Por trás do mito do amor materno, existem experiências diversas e uma realidade que a sociedade insiste em simplificar e achar que é tudo igual
Malu Echeverria* Publicado em 07/05/2026, às 06h00

A maternidade é uma experiência única e multifacetada, moldada pela história pessoal de cada mulher e pelas expectativas sociais, revelando que não existe um único modelo de ser mãe.
Fatores como a rede de apoio e o acesso a serviços essenciais, como creches, influenciam significativamente a vivência da maternidade, com 2,3 milhões de crianças de até 3 anos fora da creche devido a dificuldades de acesso.
A sociedade frequentemente ignora as complexidades da maternidade, levando muitas mulheres a se sentirem pressionadas a não expressar suas insatisfações, especialmente em datas comemorativas como o Dia das Mães, que deveria ser um momento de reflexão sobre essas realidades.
“Está levando casaco?” “Coma os legumes.” “Você não é todo mundo.” No imaginário coletivo, mãe é tudo igual, só muda o endereço. Como se esse cuidado fosse algo esperado, inerente a toda mulher. Apesar de compartilharmos várias frases, assim como comportamentos e expectativas em relação aos nossos filhos, a maternidade é uma experiência única para cada mulher. Existem inúmeras maternidades – assim mesmo, no plural.
Essa vivência é influenciada por diversos fatores, e o primeiro deles é a sua própria história pessoal. Quando a gente decide “se jogar” de verdade na maternidade, inevitavelmente, tem de revisitar o passado, como a relação com nossos próprios pais e mães. É impossível não lembrar como fomos tratadas e questionar sobre o modo como queremos tratar os nossos filhos. Uma chance de ressignificar as experiências, guardar o que foi bom, se libertar do que foi ruim.
Além disso, o impacto pode ser maior ou menor, a depender da sua rede de apoio. Aqui estou falando tanto do suporte da família, dos amigos e da comunidade, quanto do Estado, na figura da creche, da escola, do posto de saúde e assim por diante. Enquanto algumas mães de bebês estão preocupadas com o retorno ao trabalho depois do fim da licença-maternidade, outras vivem o drama de não ter com quem deixar o filho – quase 2,3 milhões de crianças de até 3 anos estão fora da creche por dificuldade de acesso, de acordo com um levantamento do Todos Pela Educação.
Não raro, algumas mulheres se arrependem de ser mãe. O fenômeno “amo meu filho, odeio ser mãe”, que vem crescendo na internet há alguns anos, pode acontecer em qualquer classe social, aliás. O que não é difícil de compreender, pois embora a maternidade possa ser mais difícil para umas do que para outras, é um desafio para todas. Mas nenhuma delas gosta de assumir tamanha insatisfação, seja pobre ou rica. Como assim falar mal do “emprego mais importante do mundo”?
Mas pensa comigo! Digamos que você trabalhe em uma empresa incrível. Sendo cobrada por todos os lados, vive sob pressão. Em algum momento, por mais que você adore seu trabalho, há de convir que não dá para amá-lo todos os dias. Passados alguns anos, talvez você sofra um burnout e peça demissão. Os seus amigos e familiares possivelmente vão apoiar a sua decisão. Já com as mães é diferente. Elas não podem sequer dizer que estão infelizes em seus postos. Em vez de acolhidas, são apedrejadas.
E no Dia das Mães, em meio a tantos presentes e homenagens, aí é que ninguém vai querer falar sobre isso. Mas não existe “timing” melhor. Embora a comemoração seja um dos grandes eventos comerciais do ano em termos de vendas, perdendo apenas para o Natal, a data vai muito além das flores e das (obsoletas) apresentações escolares. É um dia para celebrar, sim, a força da maternidade. Ninguém passa incólume por ela. Mas também é um dia para refletir a invisibilidade materna por trás do discurso que limita a mulher a apenas um papel.
Mãe não é tudo igual. O mito do amor materno nos coloca em um pedestal, porém, ao mesmo tempo, nos afasta da verdadeira experiência de ser mãe, com toda a sua complexidade. Tem quem ame ser mãe, tem que odeie. Tem também aquelas que sequer cogitam ter filhos. Nenhuma delas está errada. Se tem alguém que falhou aqui, foi a sociedade.
*Malu Echeverria é jornalista e autora do livro “Deus é Mãe: Celebrando a Potência da Maternidade” (Editora Feminas)
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