Entenda como a menopausa causa queda de libido e as opções de tratamento disponíveis para mulheres.
Vanessa Kopersz* Publicado em 14/01/2026, às 06h00

A queda da libido durante a menopausa é uma queixa comum entre mulheres, afetando sua vida sexual e emocional, como evidenciado pela experiência da apresentadora Fernanda Lima.
Essa diminuição do desejo sexual é atribuída à redução dos hormônios sexuais e a fatores psicológicos, como estresse e alterações na autoimagem, além do uso de medicamentos que podem impactar a libido.
O medicamento Addyi, aprovado para tratar o Transtorno do Desejo Sexual Hipoativo, atua nos neurotransmissores e não é um antidepressivo, mas ainda não está disponível no Brasil, onde alternativas como a reposição de testosterona são consideradas por algumas mulheres.
Uma das principais queixas das mulheres - e dos respectivos companheiros, claro - no climatério é, sem dúvida, a queda da libido. Não há como negar que aquele furor sexual comum nas mulheres aos 20, 30 anos vai arrefecendo na casa dos 40 (para algumas mulheres) e principalmente, na dos 50. Praticamente nenhuma mulher sai ilesa desse processo: recentemente, até a apresentadora Fernanda Lima, que fala abertamente sobre os problemas que a menopausa trouxe para a sua vida, disse que ‘’o que mais me chocou nessa fase foi a queda do desejo sexual’’.
A libido cai na menopausa principalmente devido à baixa nos hormônios sexuais (estrogênio e testosterona), que afeta a lubrificação vaginal (causando dor durante a relação), a sensibilidade genital e o humor, levando à diminuição do desejo e dificultando, assim, o alcance do orgasmo. Tudo isso somado a fatores psicológicos característicos do climatério como estresse, ansiedade e alterações na autoimagem, além de mudanças no estilo de vida e uso de medicamentos comuns para a fase, como antidepressivos.
Nos Estados Unidos, a indústria farmacêutica já apresentou uma solução para o problema: o medicamento chamado Addyi (cuja molécula é a flibanserina) que trata o ‘’Transtorno do Desejo Sexual Hipoativo’’ em mulheres com menos de 65 anos. A pílula já havia sido aprovada há uma década(!) para mulheres jovens em condição de pré-menopausa.
Ao contrário do que muita gente pode imaginar, o comprimido não é hormonal e age diretamente nos neurotransmissores . A suposta volta do desejo sexual através do fármaco aconteceria a partir do aumento da dopamina e da norepinefrina, assim como pela diminuição da serotonina. Traduzindo, pela Dra. Fabiane Berta, ginecologista e fundadora do movimento My Pausa: ‘’ O remédio aumenta dopamina e norepinefrina (os químicos do ‘quero’) e diminui o excesso de serotonina (que, em demasia, funciona como um ‘não estou no clima, obrigada).’’ É como ajustar o termostato do desejo. O fármaco não cria tesão do nada - apenas reequilibra o que estava desregulado pelo desarranjo hormonal. A mulher que começa a tomar o remédio passaria a ter mais respostas a estímulos e pensamentos sexuais, o que não acontece quando há baixa libido por causa da menopausa.
Ué, mas esse mecanismo não é mais ou menos o que se espera de certos antidepressivos? Segundo a Dra. Berta, a resposta é: ‘’sim e não. A flibanserina foi originalmente desenvolvida pela Boehringer Ingelheim como antidepressivo. Mas falhou nos testes para depressão e simplesmente não funcionou para essa finalidade’’, explica. ‘’Porém, ao final dos estudos clínicos, os pesquisadores notaram algo curioso: algumas mulheres não queriam devolver os comprimidos. O motivo? Relataram melhora na vida sexual — um ‘efeito colateral’ inesperado’’.
A partir daí, a molécula foi "reposicionada" — ou seja, passou a ser estudada especificamente para HSDD, em português ‘’Transtorno do Desejo Sexual Hipoativo’’, um desejo sexual persistentemente baixo, com sofrimento emocional significativo. A Sprout Pharmaceuticals comprou os direitos do medicamento e, após três tentativas de aprovação no FDA (recusas em 2010 e 2013), finalmente conseguiu a liberação em 2015 para mulheres na pré-menopausa, sob acusações de que a rejeição no FDA tinha um pé no sexismo. ‘’A discussão virou bandeira política e ofuscou o debate em torno da segurança da molécula’’, acredita a Dra.Beatriz Tupinambá, ginecologista e líder do projeto ‘’ressignifique a menopausa’’.
Então, não: a flibanserina não é um antidepressivo. Ela age em receptores de serotonina, sim — mas de forma diferente dos antidepressivos clássicos. Enquanto antidepressivos como os ISRS (fluoxetina, sertralina, paroxetina, escitalopram) frequentemente diminuem a libido como efeito colateral, a flibanserina foi desenhada para fazer o oposto. Mas, ’’o desejo sexual é multifatorial, complexo e individual. Reduzi-lo a uma solução simplificada ignora riscos, contexto e evidência clínica’’, crava a Dra.Beatriz.
O termo ‘’Viagra Feminino’’ é pura obra de publicitários astutos. O Addyi não é um estimulante imediato como o Viagra, exige uso diário e contínuo por semanas, e ainda não é aprovado nem comercializado no Brasil, exigindo acompanhamento médico devido a riscos de efeitos colaterais, como sonolência, tontura e queda de pressão, especialmente em interações com álcool - se beber junto, há riscos sérios de desmaios. ‘’O marketing não pode vir antes da ciência. Desejo sexual é humano, multifatorial e merece respeito’’, atesta a Dra. Beatriz.
Mas não estamos sem opção. Para quem não quer correr o risco com o Addyi quando ele chegar por aqui, ainda há a solução (à qual aderi) da testosterona via reposição hormonal. Eu uso um chip que contém o hormônio e notei significativa melhora na energia e libido! Obrigada aos Drs. Albertina Takiuti e André Malavasi, que me implantaram o ‘’pellet’’ de testosterona. Antes havia testado o creme de ‘’testo’’, sem resultados.
É fato: reposição hormonal é vida. ’’A testosterona não é hormônio masculino, as mulheres também o produzem, principalmente nos ovários e nas glândulas adrenais. Com a menopausa, esses níveis caem significativamente, e o desejo pode ir junto. O creme ou chip repõem o que seu corpo já produzia naturalmente, devolvendo os níveis anteriores à menopausa’’, explica a Dra.Fabiane.
Mas…antes que haja o ‘’decreto’’ que o Addyi é mais uma promessa vazia da indústria farmacêutica, apresento fatos:
O que você precisa saber antes de correr para a farmácia quando o fármaco chegar aqui:
A icônica ginecologista americana Mary Claire Haver resumiu bem: "Menopausa não marca o fim da sexualidade da mulher. Mas por muito tempo, a medicina tratou como se marcasse."Homens tiveram acesso a tratamentos para disfunção sexual por décadas. Mulheres esperaram. E esperaram. E ouviram que era "normal’’.
*Vanessa Kopersz é jornalista.
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