Entenda como a identidade docente se forma nas relações e experiências do cotidiano escolar
Adelir Aparecida Marinho de Barros* Publicado em 02/01/2026, às 06h00

A identidade docente é um processo contínuo que se constrói nas relações e experiências vividas na escola, refletindo as transformações sociais e exigindo uma nova consciência do papel do professor na formação das novas gerações.
Historicamente, a Educação Infantil foi vista como um espaço assistencialista, o que gerou uma desvalorização do papel do professor, que muitas vezes é percebido como um substituto dos pais, em vez de um educador fundamental no desenvolvimento da criança.
A ressignificação do papel do professor na Educação Infantil é essencial, reconhecendo que a docência vai além do cuidado e envolve uma prática intencional e afetiva, promovendo um constante diálogo sobre a identidade e o valor do trabalho docente na infância.
Quando foi que você se percebeu professor/a de verdade? Talvez não tenha sido no dia da formatura, nem na primeira aula, mas naquele instante silencioso em que algo dentro de você entendeu que ensinar é mais do que aplicar um conteúdo — é habitar uma função que nos atravessa por inteiro.
Falar de identidade docente é falar desse atravessamento. A identidade não nasce pronta, ela se constrói nas relações, nos encontros, nas experiências, nas vivências que nos colocam em movimento. Assim como a criança que se constitui, se humaniza nas interações, também nós, professores, vamos nos constituindo no cotidiano da escola, nos olhares, nas dúvidas, nas escolhas e nas contradições que a profissão nos apresenta.
Costumo dizer que a escola é um espelho das transformações sociais, porque ela nunca foi um espaço neutro. Ela reflete os paradigmas históricos, políticos, sociais e econômicos de cada tempo. E, se o papel da escola se transforma, a função docente também se ressignifica. O professor de hoje não é o mesmo de ontem — e isso exige consciência. Consciência da própria função, da intencionalidade da ação pedagógica e do papel que ocupamos na formação das novas gerações.
Mas para entender esse processo, precisamos compreender que toda identidade é construída a partir de dois movimentos: o conceitual e o da concepção. Os conceitos nos dão base objetiva — são as ideias que a sociedade constrói e reconhece. As concepções, por outro lado, são as formas singulares com que cada um de nós se relaciona com esses conceitos, atribuindo sentido a eles.
Assim, o conceito de ser professor pode ser coletivo, mas a concepção de ser professor de criança é algo que cada um elabora a partir de sua própria história, de suas vivências e de como se vê e é visto dentro da profissão.
E aqui encontramos uma das tensões que atravessam a identidade docente na Educação Infantil. Historicamente, essa etapa foi marcada por um discurso assistencialista, que muitas vezes reduziu o papel da Educação Infantil a um espaço de cuidado, e o professor a uma figura de “substituto dos pais”.
Essa herança ainda ressoa — nas falas das famílias, nas políticas públicas, e, às vezes, até em nossas próprias percepções sobre o valor do que fazemos. É nesse ponto que a desvalorização simbólica se instala: quando o olhar do outro — o olhar social — não reconhece o caráter profissional da docência com crianças pequenas.
Mas é justamente aí que o movimento de ressignificação se torna potente. Ressignificar é compreender que a nossa função vai além do cuidado — é cuidado que educa e educação que cuida. É o reconhecimento de que o professor da Educação Infantil não apenas acompanha o desenvolvimento da criança, mas participa da construção de sua forma de estar no mundo. E isso não é pouca coisa.
Por isso, quando falamos de identidade docente, falamos também de consciência — consciência do lugar que ocupamos, das nossas escolhas pedagógicas, das nossas concepções sobre infância, sobre criança e sobre ensino.
Ser professor de criança pequena e bem pequena é sustentar uma prática intencional e afetiva, é compreender que cada gesto, cada proposta, cada palavra carrega uma visão de mundo. E, ao mesmo tempo, é reconhecer que estamos em constante construção, porque a identidade não é estável: ela se refaz no diálogo entre o que somos, o que fazemos e o modo como o outro nos vê.
A Educação Infantil, enquanto primeira etapa da Educação Básica, é também o primeiro espaço em que a criança encontra o mundo social fora da família. E nós, professores, somos mediadores dessa travessia.
O que significa, afinal, ser professor de criança? Significa estar disponível para o encontro, para o imprevisto, para o inacabado. Significa olhar para o cotidiano como um espaço de pesquisa, de escuta e de criação. Significa, acima de tudo, compreender que a docência é uma experiência profundamente humana — feita de saberes, sim, mas também de sentidos, afetos e valores.
Talvez seja por isso que falar de identidade docente é sempre um convite ao autoconhecimento e à reflexão coletiva. Porque não se trata apenas de quem eu sou como professora, mas de quem somos nós, como categoria, dentro de um contexto histórico que ainda precisa aprender a valorizar o trabalho docente na infância.
Encerrar essa reflexão é impossível — porque a identidade docente não se encerra. Ela se transforma, se reconstrói e se reinventa junto com a escola e com a sociedade. E talvez seja justamente essa a nossa maior potência: a possibilidade de ressignificar, todos os dias, o que é ser professor de criança.
* Adelir Aparecida Marinho de Barros é professora e doutora em Educação Infantil.
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