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Respeito aos pais: o que acontece quando ele deixa de existir?

Pais que evitam conflitos podem estar negligenciando seu papel de liderança. A relação de respeito é fundamental

Larissa Fonseca* Publicado em 03/06/2026, às 06h00

Respeito é fundamental para o desenvolvimento emocional dos filhos. - foto: pexels
Respeito é fundamental para o desenvolvimento emocional dos filhos. - foto: pexels

A dinâmica familiar atual revela um medo crescente dos pais em desagradar os filhos, resultando em uma perda de liderança e autoridade dentro de casa, o que pode comprometer o desenvolvimento emocional das crianças. Essa mudança de comportamento, que busca evitar conflitos, acaba por criar um ambiente onde os filhos não aprendem a respeitar limites.

Crianças que não encontram limites firmes podem crescer ansiosas e egocêntricas, acreditando que suas vontades estão acima das regras. A infância é crucial para a formação de relações saudáveis, e a falta de estrutura pode levar a dificuldades na adolescência, quando os jovens precisam de orientação e segurança emocional.

Assumir a liderança familiar não implica em autoritarismo, mas sim em estabelecer limites que promovam o respeito mútuo. O respeito é fundamental para construir vínculos saudáveis e duradouros, preparando as crianças para enfrentar os desafios da vida e respeitar a si mesmas e aos outros.

Resumo gerado por IA

Criar filhos na atualidade é caminhar em uma corda bamba emocional. Pais querem ser amigos dos filhos, querem ouvir suas vozes, validar seus sentimentos e garantir que cresçam longe dos traumas de uma educação rigidamente autoritária do passado. Mas, nessa busca legítima por leveza, muitos pais acabaram cruzando uma linha invisível e perigosa.

O medo mudou de lado. Se antigamente os filhos temiam os pais, hoje muitos lares vivem sob o compasso do receio dos adultos de desagradarem os pequenos. Pisam em ovos para evitar o choro, a birra ou a frustração. E, nessa tentativa de poupá-los, abrem mão do próprio lugar de liderança dentro da família. Aos poucos, deixam de conduzir para começar a negociar tudo, cedem para evitar conflitos e passam a atender exigências que, muitas vezes, vêm acompanhadas de impaciência, grosseria e desrespeito.

Mas crianças precisam de pais, não de espectadores das suas vontades.

Muitos pais confundem liderança com autoritarismo e, por medo de controlar demais, acabam indo para o extremo oposto e deixam de assumir a posição de referência. Mas filhos precisam de pais que acolham, amem, escutem e, principalmente, conduzam. Porque limites não afastam, eles protegem.

Quando um filho exige algo com arrogância, bate o pé ou falta com a educação, e nós corremos para atendê-lo apenas para manter uma falsa paz doméstica, não estamos amando, estamos negligenciando o papel de guiar. A criança que não encontra um limite firme dentro de casa cresce ansiosa, perdida no próprio egocentrismo. Afinal, se quem deveria pilotar o barco demonstra fragilidade diante dos meus gritos, quem está no controle? Essa é uma carga pesada demais para os ombros de um filho.

O problema é que a criança ainda não possui maturidade emocional para ocupar o lugar de quem conduz as relações. Quando ela percebe que insistir mais, reclamar mais alto, fazer birras ou faltar com respeito gera resultados, aprende uma lição perigosa que é a de que as relações funcionam pela imposição dos próprios desejos. E aquilo que parece apenas uma situação pequena do cotidiano começa, lentamente, a moldar a forma como ela irá enxergar o mundo e se relacionar com as pessoas.

Existe ainda outro ponto que merece nossa atenção. A infância é o momento em que as bases das relações são construídas. É nessa fase que a criança aprende sobre limites, convivência, respeito e sobre o lugar que ocupa dentro da família. Quando essa estrutura se estabelece de forma fragilizada, corrigir o caminho mais tarde pode se tornar muito mais difícil.

Muitos pais relatam dificuldades intensas na adolescência, mas, em alguns casos, aquilo que aparece nessa fase não começou ali, apenas se tornou maior. Uma criança que cresceu acreditando que seus desejos estão sempre acima das regras ou que não reconhece os pais como figuras de referência pode chegar à adolescência sentindo-se sem direção. E, apesar de muitas vezes parecer o contrário, adolescentes precisam (e muito) de norte, de presença e de segurança emocional.

Sem isso, os conflitos podem aumentar, o diálogo pode se tornar mais difícil e as relações familiares podem se desgastar. Porque, ainda que o adolescente busque independência, ele continua precisando sentir que existem adultos capazes de sustentar limites, oferecer orientação e ajudá-lo a atravessar essa fase tão intensa.

Além disso, existe uma verdade que precisamos encarar: sem respeito, o amor se esvazia. Não existe amor saudável sem respeito. O amor sem respeito se transforma em permissividade. Transforma-se em uma relação em que a criança acredita que pode falar de qualquer maneira, exigir tudo o que deseja e ultrapassar limites sem consequências.

O respeito não diminui o amor, ele lhe dá sustentação. É justamente o respeito que ensina a criança a reconhecer o valor do outro, a compreender que suas vontades não estão acima de tudo e que amar também significa considerar, ouvir e cuidar. Assumir a liderança do lar não significa vestir a armadura de um ditador. Significa ser a âncora segura em meio à tempestade emocional da infância e da adolescência. Significa ter a coragem de dizer um “não” amoroso, sustentando o desconforto de ver o filho contrariado hoje para que ele se torne um adulto funcional amanhã.

O mundo lá fora não será um fã-clube particular para eles; ele imporá limites, chefes, leis e frustrações. O ambiente familiar precisa ser o laboratório seguro onde eles aprendem a lidarcom tudo isso.

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Ensinar os filhos a respeitarem os pais não é sobre criar crianças obedientes ou submissas. Trata-se de construir vínculos saudáveis e duradouros. O respeito é o que sustenta as relações ao longo da vida, especialmente quando a infância passa, a adolescência chega e os desafios se tornam maiores. Relações familiares fortes precisam ser fortalecidas pela consideração, pelos limites e pelo reconhecimento do lugar que cada um ocupa dentro da família.

Além disso, o respeito não protege apenas a relação entre pais e filhos, ele protege o próprio desenvolvimento da criança. Um filho que aprende a respeitar seus pais carrega consigo algo muito maior. Ele aprende a respeitar a vida, as pessoas e a si mesmo.

E, entre tantas preocupações que ocupam o coração dos pais, talvez valha a penarefletir se você está focando apenas em tornar seus filhos satisfeitos no presente ou se está formando seres humanos emocionalmente saudáveis para o futuro.

*Larissa Fonseca é Pedagoga e NeuroPedagoga graduada pela USP, Pós Graduada em Psicopedagogia, Psicomotricidade e Educação Infantil. Autora do livro Dúvidas de Mãe.

*Com edição de Marina Yazbek Dias Peres