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Dois nomes que o vento levou

A importância de dar voz ao luto perinatal e acolher as mães que enfrentam a dor dos nomes esquecidos pelo resto do mundo

Monalisa Nascimento dos Santos Barros* Publicado em 05/06/2026, às 06h00

O luto perinatal das mulheres precisa ser acolhido. - Foto: Canva Pro
O luto perinatal das mulheres precisa ser acolhido. - Foto: Canva Pro

Uma mulher compartilha sua experiência de perder dois filhos em partos prematuros, enfrentando o silêncio e a falta de apoio emocional em um ambiente hospitalar onde seu marido era médico. Essa dor não elaborada a acompanhou por décadas, impactando sua vida pessoal e profissional.

Após anos de luto, a autora se tornou psicóloga e se dedicou a estudar saúde reprodutiva e luto perinatal, buscando entender e nomear sua dor, além de ajudar outras mulheres que passaram por experiências semelhantes. Ela reflete sobre a importância de reconhecer e dar voz a essas perdas, que muitas vezes são silenciadas.

Atualmente, ela atende mulheres em um ambulatório de luto perinatal, oferecendo apoio e fazendo perguntas que nunca foram feitas a ela, como a possibilidade de ver e nomear seus filhos. A autora enfatiza que o que não é velado não desaparece, mas espera por reconhecimento e acolhimento.

Resumo gerado por IA

Eu tinha dezessete anos e um vestido de noiva que mal cabia na pressa. Namoro de dois anos, casamento marcado, universidade pública recém-iniciada — tudo no galope de quem acredita que a vida adulta se resolve no cartório. Casei já grávida, com doze a catorze semanas. Três meses depois, o corpo decidiu que o tempo dele era outro.

Com vinte e cinco semanas, entrei em trabalho de parto prematuro. Meu marido, médico, conhecia a equipe do hospital. Conhecia os corredores, os plantonistas, os protocolos. Eu não conhecia nada — só a expectativa de um filho que se desfazia antes mesmo de ter nome. O bebê nasceu e, em menos de vinte e quatro horas, partiu.

O que acontece com um bebê que morre no hospital quando seu pai é colega da equipe? Acontece o silêncio. Aconselharam que não levássemos o corpo. Que não houvesse velório. Que não houvesse enterro. A vida seguiria — e eu obedeci, porque aos dezessete anos você não sabe que pode perguntar, não sabe que tem o direito de chorar em público, não sabe que aquilo que não se vela também não se enterra: apenas se esconde.

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No ano seguinte, a mesma história reescrita com outras datas. Nova gestação, nova esperança contida, novo trabalho de parto prematuro. Outro bebê. Outra equipe conhecida. Outro silêncio. Outra obediência.

Dois filhos. Duas certidões que nunca existiram. Dois nomes que não foram ditos. Dois corpos que ficaram no hospital — e a pergunta que me ocorreu décadas depois, como um soco no estômago: para onde vão os bebês que ninguém leva para casa?

A vida, no entanto, insistiu. Em 1984 engravidei pela terceira vez — agora com acompanhamento rigoroso, agora com medo nos olhos e esperança trancada a sete chaves. Em fevereiro de 1985, aos vinte anos, segurei um filho vivo nos braços, Leonardo. Depois veio Júlia. Depois Pedro. A maternidade possível, a que o mundo reconhece e celebra.

Mas as outras duas maternidades — as invisíveis, as caladas, as que não ganharam nome nem lápide — continuaram latejando. Um luto que não se elabora não desaparece; ele se infiltra nos poros, nas decisões, nos silêncios do jantar de domingo.

Levei trinta anos para nomear essa dor. Quando entendi o que havia acontecido comigo, já era psicóloga. Fui atrás: mestrado, doutorado, pós-doutorados. Mergulhei na saúde sexual e reprodutiva, na justiça reprodutiva e no luto perinatal como quem revisita a própria cova para finalmente colocar flores. Hoje atendo num ambulatório de luto perinatal, acolho mulheres que chegam com o mesmo silêncio que um dia me impuseram, ensino futuros médicos a não repetirem o que fizeram comigo.

Agora eu pergunto. A cada mulher que senta à minha frente com os olhos vermelhos e o útero vazio, eu pergunto: você quer ver seu filho? Quer dar um nome? Quer uma caixinha de memórias com a pulseira de identificação, uma mecha de cabelo, a marca do pezinho?

Ninguém me fez essas perguntas. Mas eu as faço. Todos os dias. Por mim, por elas, pelos dois filhos que nunca foram velados e que carrego — agora sim, nomeados — dentro de cada atendimento, de cada aula, de cada política que ajudo a escrever.

O que não é velado não desaparece. Apenas espera, por décadas se necessário, até que alguém finalmente acenda uma vela.

Eu acendi a minha. E agora seguro a chama para quem ainda está no escuro.

* Monalisa Nascimento dos Santos Barros é psicóloga, Professora Titular dos cursos de Medicina e de Psicologia da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia e Docente do corpo permanente dos programas de Mestrado Profissional de Psicologia da Saúde IMS CAT/UFBA e de Saúde da Família FIOCRUZ/UFBA.

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