A sociedade cobra resultados, mas esquece de cuidar de quem ensina e o sistema não consegue atrair novos docentes
Adelir Marinho* Publicado em 19/06/2026, às 06h00

A escassez de professores no Brasil tem se intensificado, com fatores como salários baixos, condições de trabalho precárias e falta de reconhecimento social contribuindo para a diminuição do interesse pela carreira docente.
Pesquisas indicam que o estado emocional dos professores impacta diretamente o desempenho dos alunos, com emoções positivas criando ambientes de aprendizagem mais eficazes, enquanto emoções negativas prejudicam as interações pedagógicas.
É necessário abordar a saúde e o bem-estar dos docentes como uma questão de política educacional, reconhecendo que a qualidade da educação depende das condições oferecidas aos professores, que enfrentam sobrecargas e estresse constantes em suas funções.
Diante das inúmeras informações e alertas que temos observado sobre a crescente escassez de professores e sobre os riscos iminentes da falta de profissionais nas próximas décadas, as pesquisas têm se intensificado na busca por respostas sobre por que cada vez menos jovens escolhem a docência como projeto de vida. Questões como salários, condições de trabalho e reconhecimento social costumam aparecer entre as principais explicações.
E, diante desse desafio que se apresenta à educação brasileira, precisamos ampliar e dar cada vez mais destaque a questões como: por que tantos professores estão adoecendo? Quem cuida de quem cuida?
Talvez essa seja uma das chaves para compreender não apenas a dificuldade de atrair novos profissionais para a carreira, mas também os desafios de manter aqueles que já estão nas escolas.
Além dos debates sobre desempenho escolar, avaliações externas e qualidade da aprendizagem, precisamos falar sobre a condição emocional daqueles que sustentam diariamente a experiência educativa.
Recentemente, uma pesquisa divulgada pela imprensa mostrou que o estado emocional dos professores influencia diretamente o desempenho dos estudantes. Docentes que experimentam emoções positivas tendem a promover ambientes mais favoráveis à aprendizagem, aumentando o interesse, a confiança e o rendimento dos alunos. Em contrapartida, emoções negativas afetam a qualidade das interações pedagógicas e os resultados educacionais.
Embora a conclusão pareça simples, ela revela algo profundo: a aprendizagem não acontece apenas por meio de conteúdos e metodologias. Ela também é construída nas relações humanas.
Quando uma professora entra na sala de aula, não leva apenas seu planejamento. Leva sua história, suas emoções, suas preocupações e sua energia disponível para estabelecer vínculos com as crianças e os jovens que encontra todos os dias.
E é justamente aí que reside uma das grandes contradições da educação contemporânea.
Exigimos que os professores sejam criativos, acolhedores, inovadores, resilientes e emocionalmente disponíveis. Ao mesmo tempo, convivemos com jornadas extensas, múltiplas demandas burocráticas, pressão por resultados e condições de trabalho que frequentemente ultrapassam os limites do razoável.
Isso nos mostra que é hora de falar sobre a professora que chega à escola exausta, que corrige atividades à noite, que prepara aulas aos finais de semana e que muitas vezes segue trabalhando mesmo quando seu corpo e sua mente pedem descanso.
Naturalizamos a sobrecarga docente como se ela fosse parte inevitável da profissão. Como se cuidar de crianças, ensinar, acolher famílias, planejar atividades, participar de reuniões e responder a demandas cada vez mais complexas não tivesse um custo.
Mas tem.
Ser professor, muitas vezes, é atuar como um malabarista.
Planejar aulas, participar de reuniões, preencher relatórios, organizar eventos, atender famílias, acompanhar estudantes com diferentes necessidades e tentar responder às inúmeras demandas que surgem ao longo do caminho.
Do lado de fora, vemos o espetáculo funcionando.
Mas raramente olhamos para quem mantém todos os pratos girando.
Quando um prato cai, a atenção se volta para a falha. Quase nunca para o esforço contínuo necessário para evitar que isso aconteça.
É por isso que as análises dos dados das pesquisas reforçam que o bem-estar docente não pode ser compreendido apenas como uma questão individual ou privada. Trata-se também de uma questão de política educacional, uma vez que o adoecimento docente passa a comprometer a permanência na carreira, a qualidade das relações pedagógicas e os processos de aprendizagem. Ele deixa de ser apenas um problema do professor e passa a ser um problema da própria educação.
Talvez seja por isso que a discussão sobre saúde docente precise deixar de ser tratada apenas como uma questão de autocuidado.
Não se trata de dizer aos professores que meditem mais, organizem melhor o tempo ou aprendam a lidar com a pressão.
Trata-se de reconhecer que uma educação de qualidade depende também das condições oferecidas a quem ensina.
Talvez a escassez de professores não seja apenas um problema de formação ou recrutamento. Talvez ela seja também um sinal de alerta sobre a forma como temos tratado aqueles que escolheram ensinar.
Porque, quando uma professora adoece, não é apenas uma profissional que sofre.
Perde a escola.
Perdem os estudantes.
Perdem as famílias.
Perde a própria educação.
E talvez seja hora de responder à pergunta que insistimos em ignorar:
O que é mais importante: o show ou o malabarista?
*Adelir Marinho é Professora Doutora, pós-doutora pela UNICAMP; especialista em Neurociência, educação e desenvolvimento infantil, escritora de diversos livros na área de Educação, pesquisadora da infância, da formação dos adultos que educam e da qualidade das experiências vividas pelas crianças nos primeiros anos de vida.
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