brincar, explorar interesses pessoais ou simplesmente não fazer nada por alguns momentos.

Outro aspecto que merece atenção é que crianças e adolescentes não vivem isolados das emoções dos adultos. Eles observam, sentem e absorvem o clima emocional ao seu redor. Preocupações familiares, inseguranças financeiras, conflitos e o próprio ritmo acelerado da vida contemporânea podem influenciar diretamente a forma como percebem o mundo e lidam com suas emoções.

Além disso, muitos jovens estão crescendo em uma cultura que oferece respostas rápidas para quase tudo. Quando a espera, o erro ou a frustração surgem naturalmente, podem ser vividos com maior intensidade e sofrimento. Aprender a enfrentar dificuldades, tolerar incertezas e desenvolver recursos emocionais para lidar com os desafios da vida continua sendo uma das tarefas mais importantes do desenvolvimento humano.

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Outro aspecto que merece reflexão é o imediatismo presente na sociedade atual. Hoje, grande parte dos nossos desejos pode ser atendida com poucos cliques. Pedimos comida sem precisar esperar, compramos produtos que chegam rapidamente em casa, assistimos ao que queremos no momento em que desejamos e temos acesso instantâneo a uma infinidade de informações e entretenimento. Naturalmente, crianças e adolescentes também crescem inseridos nesse contexto. Muitas vezes, a expectativa e a espera, que são experiências importantes para o desenvolvimento emocional, tornam-se cada vez menos frequentes. Como consequência, a satisfação tende a ser mais breve. Ganha-se um presente, alcança-se um objetivo ou conquista-se algo desejado, mas logo surge a necessidade de uma nova recompensa. Aprender a lidar com a espera, sustentar expectativas e encontrar prazer em processos, e não apenas em resultados imediatos, são habilidades fundamentais para a construção da tolerância à frustração e do equilíbrio emocional.

Isso não significa que toda criança ou adolescente preocupado esteja enfrentando um transtorno de ansiedade. Sentir medo antes de uma prova, insegurança diante de uma mudança ou nervosismo em situações novas faz parte do crescimento. O alerta surge quando essas emoções passam a interferir de forma significativa na rotina, na aprendizagem, nos relacionamentos ou na qualidade de vida.

Assim, devemos entender por que a ansiedade está aumentando, e refletir sobre o contexto em que nossas crianças e adolescentes estão crescendo.

Estamos oferecendo espaço para o diálogo? Estamos valorizando o esforço mais do que os resultados? Estamos permitindo que nossos jovens experimentem erros, frustrações e desafios de forma saudável? Estamos reservando tempo para o descanso, para as relações afetivas e para experiências que promovam bem-estar emocional?

Mais do que buscar respostas prontas, precisamos aprender a ouvir com atenção aquilo que os comportamentos, as emoções e os silêncios das novas gerações estão tentando nos comunicar.

A ansiedade não deve ser ignorada, mas também não deve ser vista apenas como um problema individual. Em muitos casos, ela pode ser um reflexo das exigências, pressões e características do tempo em que vivemos.

Então, meu convite fica para um ajuste de atitude nas relações familiares. Vamos focar em construir um ambiente e condições apropriados para que nossas crianças e adolescentes possam crescer com segurança emocional, confiança e equilíbrio.

Cuidar da saúde mental das novas gerações é uma responsabilidade coletiva e uma das tarefas mais urgentes do nosso tempo.

*Larissa Fonseca é Pedagoga e NeuroPedagoga graduada pela USP, Pós Graduada em Psicopedagogia, Psicomotricidade e Educação Infantil. Autora do livro Dúvidas de Mãe.

*Com edição de Marina Yazbek Dias Peres.