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Crise de felicidade na geração Z: o que está acontecendo com os jovens?

Estudo internacional aponta que felicidade entre os jovens de 18 a 29 anos estagnou e, em alguns casos, diminuiu, afetando o futuro da sociedade

Chrystina Barros* Publicado em 22/04/2026, às 06h00

Jovem da geração Z faz cara de insatisfação
Os níveis de felicidade entre pessoas de 18 a 29 anos pararam de crescer e, em alguns casos, estão diminuindo. - Foto: Canva Pro

Um estudo internacional revela que os níveis de felicidade entre jovens de 18 a 29 anos estagnaram ou diminuíram, o que pode resultar em adultos menos saudáveis e produtivos, afetando a sociedade como um todo.

A Geração Z enfrenta desafios como hiperconectividade, instabilidade econômica e os efeitos da pandemia, que impactam sua saúde mental, com aumento de ansiedade e depressão, conforme dados da Fiocruz e do Ministério da Saúde.

Para reverter essa tendência, é necessário revisar modelos educacionais, priorizar a saúde mental em políticas públicas e criar ambientes de trabalho que promovam o desenvolvimento, reconhecendo que a felicidade é um indicador crucial de progresso social.

Resumo gerado por IA

Um estudo internacional conduzido por universidades como Harvard e Baylor, que ouviu mais de 200 mil jovens em 22 países, acende um alerta importante: os níveis de felicidade entre pessoas de 18 a 29 anos pararam de crescer e, em alguns casos, estão diminuindo. Esse dado não pode ser analisado apenas sob a ótica das organizações. Ele aponta para um risco mais amplo: o futuro da sociedade como um todo. Jovens menos felizes hoje significam adultos potencialmente mais adoecidos, menos produtivos, mais inseguros e com menor capacidade de sustentar relações sociais, econômicas e institucionais no longo prazo.

Do ponto de vista científico, a felicidade é tratada como um indicador robusto de desenvolvimento humano. O Relatório Mundial da Felicidade, publicado anualmente pela ONU, considera dimensões como renda, saúde, apoio social, liberdade de escolha, generosidade e percepção de corrupção. A partir dessas variáveis, a felicidade passa a ser compreendida como a verdadeira medida do progresso de uma nação, indo além de indicadores econômicos tradicionais como o PIB. Quando esses pilares se fragilizam, o impacto aparece diretamente na forma como as pessoas percebem suas vidas.

A Geração Z cresceu em um ambiente marcado por hiperconectividade, exposição constante e comparação social intensificada pelas redes digitais. Soma-se a isso a instabilidade econômica, as mudanças rápidas no mercado de trabalho e os efeitos prolongados da pandemia sobre a socialização e o início da vida adulta. Há ainda um ponto relevante: trata-se de uma geração que, em muitos contextos, não tem desenvolvido plenamente a capacidade de contra-argumentar e debater. O dissenso, que é estruturante para a vida em sociedade, muitas vezes é substituído pelo bloqueio ou exclusão nas redes sociais - espaços virtuais nos quais, inclusive, nem sempre se sabe se há interação com pessoas reais. Isso empobrece o repertório social e reduz a tolerância ao conflito, elemento essencial para amadurecimento pessoal e coletivo.

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Esse contexto já apresenta impactos mensuráveis na saúde mental. No Brasil, dados da Fiocruz indicam aumento significativo de sintomas de ansiedade e depressão entre jovens após a pandemia, especialmente na faixa de 18 a 29 anos. Além disso, o Ministério da Saúde aponta crescimento nas notificações de sofrimento psíquico e ideação suicida nessa população. Não se trata de um fenômeno isolado ou de fragilidade individual, mas de um padrão que emerge de um ambiente social mais exigente, incerto e, muitas vezes, pouco estruturado para oferecer suporte.

Para as organizações, o cenário se torna ainda mais desafiador quando inserido em um contexto global de instabilidade econômica, conflitos geopolíticos e incertezas sobre o futuro do trabalho. Guerras, inflação, transformações tecnológicas aceleradas e mudanças nas cadeias produtivas impactam diretamente o mercado. No Brasil, isso se soma a desigualdades históricas, informalidade e dificuldades de acesso a oportunidades qualificadas. A Geração Z chega ao mercado carregando essas tensões e, ao mesmo tempo, trazendo demandas legítimas por desenvolvimento, propósito e condições mínimas de trabalho saudável. Ignorar esse cenário não é apenas um erro de gestão, é um risco econômico.

A discussão, portanto, precisa ser ampliada. Não se trata de rotular uma geração, mas de compreender um sistema em transformação. A queda nos níveis de felicidade entre jovens sinaliza desalinhamentos importantes entre expectativas, condições reais de vida e capacidade de resposta das instituições. Se felicidade, como apontam os estudos internacionais, é um indicador de progresso, sua redução indica que algo não está funcionando como deveria.

Reverter esse cenário exige mais do que intervenções pontuais. Exige revisão de modelos educacionais que preparem para o pensamento crítico, ambientes de trabalho que sejam estruturados e não apenas discursivos, políticas públicas que considerem saúde mental como prioridade e lideranças capazes de sustentar diálogo, limite e desenvolvimento. A felicidade não é um objetivo isolado, nem um discurso aspiracional. Ela é consequência de estruturas coerentes.

Se os jovens estão menos felizes, isso não é um problema geracional. É um diagnóstico coletivo. E, como todo diagnóstico relevante, exige ação - consistente, baseada em evidência e, principalmente, sustentada no tempo. 

* Chrystina Barros é certificada em Ciência da Felicidade pela Universidade de Berkeley, na Califórnia, especialista em Gestão de Saúde e possui MBA em Executivo em Gestão do COPPEAD. É integrante do Centro de Estudos em Gestão de Serviços de Saúde do COPPEAD/UFRJ, com experiência em Saúde Suplementar.  

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