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Leci Brandão: suas memórias, vivências e ‘consciência humana’

A capa de seu livro, começa com dois grandes nomes, de sua mãe, Lecy Assumpção Brandão e seu pai, Antônio Francisco da Silva

Patricia Martins* Publicado em 05/12/2023, às 06h00

Leci Brandão recebeu o nome de sua mãe, que era mangueirense e as influências musicais de seu pai - Foto: Roger Cipó
Leci Brandão recebeu o nome de sua mãe, que era mangueirense e as influências musicais de seu pai - Foto: Roger Cipó

Para ser a grande Leci Brandão, que conhecemos hoje, a cantora, compositora e deputada teve que percorrer uma longa estrada. Desde pequena, como sua mãe trabalhava em escola pública, ela se recorda emocionada: “eu era uma menina, que morou em fundos de uma escola pública, e ao mesmo tempo que eu morava, eu limpava, e eu estudava na escola, eram coisas bem diferentes... Porque aquela sala que eu varria, eu estudava também. Então, eu varria durante o dia, e a noite estava sentada na carteira lá. Minha mãe, sempre fez questão de dentro da possibilidade dela de me ajudar. No meu curso primário, quando eu comecei a entrar na escola, eu já entrei falando direitinho, assim que eu aprendi a ler, eu ficava lendo a mesma história, para mostrar para todo mundo que eu sabia ler”.

O ambiente da Educação, sempre foi uma narrativa presente em seu lar, e foi uma base forte em sua formação de vida. Desde pequenina, ela acompanhava e fazia leitura de matérias em jornais, isso sem ter nenhum professor particular. “Sempre estudei em escola primária! Essas transformações que foram acontecendo em minha vida, o fato de quando eu terminei o primário, e fiz concurso para os colégios Paulo Frontin, Pedro II e Guanabara, eu passei nos três. E aí meu pai, achou que eu tinha que ir para o Pedro II, que era o melhor colégio que havia na época, um colégio que sempre foi muito bem avaliado, pelas famílias cariocas”, comenta Leci.

No entanto, existe um fato, que marcou muito a Leci, durante o seu período na escola, trata-se de uma temática de extrema relevância, e que infelizmente ainda hoje, é realidade em muitos colégios do país, e que é preciso combatermos: o racismo e o bullying. “Eu era a única negra da minha turma, isso é uma coisa que me marcou bastante, eu ser uma menina pretinha, numa sala que tinha cerca de 40 alunos, por aí, e me botaram o apelido de ‘Tiziu’. Eu não sabia nem o que era Tiziu, eu escutava as pessoas falarem, ‘tiziu, tiziu, tiziu’, e fiquei sabendo que era um passarinho preto, que a gente não conhecia. Eu conheci através da escola, isso na verdade, seria um bullying que fizeram comigo, mas eu não me importei com isso, né? Depois, acabou virando uma música, o apelido ‘Tiziu’, revela Leci.

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Leci no colégio (arquivo pessoal)
Leci no colégio (arquivo pessoal)

De lá pra cá, alguns anos se passaram e Leci perdeu seu pai. Ela sentiu-se na obrigação de encontrar um emprego, para ajudar um pouco a sua mãe nas despesas de casa. No entanto, durante as entrevistas, ela percebeu o quanto o racismo estrutural se fazia presente na sociedade, pois teve dificuldades para encontrar o primeiro emprego. “Eu só arranjei trabalho, depois que o irmão de uma amiga minha, do Colégio Pedro II, que trabalhava em uma empresa de processamento de dados, me indicou. Ele disse para a irmã dela: você fala pra Leci, que vai ter uma vaga lá na firma, se ela conseguir passar direitinho, ela não vai ser reprovada no psicotécnico não, e assim aconteceu, e eu comecei a trabalhar, lá no bairro de Fátima. Depois disso, eu vi o anúncio no jornal que iria ter um concurso para telefonista, na Companhia Telefônica Brasileira (CTB), fiz o concurso, passei e pedi demissão da outra empresa, e fui para a (CTB). Assim, eu começo a trabalhar de carteira assinada. Depois, eu tive a oportunidade de ir no ‘Programa Flávio Cavalcanti’, onde eu me classifiquei. E daí, ganhei naquela noite, foi muito bom. Ao final da conversa, eu acabei recebendo a oportunidade de trabalhar na secretaria da Universidade Gama Filho, fui trabalhar no departamento pessoal e ali foi que eu realmente melhorei de ordenado”, relembra Leci, com todo seu carisma e humildade.

Após todos esses acontecimentos, surge a Estação Primeira de Mangueira, na vida de Leci Brandão, lugar onde ela foi vista por muitas pessoas. Foi ali, que ela recebeu a oportunidade de cantar, no Teatro Opinião, e teve a chance de entrar para uma gravadora, a ‘Marcos Ferreira’, e a partir deste momento, a sua carreira artística começa a brilhar.

Leci Brandão na Semi-final - Programa Flávio Cavalcanti (1968) - arquivo pessoal
Leci Brandão na Semi-final - Programa Flávio Cavalcanti (1968) - arquivo pessoal

Para Leci Brandão, a Educação e a questão das Cotas, foram importantes aliadas na busca de maior igualdade de oportunidades, em nossa sociedade. “Acredito que tudo na vida parte da Educação, quem tem educação, tem a oportunidade de estudar, sempre têm mais caminhos para poder percorrer e fortalecer na vida. Um dos grandes destaques, são as cotas, que chegaram, e a partir daí, você vê pessoas de outras raças, entrando em universidades. Você vê que as famílias, hoje tem muito orgulho de ver o seu filho prestando vestibular, obtendo a oportunidade de ingressar em cursos, que jamais poderiam surgir, as chances de eles entrarem nesses cursos, está fazendo com o que o Brasil mude. Depois que começaram a olhar que a Educação é necessária para toda e qualquer pessoa, esse cenário vai mudando, vai fortalecendo mais a nossa população preta. Hoje você já vê médico, dentista, psicólogo negros, e em outras áreas acadêmicas. O que está faltando é a oportunidade, dando oportunidade a gente cresce. Eu fui uma das primeiras artistas a falar sobre as cotas nos palcos”.

Quando falamos sobre a questão das Políticas Públicas no país, Leci é enfática: “eu acho que você tem que ter no poder do país, nas câmaras legislativas, enfim pessoas que pensem na igualdade racial, sabe se você tiver pessoas que sejam sensíveis a essas questões você, com certeza, vai ter a oportunidade de surgirem leis, que possam permitir com que as pessoas, todas possam crescer. Porque inteligência todo mundo tem, que Deus dá, o que falta é a oportunidade”.

Morando na capital paulista desde o ano 2000, Leci encarou sua primeira eleição pelo Partido Comunista do Brasil (PcdoB), em 2010, e foi a segunda mulher negra deputada estadual, mais votada de São Paulo. A primeira, foi a professora Theodosina Rosário Ribeiro. É importante nesta jornada, destacar como a cantora e compositora surgiu no cenário da política. E Leci nos dá uma lição de vida. “Primeiro, é que eu fui convidada para ser candidata, não fui eu quem procurei isso. Fui convidada para ser candidata, me espantei e procurei logo o caminho espiritual para ver o que era isso...Porque afinal de contas, eu sempre cantei, e vivi a minha vida, me apresentando, mesmo que a minha música fosse considerada de protesto, eu estava sobrevivendo. E, aceito o convite, depois da autorização espiritual que eu tive, eu me candidatei, fui eleita e trouxe de volta para a Alesp, duas cadeiras de volta, do (PC do B), graças a Deus, e aos meus orixás eu estou até hoje na Alesp, estou no quarto mandato, essa foi a oportunidade que o povo de São Paulo, que aceitou, entendeu, me respeitou e me elegeu à deputada estadual”.

Leci Brandão e sua mãe Lecy de Assumpção Brandão (foto reprodução)
Leci Brandão e sua mãe Lecy de Assumpção Brandão (foto: reprodução)

Leci Brandão, com seu jeito simples, educada e respeitosa, acredita que a pessoa que se tornou hoje, é o resultado de uma educação exemplar, que recebeu de sua mãe. “Eu acho que a simplicidade e a humildade, são duas coisas que quando dão as mãos juntas, elas abrem um caminho de conquista e reconhecimento muito grande. Você pode ter muito valor, você pode ter um sentimento de criação e tal que Deus te dá, mas se você não for humilde, se você achar que é a maior do mundo, só porque você consegue fazer algumas coisas, você não vai chegar a lugar nenhum. Você sempre tem que pensar, que você não faz nada sozinho, você tem que ter a participação de outras pessoas, nas suas conquistas e você tem que ter uma coisa muito importante chamada RESPEITO. Respeitar os outros é fundamental, é muito bom!”.

*Patrícia Martins é jornalista e pós-graduanda de Políticas Públicas de Enfrentamento à Violência contra a mulher pela PUC-Rio