Mariana Kotscho
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Animais resgatados ajudam a reconstruir habilidades socioemocionais de jovens da Fundação CASA

A partir do trabalho da ONG Natureza Conecta, 80% dos adolescentes apresentam melhora na construção de vínculos e habilidades socioemocionais

Redação* Publicado em 14/05/2026, às 06h00

Organização social Natureza Conecta utiliza a Terapia Assistida por Animais como ferramenta de cuidado em saúde mental. - Foto: Divulgação
Organização social Natureza Conecta utiliza a Terapia Assistida por Animais como ferramenta de cuidado em saúde mental. - Foto: Divulgação

A Natureza Conecta utiliza a Terapia Assistida por Animais para ajudar adolescentes em situação de vulnerabilidade, promovendo a reconstrução de vínculos e o desenvolvimento emocional, especialmente entre aqueles em cumprimento de medidas socioeducativas na Fundação CASA.

Mais de 150 jovens já foram atendidos, com 80% apresentando melhora nas habilidades sociais e 60% mostrando evolução em sintomas de trauma, refletindo a importância do cuidado emocional na reinserção social desses adolescentes.

O programa, que organiza a terapia em ciclos com diferentes animais, oferece continuidade e acompanhamento técnico, visando criar um ambiente seguro que favorece a expressão emocional e a construção de competências essenciais para a vida em sociedade.

Resumo gerado por IA

Para adolescentes que cresceram em contextos marcados por violência, negligência e rupturas afetivas, reconstruir vínculos pode ser um passo decisivo no processo de responsabilização, desenvolvimento emocional e construção de novos projetos de vida.

É nesse contexto que atua a Natureza Conecta, organização social que utiliza a Terapia Assistida por Animais como ferramenta de cuidado em saúde mental para crianças e adolescentes em situação de extrema vulnerabilidade. Entre os públicos atendidos estão jovens em cumprimento de medidas socioeducativas na Fundação CASA.

Ao todo, mais de 150 jovens já passaram pelos atendimentos da organização, que utiliza nas sessões animais resgatados como cães, cavalos, vacas, bois, cabras e porcos. O trabalho é conduzido por equipe multidisciplinar, com psicólogos, pedagogos e profissionais especializados no manejo e bem-estar animal.

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Com atividades realizadas tanto na fazenda da Natureza Conecta, em Itu, no interior de São Paulo, quanto em parceria com unidades da Fundação CASA, a iniciativa demonstra, na prática, que o cuidado emocional deve ser parte estruturante das estratégias voltadas à proteção, responsabilização e reinserção social desses adolescentes.

“O adolescente não pode ser visto apenas pelo ato cometido. Ele precisa ser responsabilizado, mas também compreendido a partir da sua história, dos vínculos que foram rompidos e das possibilidades que ainda podem ser construídas. Quando há cuidado emocional estruturado, conseguimos atuar sobre fatores importantes relacionados à reincidência, como impulsividade, desconfiança, baixa regulação emocional e dificuldade de construir relações seguras”, afirma Daniela Gurgel, médica-veterinária e fundadora da Natureza Conecta.

Segundo a organização, 80% dos jovens atendidos apresentam melhora na construção de vínculos e habilidades sociais, enquanto 60% demonstram evolução em sintomas associados a traumas.

Muitos dos adolescentes chegam ao programa com trajetórias marcadas por violência, abandono, instabilidade familiar e ausência de referências afetivas seguras. Esse histórico impacta diretamente a forma como lidam com emoções, confiança, autoridade, cuidado e tomada de decisão.

“Na nossa experiência, a saúde mental tem papel central quando falamos sobre adolescentes em conflito com a lei. Muitos deles aprenderam a responder ao mundo a partir da defesa, da agressividade ou da desconfiança. A terapia assistida por animais abre uma possibilidade diferente de vínculo, sem julgamento, sem ameaça e com uma resposta afetiva muito concreta”, explica Daniela.

Animais criam ambiente seguro e favorecem a expressão emocional

Na metodologia da Natureza Conecta, os animais atuam como mediadores terapêuticos. O contato com eles cria um ambiente seguro, favorecendo a expressão emocional de jovens que, muitas vezes, têm dificuldade de falar diretamente sobre suas experiências.

Diferentemente de relações humanas marcadas por conflitos, exigências ou frustrações, os animais oferecem uma interação mais direta e menos ameaçadora. A partir desse contato, os adolescentes são estimulados a desenvolver empatia, responsabilidade, autocontrole, escuta, respeito a limites e capacidade de cuidado.

“Os animais não julgam, não exigem discursos prontos e permitem que o vínculo aconteça de forma mais natural. Quando um jovem cuida de um animal, percebe suas reações, respeita seus limites e recebe uma resposta afetiva, ele começa a experimentar outras formas de se relacionar com o mundo”, afirma Daniela.

Esse processo contribui para a reconstrução emocional dos participantes. Ao cuidar de um animal, estabelecer uma rotina, compreender limites e reconhecer sinais de medo, confiança ou aproximação, o adolescente passa a exercitar competências essenciais para a vida em sociedade.

Um dos diferenciais da Natureza Conecta está na estruturação da jornada terapêutica. O programa é organizado em ciclos, nos quais diferentes espécies atuam como mediadoras de aspectos específicos do desenvolvimento socioemocional.

Os cães favorecem a construção de confiança e socialização. Bois e vacas são trabalhados a partir de temas como cuidado, presença e nutrição emocional. Os cavalos contribuem para o desenvolvimento de limites, consciência corporal, respeito e autorregulação. Cabras e porcos estimulam autonomia, resiliência, adaptação e consolidação de aprendizados.

Mais do que atividades pontuais, o programa oferece continuidade e acompanhamento técnico, permitindo observar a evolução de cada participante ao longo do processo.

Criada em 2021, a Natureza Conecta se inspira em referências internacionais da área, como a instituição norte-americana Green Chimneys, reconhecida mundialmente pelo uso terapêutico da relação entre crianças, adolescentes e animais.

“A nossa proposta é mostrar que a relação humano-animal pode ser uma ferramenta séria de cuidado em saúde mental. Quando bem conduzida, com metodologia, equipe técnica e respeito ao bem-estar animal, ela ajuda a criar caminhos reais de vínculo, responsabilização e reconstrução”, conclui Daniela.

*Edição por Lina Santiago

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