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O direito de escolher o próprio equilíbrio

A busca pelo próprio equilíbrio entre vida pessoal e profissional é um desafio constante para muitas mulheres que são mães

Mariane Novais* Publicado em 09/05/2026, às 06h00

Equilíbrio não tem uma fórmula única: cada mulher constrói o seu a partir da própria história e dos seus limites. - Foto: Canva Pro
Equilíbrio não tem uma fórmula única: cada mulher constrói o seu a partir da própria história e dos seus limites. - Foto: Canva Pro

A conciliação entre maternidade e carreira é um desafio significativo para as mulheres, que enfrentam pressões para se destacarem em múltiplos papéis sem perder a leveza. Essa situação gera um impacto profundo na saúde mental e na vida profissional das mulheres, que frequentemente se sentem sobrecarregadas.

Dados da Organização Mundial da Saúde indicam que as mulheres realizam 76% do trabalho de cuidado não remunerado, o que sustenta tanto a vida cotidiana quanto a economia, limitando sua participação e crescimento profissional. A pressão para equilibrar trabalho e vida pessoal tem levado 48% das mulheres a priorizar a saúde mental como uma de suas maiores preocupações.

A mudança cultural nas organizações, especialmente no setor da saúde, é necessária para reconhecer o valor do cuidado como trabalho e promover um ambiente que priorize o equilíbrio e a autonomia das mulheres. O foco deve ser na valorização das escolhas individuais, permitindo que cada mulher defina seu próprio equilíbrio entre carreira e vida pessoal, sem a pressão de performar excelência em todas as áreas.

Resumo gerado por IA

Recentemente, li um artigo da Shakira que me fez pensar. Ela falava sobre maternidade, trabalho, escolhas, julgamentos e sobre essa conta que, para as mulheres, quase nunca fecha.

Não fecha porque a mulher precisa provar mais, explicar mais, equilibrar mais. Precisa ser firme, mas não dura. Sensível, mas não frágil. Ambiciosa, mas não difícil. Forte, mas sem parecer ameaçadora. Presente como mãe, disponível como profissional, cuidadosa como filha, parceira como mulher e, de preferência, fazendo tudo isso com leveza.

Mas, de verdade: conciliar tudo isso não é fácil. Trabalhar como se não tivesse casa. Cuidar da casa como se não tivesse trabalho. Cuidar dos filhos como se não tivesse carreira. Construir carreira como se não existissem filhos, culpa, cansaço, cobrança e uma lista invisível de responsabilidades que quase nunca entra na agenda, mas consome energia todos os dias.

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Eu sou mãe e executiva na área da saúde. E sou completamente apaixonada pelo que faço. Gosto de trabalhar, de construir, de criar, de resolver, de participar das decisões e de provocar movimento. Estou disponível no WhatsApp em muitos momentos do dia porque, no mundo em que vivemos, a separação rígida entre vida pessoal e profissional já não existe como antes.

Para mim, a questão nunca foi simplesmente trabalhar mais ou trabalhar menos. É aprender a fazer escolhas com mais consciência, dentro de uma vida que é complexa por natureza. É estar presente no que eu escolhi viver naquele momento. Quando estou com meus filhos, quero estar de verdade. Quando descanso, quero conseguir desligar. Quando cuido de mim, quero que esse tempo também tenha valor. E quando trabalho, quero trabalhar com intensidade, porque isso também me move e também faz parte de quem eu sou.

Talvez esse seja o ponto: equilíbrio não tem uma fórmula única. Cada mulher constrói o seu a partir da própria história, dos seus desejos, das suas responsabilidades e dos seus limites. O que para mim é escolha pode ser peso para outra. O que me dá energia pode esgotar alguém. Por isso, desconfio de qualquer discurso que tente transformar um jeito de viver em regra, modelo ideal ou verdade absoluta.

Durante muito tempo, o cuidado foi tratado como algo natural da mulher. Como se fosse instinto, vocação, destino. Mas cuidado também é trabalho. Exige tempo, energia, presença, responsabilidade e uma carga mental que quase nunca aparece, mas pesa. Não por acaso, mulheres realizam cerca de 76% de todo o trabalho de cuidado não remunerado no mundo, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS)1. Uma base invisível que sustenta não só a vida cotidiana, mas também a própria economia, muitas vezes limitando sua participação e crescimento profissional.

E isso importa também dentro das organizações. No setor da saúde, onde atuo, essa discussão ganha ainda mais força. Estamos em uma área historicamente sustentada pelo cuidado e majoritariamente feminina. Quando as mulheres mudam sua forma de enxergar carreira, maternidade, descanso e vida, elas também provocam uma mudança cultural nas empresas.

Liderança, hoje, também precisa considerar equilíbrio, escuta, maturidade emocional e a capacidade de sustentar resultados sem adoecer pessoas pelo caminho. Não por acaso, a sobrecarga tem cobrado um preço alto: segundo a Deloitte, 48% das mulheres colocam a saúde mental entre suas maiores preocupações, frequentemente associada à pressão constante de equilibrar trabalho e vida pessoal2.

Talvez o que muitas mulheres estejam dizendo agora não seja “quero voltar para casa”. Talvez seja: “quero ter autonomia para decidir como viver, sem a obrigação de performar excelência em todas as frentes o tempo todo”.

Essa mudança é poderosa. Mas exige cuidado. Romantizar qualquer modelo pode esconder desigualdades importantes. Abrir mão da autonomia financeira, por exemplo, nunca foi uma decisão neutra para as mulheres. O oposto da sobrecarga não é o retorno ao passado. O oposto da sobrecarga é a possibilidade real de escolha.

Neste Mês das Mães, talvez valha atualizar a referência. Não precisamos mais romantizar a mulher que aguenta tudo. Precisamos valorizar a mulher que consegue se respeitar. Que entende seus limites. Que assume seus desejos. Que trabalha muito, se isso fizer sentido. Que desacelera, se isso fizer sentido. Que cuida dos filhos, da carreira, da saúde, da casa e da própria vida, sem transformar tudo isso em uma competição silenciosa de exaustão.

No fim, não se trata de dar conta de tudo. Trata-se de aprender a escolher, a respirar e a viver cada parte da vida com presença. Porque equilíbrio talvez não seja fazer tudo caber. Talvez seja entender o que merece ocupar espaço em cada momento.

Referências:

  1. WHO report reveals gender inequalities at the root of global crisis in health and care work
  2. Progress for women in the workplace stagnating in four key areas, global study reveals | World Economic Forum

* Mariane Novais é diretora de Comunicação e Marca da Rede Américas.

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