Em um mundo veloz e interdependente, a formação continuada precisa dialogar com a complexidade do presente para continuar sendo relevante
Alexandre Le Voci Sayad* Publicado em 14/10/2025, às 06h00

A formação de professores no Brasil enfrenta desafios significativos, especialmente na formação continuada, que ainda carece de uma implementação eficaz e de uma concepção adequada às demandas contemporâneas. A Base Nacional Comum para a Formação de Professores (BNC-Formação) é um avanço, mas a realidade educacional permanece complexa e em constante transformação.
A velocidade das mudanças tecnológicas e a desinformação são questões centrais que impactam a educação, tornando obsoletas as abordagens tradicionais. Temas urgentes, como a crise climática e a ética da inteligência artificial, ainda não estão adequadamente integrados nos currículos escolares.
Estratégias como a promoção de uma cultura de aprendizagem crítica e a valorização do diálogo entre professores são essenciais para reconfigurar a formação continuada. Iniciativas como o Congresso do ICLOC demonstram que a troca de experiências pode ser uma solução viável para enfrentar os desafios da educação contemporânea.
A formação inicial e continuada de professores no Brasil é tema recorrente de debates — e, ao mesmo tempo, um dos maiores desafios do sistema educacional contemporâneo. Se, por um lado, a BNC-Formação (Base Nacional Comum para a Formação de Professores) representa um avanço importante ao estabelecer diretrizes para a formação inicial, por outro, a formação continuada ainda enfrenta obstáculos profundos não apenas em sua implementação, mas sobretudo em sua própria concepção.
A questão central que se impõe é inevitável: como preparar educadores para a contemporaneidade se o próprio presente se tornou complexo, veloz e fluido? Como define o filósofo francês Edgar Morin, vivemos um tempo em que a realidade se estrutura por múltiplas interdependências — econômicas, culturais, tecnológicas e informacionais — e qualquer tentativa de simplificá-la é insuficiente. A velocidade do desenvolvimento tecnológico, a profusão caótica de informações (que alimenta o fenômeno da desinformação) e a emergência de competências inéditas para um mundo em permanente transformação tornam todos nós — não apenas os professores — obsoletos de um dia para o outro. O que hoje é novidade, amanhã já soa antiquado.
Questões centrais do nosso tempo, como a crise climática ou os dilemas éticos da inteligência artificial, parecem não encontrar espaço num currículo escolar que ainda tenta se libertar do engessamento das disciplinas tradicionais. Em outras palavras, talvez já tenhamos desistido de “correr atrás do futuro”; o verdadeiro desafio é alcançar o presente.
Diante desse cenário, algumas estratégias podem ajudar a reconfigurar a formação continuada de professores e aproximá-la da complexidade do nosso tempo. A primeira consiste em reverter o problema em oportunidade. A ubiquidade da aprendizagem — hoje espalhada por múltiplas telas, mídias e formatos — pode, sim, ser fonte de confusão e ruído. No entanto, se for abordada com um olhar crítico, sistêmico e curatorial, essa mesma ubiquidade pode tornar-se uma aliada poderosa da educação.
Criar uma cultura de aprendizagem que integre entretenimento, tecnologia e mediação crítica é um caminho promissor. Para isso, é essencial combinar curadoria de qualidade com uma formação sólida em educação midiática, capaz de ensinar a avaliar a credibilidade e a relevância das informações. Um exemplo simples: a clássica obra cinematográfica 2001: Uma Odisseia no Espaço (1968), quando acompanhada de leituras e debates complementares, pode oferecer um ponto de partida fértil para reflexões sobre a ética da inteligência artificial — tema urgente e transversal no mundo atual.
Outra perspectiva necessária, paradoxalmente, envolve um retorno ao que há de mais elementar: a conversa. O arquiteto e especialista em comunicação Richard Saul Wurman, ao estudar o fenômeno da desinformação para seu livro clássico Information Anxiety, concluiu que a conversa ainda é uma das formas mais eficazes de buscar informações confiáveis e compreender o mundo. Transposto para a educação, isso significa que a troca de experiências entre pares é uma das maneiras mais eficazes de atualização profissional. Encontros estruturados nesse formato têm se mostrado extremamente valiosos. Um exemplo emblemático é o Congresso do ICLOC (Instituto Cultural Lourenço Castanho), realizado em São Paulo, que há dezesseis anos — inclusive atravessando a pandemia — mantém sua relevância ao apostar num espaço horizontal de diálogo e partilha de práticas. Nele, não há grandes nomes midiáticos ou palestrantes estrelados: são os próprios professores que apresentam suas experiências e as debatem entre si.
Talvez, portanto, a resposta ao labirinto da formação continuada não esteja em um “deus ex machina” salvador, como nas tragédias de Eurípedes, nem em investimentos financeiros descomunais. A solução pode ser mais simples — e mais próxima — do que imaginamos: construir taxonomias inteligentes a partir dos conteúdos já disponíveis (muitos deles gratuitos) e fomentar espaços de encontro e diálogo profissional capazes de transformar o saber individual em inteligência coletiva.
Formar professores para a complexidade do presente exige, acima de tudo, reconhecer que a educação também precisa ser viva, mutante e permanentemente em construção — assim como o tempo em que vivemos.
*Alexandre Le Voci Sayad é educador, jornalista e escritor.
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